PASSOS PARA O DISCERNIMENTO VOCACIONAL:
O que Deus propõe que eu faça na vida?
Esta é uma pergunta que abre caminho para um discernimento
vocacional: Qual a vontade de Deus na minha vida? Sem
muita teoria, vamos direto ao assunto. Como? Por “um estudo
de caso”.
Assim imaginemos que “eu” tenha de ajudar um jovem
que deseja saber se tem ou não vocação para
o casamento, para a vida consagrada pelos votos ou para o sacerdócio.
Esse é, portanto, um exercício do ponto de vista
do acompanhante (ou agente) vocacional.
(Também aquele que está fazendo seu próprio
processo de discernimento vocacional pode identificar-se nesses
passos. Contudo, todo discernimento, inclusive o vocacional, deve
sempre contar com a ajuda amiga de alguém “experimentado
nas coisas de Deus” e capas de ajudar a enxergar melhor
“suas marcas” em nossa vida!)
Começaremos com uma constatação de Santo
Inácio de Loyola: Muitos, no entanto, escolhem primeiro
casar-se – o que é meio – e, em segundo lugar,
servir a Deus no casamento – o que é fim. Há
também muitos outros que querem, primeiramente, ter posições
rendosas, e, depois, servir a Deus nelas. Deste modo, eles não
vão diretamente a Deus, mas querem que Deus venha diretamente
às suas afeições desordenadas. Por conseguinte,
fazem do fim, meio, e do meio, fim. Assim, o que deviam ter como
primeiro, colocam em último. Devemos ter, porém,
como primeiro, servir a Deus (...). Assim nada me deve mover a
tomar tais meios ou deles privar-me, a não ser apenas o
serviço e louvor de Deus nosso Senhor e minha salvação
eterna [Exercícios Espirituais, 169].
Assim, aqui está o 1º. passo
que devo dar, como orientador: conversar, ouvir e sondar para
perceber se há um desejo saudável de conhecer a
vontade de Deus a respeito da decisão, ou, pelo contrário,
se a pessoa quer – talvez inconscientemente – que
Deus se decida por aquilo que ela acha interessante para si mesma.
O 2º. passo é olhar para dentro
de mim mesmo (“eu”, o orientador): se um jovem, por
exemplo, me procura dizendo que quer saber a vontade de Deus a
seu respeito, já penso: Tomara que seja casar?
Ou: Tomara que seja padre, ou irmão ou frei? Não
é por aí! Devo querer apenas que a pessoa descubra
o que Deus lhe põe no coração e se anime
a seguir adiante no estado de vida que lhe foi inspirado. Santo
Inácio não admite que eu falseie o peso e a medida,
pondo-me a favor ou contra alguma possível escolha.
Possível escolha? Aí vem o 3º.
passo: num ambiente de saudável realismo,
que devo procurar garantir, é muito importante ter em conta
que nenhuma vocação autenticamente cristã,
pode estar fora dos limites indicados pela Igreja. Com o convívio
e a conversa, é relativamente fácil notar um problema
nesta área e fornecer elementos para que, suavemente, sem
violência, a pessoa cresça em maturidade cristã,
segundo o Espírito do Bom Pastor, que nunca desprezou nenhuma
ovelha perdida e a todas chama.
Disto surge uma primeira atitude importante: a pessoa a quem
quero ajudar tem comportamentos pouco cristãos? Age contra
a justiça, contra a caridade, contra a vida, enfim, contra
os mandamentos? Se sim, a primeira coisa a empreender é,
apoiando-se nos bons desejos que Deus lhe dá, ensiná-la
a examinar-se, a fazer um processo de conversão, dar-lhe
a perceber que os dez mandamentos são positivos, libertando
a nossa humanidade de “desmandos”, de “desumanizações”.
Nessa fase, como em qualquer outra, a visita e o socorro ao pobre
e desvalido, bem como a inserção num grupo de serviço
voluntário, só podem ser benéficos.
Mas se a pessoa já vive uma vida cristã: o que
fazer? Procuro observar um segundo ponto: é uma pessoa
“boazinha”, tipo camaleão, que assume a cor
do ambiente, sempre desejosa de agradar, de não contrariar?
Pessoas assim muitas vezes iludem. São tão amáveis,
dispostas, cooperadoras, que nem percebemos sua carência,
seu desejo inconsciente de ser elogiadas, mimadas, protegidas.
Estão na rota do fracasso em qualquer caminho que decidirem
tomar. São ainda muito “verdes”, muito imaturas,
muito centradas em si mesmas, na satisfação de suas
carências afetivas.
Então é preciso paciência, esperança,
respeito e atenção.
