Resenha do livro: Boff, Clodovis. Teoria do método teológico (Versão didática). Petrópolis, RJ: Vozes, 1998. (Coleção teologia e libertação; 1/6).

 O Frei Clodovis M. Boff é sem dúvida um dos grandes nomes da teologia atual, tanto a nível nacional como internacional. É autor de dezenas de livros, dentre os quais alguns com varias traduções para o exterior (Só a sua obra Teologia e prática. Teologia do político e suas mediações já é traduzida em pelo menos cinco línguas diferentes). Considerado um dos grandes representantes da Teologia da Libertação atualmente (o próprio autor se considera como sendo da “terceira geração” de Teólogos da Libertação),  Clodovis Boff sabe como poucos conciliar o trabalho de produção teológica “acadêmica”, e o trabalho pastoral de base (de modo especial em missões na Amazônia ocidental, especialmente no Acre), trabalhando também como assessor teológico da Pastoral popular, especialmente das CEBs.

Nesta sua obra, Teoria do método teológico, o autor tem por finalidade apresentar o aparelho metodológico da teologia, seu organon. Na verdade, esta sua obra reporta-se a um volume quatro vezes mais corposo, do qual retoma, tais quais, os “resumos” e as “leituras” (as duas partes de cada capítulo), a fim de constituir como que um “guia de estudo” para estudantes de teologia. A exposição do conteúdo é feita a partir de uma série de teses, proposições bastante simples e claras, articuladas sempre com um texto de alta relevância de uma “autoridade” em teologia, especialmente dos grandes “clássicos”.

Seu objetivo principal será o de repensar a metodologia teológica por inteiro, em toda a sua extensão, e de modo articulado, buscando integrar, na medida do possível, os resultados das pesquisas atuais na área da epistemologia teológica. Nesta sua tarefa busca, enfim (e sobretudo), “incorporar, de modo estrutural e não apenas reivindicativo, a constitutiva dimensão “libertadora” da fé”.

Segundo o autor, a metodologia teológica não se ocupa diretamente com o conteúdo da teologia (teorias), mas com sua forma, seu processo, sua prática. Quanto às regras de articulação da teologia, essas deverão estabelecer como os elementos articuladores se combinam dentro do processo teológico e segundo que etapas. Fundamentalmente, trata-se das seguintes etapas: “escuta dos testemunhos da fé; aprofundamento racional desses testemunhos e atualização em nosso contexto”. E assim como a fé, também o método teológico é (deve ser) marcado pela evangélica opção preferencial pelos pobres.

Já podemos dizer que essas etapas se articulam, na lógica pastoral, com o método Ver-Julgar-Agir, ou, na lógica popular, com o confronto entre Evangelho e Vida. Daqui resulta uma primeira conclusão da nossa parte: o método teológico é eminentemente ascendente, na medida em que seus problemas emanam da realidade histórica. E isso muda todo o enfoque da teologia.

Vejamos os fundamento da teologia. Como foi apontado acima, a teologia, como fonte objetiva, nasce da própria fé, da “fé que ama saber”; como fonte subjetiva, “é o próprio espírito humano que  “deseja naturalmente conhecer” (Aristóteles), e disso não estão excluídas as coisas da fé”.

Enquanto objeto material, a teologia estuda “a Deus e depois tudo o mais”; enquanto objeto formal, ela estuda esse Deus enquanto revelado e também toda e qualquer realidade na medida em que se relaciona como o Deus revelado. Nesse sentido é possível dizer que fazer teologia é olhar o mundo “sob o prisma crítico da fé”. É desse olhar que nascem os vários e “novos enfoques”: a teologia da libertação, feminista, étnica, inter-religiosa e ecológica.

A teologia é caracterizada como ciência na medida em que realiza as condições requeridas para tal, isto é, de ser crítica, sistemática e auto-amplificativa. Ela também aparece sob a forma de sabedoria, na medida em que seu discurso é do tipo da gnose, ou seja, “global, experencial e místico”.

Com relação às fontes da teologia, encontramos: a fé-palavra, a fé-experiência e a fé-prática. O principio formal objetivo da teologia é a Revelação ou a Palavra de Deus. O principio formal subjetivo é a fé-palavra: “teologia é refletir Deus e tudo à luz da fé”. É a fé-palavra a fonte primeira e decisiva da teologia, seu primado absoluto: “O ponto de partida teórico do discurso teológico só pode ser a fé positiva”. Porém, “a Palavra da fé é determinada (...) pela Experiência da fé”. É desta que a teologia fontal se nutre.

