• Questões sobre a Renovação Carismática

    Rodrigo Assis Rosa, OMV

     

    A Teologia do Espírito, ao se esforçar por compreender a obra de Deus em sua totalidade e ao mesmo tempo interpelada a sistematizar as diversas partes que constituem o conjunto da Revelação, não pode deixar de se ocupar, ainda que sob determinado aspecto, do movimento que na atualidade se coloca inteiramente sob o signo do Espírito Santo: a Renovação “do Espírito” (conhecida aqui no Brasil de modo particular como Renovação “Carismática” Católica – a RCC).

     As seguintes reflexões basear-se-ão no interessante estudo de Yves Congar[1]. O movimento da Renovação não é o objeto central de seu interesse; contudo, julga importante abordá-lo como um desafio atual que se coloca à Igreja: ele a interpela, assim como também lhe suscita interrogações. 

    Duas importantes observações prévias são necessárias para situar o debate. A primeira é que Congar, ao olhar para a realidade da Renovação, o faz a partir de um lugar teológico-eclesial bem definido: a realidade européia, mas especificamente a Igreja da França. Essa observação não é de forma alguma banal. Seus reflexos serão percebidos pelos enfoques dados e pelas conclusões a que chega o autor. A segunda observação, em consonância com a primeira, está no próprio movimento da Renovação. Congar é ciente de que “é impossível analisar essa vasta corrente, difundida em tantos países, como uma realidade homogênea”. Por isso toda generalização é desonesta, não obstante a nossa tentativa de traçar um plano mais ou menos geral.

     Vejamos, então, alguns pontos positivos da Renovação “Carismática”, o que ela significa na conjuntura eclesial atual, “as questões válidas que ela coloca para a Igreja e qual pode ser a sua contribuição”. Essa abordagem está, nesse prisma, muito vinculada à eclesiologia e é a partir dela que vamos procurar entender a Renovação.

     Congar alerta para o fato de estarmos saindo de uma situação de cristandade, seja “por causa da fantástica mudança que está acontecendo no mundo”, seja por causa de um movimento interno da Igreja. Por cristandade se entende, resumidamente, o processo pelo qual as estruturas temporais, os valores e a própria cultura, se subordinam, se coordenam e se inscrevem mais ou menos em relação à autoridade religiosa. A mudança cultural impõe ainda a secularização dos quadros sociais – a assim chamada laicização:

     “A vida social como tal se constrói sem referência espiritual. A religião torna-se uma questão pessoal e privada. As relações social se modificam. Em parte contra a impessoalidade quase insuportável da urbanização demente e de organizações supra-racionais e programadas, os homens procuram agrupamentos livres e calorosos, onde possam estar juntos sem obrigatoriedade. No plano religioso, isso faz surgir grupos espontâneos e livres, “autogerados”, e, quanto às atividades de oração, um estilo às vezes espontâneo, pessoal e ao mesmo tempo comunitário, de livre iniciativa e não ordenado por um chefe mandatário. Nessa sociedade secularizada, com sua cultura em frangalhos, cada um procura o próprio caminho a seu modo” (p. 200).

     Com relação ao movimento interno da Igreja, enxergamos um caminho que vai desde o “eclesiocentrismo” e do “jurisdicismo coativo” até Igreja Povo de Deus (sacerdócio batismal, carisma) do Vaticano II.

     É nesse contexto social e eclesial que situamos o nascimento da Renovação “Carismática”.

    “Do ponto de vista dessa Igreja, o interesse da Renovação é assegurar de maneira excelente a qualidade sobrenatural do povo cristão na base; dar uma visão mais perceptível aos carismas, sem monopolizá-los de nenhum modo; reintroduzir no ordinário da vida eclesial atividades como a “profecia” [em um sentido bem modesto, vale dizer] ou as curas não somente espirituais (...) mas físicas” (p. 202).

     Podemos questionar o que significam para a Renovação o sentido exato de temos como a “profecia” e a “cura” – sobretudo se confrontados com os textos da moderna exegese –, mas o que não podemos negar é o fato de que esse movimento tem contribuído de uma maneira geral para a própria compreensão dos ministérios dos leigos e leigas, em confronto com a “hierarcologia” anterior (e talvez ainda muito presente em determinadas realidades eclesiais).