Finalmente, fechemos esse “começo de conversa”
com uma observação a respeito dos muito entusiasmados
e apressados. Se a pessoa estiver muito entusiasmada, também
é preciso dar tempo ao tempo: (Quem acompanha) ao ver que
(o/a acompanhado/a) anda consolado/a e com muito fervor, previna-o
para não fazer promessa nem nenhum voto inconsiderado e
precipitado... [EE 14]. Nada de decisões tomadas sem que
elas sejam submetidas a uma observação serena, em
que Deus seja buscado em primeiro lugar. Como diz a canção:
Que nenhuma família comece em qualquer de repente!
O 4º. passo será, portanto, que eu apresente claramente
ao candidato o que nosso Bom Deus quer para a humanidade. Aí
vem o anúncio do Reino! (cf. Mt 10,7). Com ajuda do próprio
Jesus, no seu Evangelho, vou “dando corda” à
pessoa que discerne. Se ela não tem um jeito de rezar diante
de uma passagem das Escrituras, vou precisar que ela aprenda algum
tipo de leitura orante, de meditação ou contemplação.
O jogo das pedrinhas pode ser útil, a esta altura, quando
o recurso ao Evangelho e aos gestos e palavras do Mestre é
imprescindível. Chamo jogo das pedrinhas a uma leitura
orante simples e saborosa:
Ponho-se na presença de Deus, pacifico-me de algum modo
(quem sabe repetindo de mim para mim um refrão) e suplico
a graça de bem rezar. Depois, leio (ou lembro de) um versículo.
Deixo ele cair, como uma pedrinha, “lá no fundo,
lá na água vida do meu Batismo, lá, onde
habita o Espírito”, no santuário de mim mesmo.
Ouço o ruído. Vejo os brilhos. O que ressoa. O que
fulgura. E rezo o que me ocorrer diante do que me lembro, ou sinto,
ou penso. Meu Pai, que vê o que faço em segredo,
há de me dar a recompensa (Mt 6,6)
Para ajudar a memória, é preciso pedir ao acompanhado
que anote fielmente o que foi mais importante na oração
de cada dia (uma ou duas coisas só, com brevidade!), para
vir partilhar bem concretamente o que o consolou e o que o desolou.
Neste contraste, prestando atenção à linha
das consolações, teremos clareza, eu e ele, de por
onde o Espírito está soprando. São as marcas
de Deus na vida desse nosso amigo...
Mas não é tão fácil reconhecer a
Jesus e ao seu Reino. Simão Pedro, Tiago e João
que o digam! Há quem pense que abraça a causa de
Jesus – que é um projeto de vida plena para todo
ser humano – mas, no fundo, abraça só a própria
causa...
Por isso mesmo, o 5º. passo será que, enquanto a
pessoa que discerne sua vocação vai vivendo sua
vida diária e examinando-se, adquira, como horizonte e
perspectiva, a vida, paixão e morte de Nosso Senhor Jesus
Cristo. Ler tão-somente a própria vida é
privar-se de referência. Reler a vida, enquanto relê
– na oração – a vida de Jesus produz
clareza quanto ao caminho a seguir, a melhor escolha a fazer.
Chegado o momento da eleição ou reforma de vida,
nos colocamos no 6º. passo. Nesse momento vale a pena insistir
numa coisa: confiemos nos pensamentos que surgem no seio da consolação
(não tanto nos que vêm depois!) e “reciclemos”,
na oração, os que surgem na desolação,
confiando-os ao Coração do Senhor, até que
venha a próxima claridade. Deus age e chama através
das marcas que vai deixando em nossa vida...
O 7º. passo é o momento da confirmação:
pensando na própria decisão de vida, é hora
de pedir que o Espírito Consolador confirme os bons desejos
e propósitos. É tempo de entrar na leitura orante
ou contemplação da Paixão e Morte de Cruz.
É hora de confrontar os meus projetos à luz do projeto
de Jesus, projeto de amor aos pequenos que incomodou os grandes,
e por isso teve como conseqüência a cruz...
É o momento de verificar, em oração, qual
a minha disponibilidade para o serviço, para o amor-doação.
Sem essa condição é impossível ser
verdadeiramente discípulo de Jesus (cf. Jo 13,1-17). Por
isso a participação em alguma comunidade eclesial
é fundamental para ajudar a entender a própria vocação.
Na comunidade “afinamos nosso coração”
para a necessidade do irmão e da irmã, de modo especialíssimo
aqueles que não têm voz nem vez na sociedade (cf.
Mt 25, 31-46).
Desse modo, aberto às necessidades do mundo e dos irmãos
e irmãs, poderemos encontrar nossa verdadeira vocação
cristã no casamento, na vida consagrada pelos votos ou
no sacerdócio ministerial!
Esse artigo é uma síntese do capítulo IX
de R. PAIVA, SJ. O Discernimento: pessoal, em família,
em comunidade e vocacional. 2ª. ed. São Paulo: Loyola,
2000.