QUARESMA, TEMPO FORTE DE CONVERSÃO
“Convertei-vos e crede na Boa Nova” - eis o grande
lema com o qual Jesus inicia sua pregação, lá
na Galiléia, segundo nos mostram os evangelhos (Mc 1,14-15;
Mt 4,12-17). É este também o grande convite feito
a nós cristãos no início desta Quaresma.
Mas, afinal, qual a importância que damos a este apelo evangélico?
Quando olhamos para a palavra “conversão”,
que algumas bíblias traduzem como “arrependimento”
(“arrependei-vos”), verificamos que ela assume dois
significados distintos, ou seja, existe uma mesma palavra em português
para expressar duas palavras bíblicas diferentes. Na visão
do Antigo Testamento “conversão” significaria,
sobretudo, corrigir o caminho errado. Em outras palavras significa:
perceber um pecado cometido e pedir perdão. E basta! E
por incrível que pareça muitos de nós ainda
pensamos assim: fiz alguma coisa errada, estou com a consciência
pesada, vou até o padre, me confesso e está tudo
resolvido...
Bem, é claro que tomar consciência de alguma falta
de amor cometida é importante e é até um
primeiro passo, mas a visão de Jesus e do Novo Testamento
sobre a conversão é muito mais profunda e bonita!
Aqui é utilizada a palavra “metanoia”,
que quer significar uma mudança total do próprio
modo de pensar e de agir, uma renovação completa
de nossa vida à luz do amor de Deus e do próximo.
Desse modo, se para o Antigo Testamento a conversão era
necessária (exclusivamente) a fim de evitar a ira de Deus
(cf. Ez 18,21), para Jesus é necessário converter-se
a fim de entrar no Reino de Deus (cf. Mc 1, 14-15).
É evidente que não se pode falar em conversão
se o homem não sair do estado de pecado em que está.
Mas muito mais do que um “medo de Deus”, a conversão
exige uma atitude de amor, um desejo de caminhar segundo a Sua
vontade para cada um e para a humanidade em geral. É um
traduzir com atitudes aquela intimidade/amizade que se tem com
o Pai.
A esse respeito são significativas as palavras de João
Paulo II: “Por isso, a autêntica conversão
deve ser preparada e cultivada por meio da piedosa leitura da
Sagrada Escritura e da prática dos sacramentos da reconciliação
e da Eucaristia. A conversão leva à comunhão
fraterna (...); impele à solidariedade por conscientizar
que o que fazemos pelos demais, especialmente pelos mais necessitados,
é feito a Cristo. Ela favorece, portanto, uma vida
nova, na qual não haja separação entre fé
e obras, na proposta diária ao chamado universal
à santidade. E indispensável superar a fratura
entre a fé e a vida, para que realmente se possa falar
de conversão!” (Ecclesia in América,
26). Daí decorre a necessidade de uma conversão
individual, comunitária e global.
Por fim, parece evidente a segunda parte do apelo de Jesus:
“Crede na Boa Nova”! A conversão, como vimos,
deve necessariamente suscitar uma mudança radical na nossa
vida. E nessa mudança, o modelo, o padrão, a seguir
nos vem da Boa Nova, do Evangelho, que, no fundo, significa seguir
os passos do próprio Jesus de Nazaré!
Eis porque esse é o lema da pregação de
Jesus e o principal apelo da Quaresma: fazer com que possamos
viver mais felizes, no Amor a Deus, segundo o exemplo de seu Filho
e nosso Salvador, Jesus Cristo. Exemplo este que, durante todo
ano e especialmente neste “tempo forte”, tem sua máxima
expressão na Cruz e Ressurreição, para que
saibamos que, apesar de tudo, o Amor e o Perdão sempre
serão vitoriosos!
Rodrigo Assis Rosa, OMV