     Outro fato importante para uma compreensão positiva da Renovação é uma certa superação de um clima geral de racionalismo que envolve nossas liturgias, pelo menos na Igreja latina:

     “Padre Hocken insiste no fato de que o pentecostalismo introduz na vida ordinária das Igrejas o exercício de zonas do homem negligenciadas numa religião excessivamente organizada e cerebral. A Renovação introduz o papel do corpo com o bater das mãos, braços erguidos, gritos e ruídos, cantos fortemente ritmados, dança, imposição das mãos. Essas são recursos humanos, cujo exercício os pentecostalistas atribuem sem nenhuma cerimônia ao Espírito Santo, quando pode se tratar bem de outra coisa: São Paulo faz alusão à existência de tais fenômenos nos cultos pagãos (1Cor 12,2). Isso também pode ser aplicado á glossolalia” (p. 207).

     Essa revalorização da emoção e de “zonas imprescritivelmente humanas irredutíveis à razão” não deixa de causar certo receito. Afirma Congar: “o anti-intelectualismo um tanto pietista é também um perigo. Se a doutrina sem profetismo degenera em legalismo, o profetismo sem doutrina poderia tornar-se uma ilusão” (p. 207). E isso nos remete a algumas questões sobre a Renovação “Carismática”.

     A primeira questão se refere ao “caráter imediato” da espiritualidade “carismática”. Ao nosso ver, é muito valiosa a citação do pastor Gerard Delteil feita por Congar:

     “A expressão “carismática” me parece ligada a uma teologia de caráter imediato: imediatidade da Palavra apreendida através do texto, imediatidade da Presença apreendida através da experiência, imediatidade da relação expressa pelo falar em línguas, imediatidade que causa curto-circuito na história” (p. 221)

     E acrescenta Congar:

     “Procura-se e encontra-se a resposta ou a solução numa relação curta, imediata e pessoal, economizando longas e difíceis tarefas: seja quanto à abordagem exegética das Escrituras, dos problemas sociais, das questões levantadas pela crise da Igreja ligada à fantástica mudança do mundo, seja enfim das necessárias etapas em matéria de ecumenismo” (p. 221).

     O que se questiona aqui é a abdicação dos meios humanos para o discernimento e compreensão dos “sinais dos tempos”, na leitura e interpretação dos textos bíblicos e na colaboração ativa no que diz respeito às realidades temporais. A essa altura, julgamos oportuno reproduzir um texto do Vaticano II que expressa de modo sublime essa dupla necessidade, por assim dizer, da graça e da natureza:

      “(...) esta voz do chamamento do Senhor não deve de maneira alguma ser aguardada, como se chegasse por algum canal extraordinário aos ouvidos do futuro Presbítero. Antes, deve ela ser entendida e discernida pelos sinais, pelos quais todos os dias se manifesta a vontade de Deus aos cristãos que sabem escutar”[2].

     Embora trate do discernimento vocacional dos candidatos ao presbitério, esse texto é significativo no que diz respeito ao tema em questão, ou seja, da colaboração humana no dom do divino Espírito. E a nota de Paulo VI acrescentada a esse texto é ainda mais esclarecedora:

      “A voz de Deus que chama exprime-se de dois modos distintos, maravilhosos e convergentes: um interior, o da graça, o do Espírito Santo, o inefável do fascínio interior que a “voz silenciosa” e poderosa do Senhor exerce nas insondáveis profundezas da alma humana; e um exterior, humano, sensível, social, jurídico, concreto, o do ministro qualificado da Palavra de Deus, o do Apostolo, o da Hierarquia, instrumento indispensável, instituído e ordenado por Cristo, como veículo encarregado de traduzir em linguagem perceptível a mensagem do verbo e do preceito divino”[3].

     Uma outra crítica feita à Renovação é que ela pode favorecer um enfraquecimento dos engajamentos sociais. Alguns defendem inclusive essa posição como uma aplicação ou uma conseqüência do seu “caráter imediato”. Seja como for, o problema está colocado. Nesse ponto Congar parece ambíguo. Defende a Renovação como uma testemunha em nossos dias da “especificidade do religioso” (em contraposição às realidades ditas “temporais”). Mas ao mesmo tempo alerta para a exigência do “Evangelho total”, que supõe tanto o “vertical” (a relação com o transcendente) como o “horizontal” (as relações com os seres humanos). Conclui nesse ponto que a crítica feita à Renovação parece ser fundada.