Com relação à fé-prática, o texto afirma que não é ela o principio iluminador da teologia, lugar ocupado pela Palavra de Deus. Mas a prática pode constituir um “ponto de confronto com a fé”, um referencial para verificar a autenticidade da própria fé, por assim dizer. “Para que seja rico e fecundo, o confronto entre fé e prática (...) deve, para o teólogo, se dar na vida real antes que na teoria teológica”. Daqui surge, então, a necessidade do teólogo tomar parte ativa na vida concreta da comunidade eclesial, de modo especial através do seu compromisso com o mundo dos pobres. “Só embreada na vida do povo, sua teologia será efetivamente libertadora”.

Falemos agora dos momentos da construção teológica, que são: 1) o positivo (escuta da fé); 2) o especulativo (a explicação da fé); e 3) o prático (atualizar ou projetar a fé na vida).

O primeiro momento isolado é insuficiente, mas é básico para os outros, pois a Escritura (testemunho primário para a escuta da fé) é a alma de toda a teologia. Uma correta hermenêutica bíblica coincide com o núcleo da metodologia teológica: confrontar a bíblia com a vida. “Isso significa que a teologia é o desdobramento teórico da Bíblia”. Os outros dois testemunhos para a escuta da fé são a tradição e o dogma.

O segundo momento da construção teológica é o especulativo ou teórico. Este consta de três passos: 1) a análise, que busca explicitar a fé; 2) a sistematização, que busca articular os dados da fé numa síntese, porém sempre aberta ao “mistério sempre maior”; 3) por fim, a criação, que consiste em lançar novas hipóteses teológicas para avançar na compreensão da fé.

Por fim, o método teológico termina com a atualização da fé, que “é uma exigência do momento histórico, marcado pelo signo da práxis”. A teologia, portanto, estará atenta a todas as dimensões da práxis; de modo particular, estará atenta à “opção preferencial pelos pobres”.

Enquanto linguagem, a teologia valorizará a linguagem analógica (um meio-termo entre a linguagem unívoca e equivoca). Está é a linguagem da comparação: ao mesmo tempo em que diz algo de verdadeiro sobre Deus, sabe que o diz de modo inadequado. “Importa levar em conta que na analogia a parte de dessemelhança é sempre maior que a de semelhança”. Isso porque o “Deus é sempre maior”. A analogia pode ser de duas espécies: a conceitual, mais abstrata que fala dos atributos de Deus; e a metafórica, mais concreta e que usa das simbologias para evocar os mistérios. Esta ultima é a linguagem preferível pela Bíblia e a mais acessível ao povo em geral.

Ao final da III seção da Parte I, Clodovis Boff apresenta as articulações da teologia. Num primeiro momento fala da relação da teologia com a filosofia e as demais ciências. Segundo o autor, a teologia se apresenta como a “ciência soberana, a sabedoria absoluta”, porque considera a realidade absoluta que é Deus, objeto máximo do pensar humano e objetivo derradeiro do mundo. Todas as ciências são consideradas como instrumentos ou mediações importantes para a teologia, no sentido de ajudá-la a “compreender mais plenamente as realidades da fé”. Além disso, essas áreas do saber trazem à teologia uma válida contribuição crítica. Da filosofia, a teologia não incorpora necessariamente um sistema, mas sim um espírito ou postura filosófica diante da realidade. Já as ciências constituem hoje um interlocutor privilegiado (embora não exclusivo) da teologia, pois lhe fornecem as mediações culturais, particularmente através das ciências sociais.

O autor adverte que “a teologia não é uma atividade puramente privada, mas uma atividade essencialmente eclesial”, isso porque o objeto da teologia, que é a fé revelada, “é uma realidade confiada a todo o Povo de Deus, sendo que só por ele se tem acesso a essa realidade”. Daí a importância da relação da teologia com o magistério (ou os magistérios: Palavra de Deus, Povo de Deus, Pastores e, incluído neste, o Sumo Pontífice). Essa não é, por princípio, uma relação de subordinação, mas fundamentalmente de colaboração. “Ambos estão subordinados à Palavra e estão a serviço do Povo de Deus”. Com efeito, a tarefa do Magistério é especificamente anunciar a Palavra e velar pela sua integralidade, e a tarefa da Teologia é, também especificamente, “aprofundar racionalmente essa mesma Palavra”.