     Seja como for, a resposta parece vir do próprio testemunho de algumas pessoas do movimento. Estes alegam não estarem engajados, de fato, na militância sindical e política, restringindo sua atuação “social” ao campo do testemunho individual nas diversas realidades do trabalho, do ensino, da pesquisa, etc. Não questionamos a força desse “testemunho”; o que nos impressiona é tão somente a sua dimensão exclusivamente individualista. É o indivíduo presente na sociedade, que procura ser como um fermento na massa, para usar um jargão já conhecido no meio “carismático”. Contudo, o enfoque não é uma ação organizada e muito menos comunitária.

     Por fim, um último esclarecimento sobre a própria terminologia utilizada pelo movimento. Em que sentido a Renovação é “Carismática”? É preciso alertar para essa relação da “Renovação” com o que se entende por “Carisma” e por “dom do Espírito” para evitar reducionismos.

     Segundo São Paulo, os carismas estão relacionados com a vida da Igreja, pois são dons que os cristãos são chamados a colocar a serviço da comunidade (Cf. 1Cor 12,7). Contudo, apoiado nesse mesmo texto de São Paulo, não se deve entender por carismas certas “manifestações sensíveis da presença do Espírito”. Isso seria estreitar a compreensão do termo.

     Uma vez que o carisma está a serviço da comunidade crente, não é certo limitá-lo a alguma manifestação especial ou até extraordinária. Por isso Congar evita a terminologia “Movimento carismático” atribuído ao neopentecostalismo católico. Eis sua crítica a essa compreensão demasiada estreita dos “carismáticos”:

     “1º. Corre-se o risco de assim atribuir os carismas a um grupo particular e determinável, como se o conjunto dos fieis fosse deles privado; enquanto, para São Paulo, os carismas são os dons de natureza e de graça que o Espírito distribui e utiliza kata ten charin [segundo a graça salvífica], e para a utilidade e a edificação da comunidade. Assim todos os fiéis são carismáticos, todos são chamados a exercer seus dons para a utilidade comum (...). 2º. Levando em conta o lugar ganho na opinião, eventualmente até no Movimento, pelo “falar em línguas”, pela “profecia”, pelas curas, existe o perigo de reduzir os carismas a alguma manifestação extraordinária, inclusive excepcional, o que seria também lastimável tanto para os interessados como para a Igreja”. (p. 216)

     De nossa parte, parece ilustrar melhor esse problema dos carismas extraordinários aquilo que sabiamente disse o biblista Carlos Mesters[4]: “o extraordinário do Espírito de Deus se esconde e se revela no ordinário e cotidiano da vida humana”.

     Embora longa, julgamos oportuno reproduzir aqui a excelente contribuição feita pela irmã Jeanne d’Arc, em seu resumo do congresso em Roma, no Pentecostes de 1975, a respeito do termo “carismática”:

     “Um grupo carismático

     Quando um grupo de oração, quando uma comunidade de fiéis é inundada por esses dons do Espírito, profecias, curas, obras de poder, conversões admiráveis, nós constatamos isso dizendo: É um grupo carismático – e louvamos ao Senhor.

     Contudo, se chegássemos a dizer: “Queremos fundar um grupo carismático”, tal expressão não seria aceita: daríamos a impressão de estar apitando para que o Espírito Santo venha, como se pudéssemos presumir suas intenções e dispor dele a nosso bel-prazer; não cabe a nós decidir se tal reunião será carismática ou não. Isso cabe somente a ele.

     Um carismático

     Poderíamos fazer as mesmas observações para o adjetivo empregado substantivamente. Se temos a graça de encontrar um desses seres repletos de carismas, do dom de consolação, do dom de discernimento, poderoso em obras e em palavras, podemos chamá-lo de “carismático”.

     Todavia, eu não estou certa de que possamos dizer como esta frase infantil, que foi fortemente aplaudida no Congresso: “Ser carismático é ser plenamente cristão”. Cuidado! É preciso reler São Paulo. O fato de ser plenamente cristão se mede única e exclusivamente pela plenitude da caridade. E toda a história da Igreja, e toda a hagiografia, mostra que grandes santos tiveram poucos carismas, no sentido dessas manifestações visíveis da presença do Espírito – e que outros podem receber tais dons, falar as línguas dos anjos e dos homens, ter a fé que transporta montanhas: se têm menos caridade, eles são menos cristãos e menos ainda santos.