Por fim, ainda tratando das articulações da teologia, cabe uma palavra sobre o pluralismo teológico. Ora, este encontra sua justificativa em dois fatores, igualmente importantes. O primeiro diz respeito à transcendência da fé, “de que teologia alguma, por ser humana, consegue dar totalmente conta”. Lembremos do “Mistério sempre maior”, e portanto, transcendente a toda linguagem humana.. O segundo fator é a limitação do contexto cultural, à qual “toda teologia opera e pela qual é sempre condicionada”. Daí surgir uma importante conclusão: unidade de fé na pluralidade teológica, e vice-versa, lembrando, porém que a unidade de fé será sempre a “riqueza mais preciosa”.

Vale a pena mencionar ainda algumas “questões complementares” que o autor coloca na Parte II de seu livro. A primeira delas diz respeito às disposições básicas para o estudo da teologia. A teologia, enquanto reflexão da fé a serviço do povo, exige as seguintes disposições: amor ao estudo da fé (vivido numa vitalidade sempre nova), senso do mistério (e a conseqüente humildade intelectual e teológica) e o compromisso com o povo. Ora, “todo saber humano é serviço à vida”. Assim, “a pratica teológica não termina e nem pode terminar no puro saber, mas no compromisso da fé e da caridade, no ministério da Palavra, na diaconia da libertação, enfim, na práxis vitae”.

No que se refere às formas do discurso teológico, percebemos que há diversidades segundo as funções na Igreja. Nessa linha podemos distinguir três tipos: a teologia profissional, que segue a lógica científica (e por isso mais elaborada e rigorosa); a teologia pastoral, que segue a lógica da ação (e por isso ligada ao trabalho de evangelização); e a teologia popular, que segue a lógica da vida e se apresenta como discurso espontâneo e imediato da fé. São três linguagens, mas articuladas entre si, formando uma unidade de discurso.

Quanto aos modelos históricos da prática teológica, o autor identifica três modelos maiores ao longo da história – a Patrística, a Escolástica e a Teologia atual – e outros  modelos menores. Por causa da sua “inegável originalidade e ainda por sua função universalisante”, o autor dá um destaque particular ao modelo de prática teológica da Teologia da Libertação. Esta é a teologia que se propôs a enfrentar uma das maiores questões colocadas à fé na atualidade: a “questão social”, mais precisamente, a “libertação das massas em relação a suas maiores opressões sociais”. Sua originalidade se encontra sobretudo na radicalidade do seu método: “o compromisso concreto com o pobre real, compromisso esse vivido espiritualmente como um ver a Deus no pobre e ao pobre em Deus”. 

O autor termina o livro com ainda um capítulo de caráter mais instrumental, levando em consideração o seu “publico alvo”: o noviço em teologia. Nele, dá algumas indicações para o estudo concreto da teologia (a título de simples sugestões e não como regra). Expõe, de modo bastante pedagógico a importância da aula magistral, o valor e algumas pistas para o estudo individual, algumas orientações referentes aos trabalhos de grupo e os seminários e, por fim, as principais atitudes para a pesquisa e a dissertação.

Essa obra , como já foi dito no começo, foi escrita com a finalidade de apresentar o aparelho metodológico da teologia, seu organon. E o autor o faz com uma competência que lhe é própria. Durante o trabalho, teceu os principais elementos da metodologia teológica e conseguiu com muita maestria articular as pesquisas mais recentes na área da epistemologia teológica, auxiliado também pela rica tradição teológica trazida pelos textos propostos, altamente relevantes, das “autoridades” em teologia. E ainda mais, com sua análise e exposição, foi capaz de trazer à vista a dimensão intrinsecamente libertadora que toda a teologia deve assumir.

Sim, a teologia deve partir de uma necessidade de sentido surgida a partir da realidade histórico-social da comunidade de fé. Evidentemente, como toda ciência, existem critérios de trabalho. São esses critérios que garantirão um discurso “confiável” – a nível de pesquisa – e iluminador – a nível de vivência da fé, concretizada numa prática que opte por aqueles que são os excluídos da sociedade (prática, aliás, assumida com muita exemplaridade pelo próprio Clodovis Boff). Trata-se, enfim, de em texto altamente recomendável, de cuja leitura tirarão proveito todos aqueles interessados em uma abordagem competente sobre a metodologia teológica e sua constitutiva dimensão libertadora da fé.

Rodrigo Assis Rosa, OMV

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