     A questão me parece séria. É todo o “movimento carismático” que está em jogo. O perigo, e perigo real, seria não apenas, como já entre os coríntios, de ficar hipnotizado pelos dons mais espetaculares, e sim, de maneira muito mais grave, fazer de “carismático” uma espécie de superlativo de cristão. O único superlativo está do lado do amor.

     Que possa ser do agrado do Espírito, em certos lugares, em certas épocas, liberar uma cascata de carismas, é um dom que nos enche de louvor e nos faz cantar as maravilhas de Deus. Entretanto, todos os carismas são em vista da caridade, que é a única meta e o único critério.

     Que um melhor clima nas paróquias ou das comunidades, uma melhor disposição dos fiéis, uma melhor educação da fé, um melhor ensinamento sobre os carismas possam permitir ao Espírito irrigar melhor o Povo de Deus, isso seria uma benção para a Igreja. Haveria maior circulação de vida, um testemunho de alegria e de poder – mas tudo em vista da caridade. Aquém, não além. Não há nada para além do amor.

     Uma oração carismática

     No congresso, ouvimos uma admirável conferência sobre a oração: “Uma oração é toda ela sob a ação do Espírito Santo”. – “Uma oração, dom de Deus, que deve ser recebida na escuta atenta, no silêncio de pobre, e que se expressa em todo o nosso ser”. – “Intensidade de atenção e de presença”. – “Uma oração na qual o Espírito nos relembra as fidelidades de Deus e nos recorda suas misericórdias” (...). Tudo isso é bonito e bom, excelentes toques espirituais, vivos e profundos: uma descrição do florescimento em nós da graça santificante e dos dons, da ação do Espírito que clama em nós “Abba, Pai” e nos põe de acordo com o seu gemido inefável. Confesso, porém, não perceber exatamente no quê tal oração é carismática. Que uma oração seja elevada a um alto grau de intimidade e de amor, não é, parece-me, da ordem do carisma (...)

     Perdoem-me insistir, mas basta uma pequenina mudança de trilhos para desviar o trem por um outro caminho, que, em seguida, é irreversível” (pp. 2219-220).

     Poderíamos ainda fazer algumas reflexões sobre temas específicos dentro da Renovação (tal como o falar em línguas, a profecia, a cura e o batismo no espírito). Contudo, julgamos que esses pontos positivos e essas criticas podem balizar os debates no interior da Igreja. Com Congar, julgamos que a Renovação “Carismática” é um grande bem para a edificação do Povo de Deus, desde que esse movimento se compreenda como uma parte desse povo. É preciso que os fiéis da Renovação tenham ativa consciência de não ter o monopólio do Espírito Santo. Eles devem assumir sua história e sua vida, o trabalho por um mundo mais humano, em solidariedade com os irmãos e irmãs que não são da Renovação – e muitas vezes nem cristãos –, mas que também são animados pelo Espírito Santo.

     Bibliografia

     Congar, Yves. Ele é o Senhor e dá a vida. Trad. Euclides M. Balancin. São Paulo: Paulinas, 2005. (Coleção creio no Espírito Santo, nº 2) [pp. 194-300]

     CONCÍLIO VATICANO II. Decreto Presbyterorum Ordinis. São Paulo: Paulus, 2001.

     Mesters, Carlos. Descobrir e discernir o rumo do Espírito – Uma reflexão a partir da Bíblia. In: Marcio Fabri dos Anjos (Org). Sob o fogo do Espírito. Soter - Paulinas: 1999.


    [1] Ele é o Senhor e dá a vida. Trad. Euclides M. Balancin. São Paulo: Paulinas, 2005. (Coleção creio no Espírito Santo, nº 2) [pp. 194-300]

    [2] Concilio Vaticano II, Decreto Presbyterorum Ordinis, nº 11

    [3] Ibidem.

    [4] Descobrir e discernir o rumo do Espírito – Uma reflexão a partir da Bíblia. In: Marcio Fabri dos Anjos (Org). Sob o fogo do Espírito. Soter - Paulinas:1999.


 

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