O DEUS DA VIDA
Resenha do livro: GUTIÉRREZ, Gustavo. O Deus da
vida. Trad. Gabriel C. Galache, SJ e Marcos J. Marcionilo.
São Paulo: Loyola, 1990.
No seu livro “O Deus da vida”, Gustavo Gutiérrez,
padre dominicano, importante teólogo latino-americano e
um dos principais nomes da Teologia da Libertação,
nos apresenta uma excelente análise bíblico-teológica
sobre o Deus da revelação cristã. Poderíamos
dizer que neste seu livro o autor procurou, como objetivo principal,
fornecer elementos que nos ajudem “a melhor conhecer ao
Deus da revelação bíblica e conseqüentemente
a proclamá-lo como Deus da vida”. Fé e vida,
como dirá o Concílio Vaticano II, ou, nas palavras
do próprio autor, “saber quem Ele [Deus] é
nos indica o que devemos fazer se cremos nele”.
Não apresenta o “Deus dos filósofos”,
mas o da Bíblia, “o Deus de Abraão, de Isaac,
de Jacó, de Jesus Cristo”. Por isso, é uma
reflexão que parte da fé, procura pensar essa fé,
e o faz “levando em conta a forma como os pobres sentem
a Deus”. Com efeito, estamos diante de um Deus que se revela
na história (mas que não se dilui nela!). Por isso,
a fé se dá a partir de uma situação
histórica determinada, ou, como diz o autor, todo crente
“faz parte de uma trama cultural e social”. Dessa
forma, é importante dizer que esse livro de Gutiérrez
também está historicamente situado: se encontra
no interior da luta de libertação dos pobres da
América Latina. É dessa luta que o autor fala. É
também a partir dela que seu o discurso sobre Deus alcança
sua máxima compreensão, uma vez que “a Bíblia
nos revela a presença de um Deus ligado aos ‘ausentes
da história’”.
O livro está divido em três partes fundamentais.
Cada qual, por sua vez, subdividida em alguns capítulos
para a melhor compreensão do tema central, a saber, o reconhecimento
de Deus como “Deus da vida”. Assim, a primeira parte
vai procurar responder à pergunta: “Que é
Deus?”. O autor trabalha essa temática em 4 capítulos.
O primeiro capítulo vai dar o tom do livro: Deus liberta,
é vida. E o ator nos faz ver que esse tema “perpassa
toda a Bíblia e nos revela um Deus que ama a vida, essa
é sua vontade para todos”. O segundo capítulo
nos apresenta o tema da justiça e santidade de Deus. “Deus
se revela como quem faz justiça em favor do seu povo”,
e declara-se sobretudo como o defensor, o Go’El dos “pobres
no interior da própria nação judaica”.
Deus, irrompe na história dos homens – e de modo
pleno em Jesus Cristo, como dirá depois – para declarar
“bem-aventurados todos os pobre da terra”. O terceiro
capítulo, como conseqüência do tema anterior,
nos apresenta um Deus que se compromete com seu povo, lhe é
fiel: “A antiga e a nova Aliança nos revelam a fidelidade
divina sempre disposta a perdoar e, ao mesmo tempo, sempre exigente”.
Por fim, o tema da idolatria nos ajuda a compreender, de forma
negativa, “em que consiste a fé no verdadeiro Deus”.
O autor conclui essa primeira parte lembrando que “a relação
entre a morte e a vida é capital na revelação
do Deus-Amor” e que “o amor de Deus pode mais que
a morte e mantém viva a esperança de um povo”.
A segunda parte do livro – vale dizer a mais exigente
– procura responder à pergunta sobre “Onde
está Deus?”. Por isso os dois capítulos que
a compõem giram em torno do tema do Reino de Deus. Ora,
uma vez que a procura por Deus não pode prescindir-se das
categorias histórias, da mesma forma que a fé cristã
é uma fé histórica, então perguntar
sobre “onde está Deus” deve equivaler a “fazer
nosso o seu projeto para a história humana”. Segundo
esse raciocínio, encontramos Deus “à medida
que fazemos nossos seus desígnios sobre a história
e sobre nossas vidas”. Eis que aparece com força
o tema do Reino: “o Deus da Bíblia é inseparável
do seu projeto, do seu reino; por conseqüência, toda
tentativa de encontrá-lo e compreendê-lo divorciando-o
de seu reinado é, em termos bíblicos, fabricar um
ídolo (...)”. Assim, três temas se destacam
nos três capítulos que compõe essa segunda
parte. O primeiro mostra que “Deus está onde seu
projeto de vida se faz carne”; por isso “a habitação
de Deus na história atinge a plenitude na encarnação”,
em Jesus Cristo. No segundo tema, estreitamente ligado ao anterior,
o autor nos apresenta o lugar onde, em última análise,
Deus se torna presente hoje: os marginalizados da história.
E o faz a partir do sempre surpreendente texto de Mateus que nos
apresenta a “identificação de Jesus com os
últimos da sociedade” (cf. Mt 25, 31-46). Por fim,
o último tema (dos três mais importantes) confunde
nossos critérios: é a gratuidade do amor de Deus.
O autor nos faz ver que o anúncio do Reino se dirige a
todos, “ninguém está excluído desse
dom, nem de suas exigências”. Porém, justamente
por serem desprezados pelos sistemas econômico-político-religiosos,
os pobres, os últimos da sociedade, recebem a predileção
do amor de Deus: “esta condição os torna os
primeiros destinatários do amor e da ternura de Jesus”.
E conclui: “não é fácil manter concomitantemente
universalidade e predileção, mas tal é o
desafio se quisermos ser fiéis ao Deus do Reino que Jesus
proclama: saber amar a toda pessoa na opção preferencial
pelo pobre e oprimido”.
Por fim, a terceira parte nos coloca diante da última
pergunta do livro: “Como falar de Deus?”; ou mais:
“como encontrar as palavras adequadas e a coragem para fazê-lo?”
O autor nos diz que a linguagem apropriada sobre o anúncio
de Deus o cristão a encontra sob a inspiração
do Espírito Santo e – inseparavelmente – da
forma como a mensagem cristã, iluminada por Ele, “se
fez vida”. São dois os capítulos desta parte.
No primeiro o autor retoma os temas da justiça e da gratuidade
de Deus, a partir do livro de Jó. Em sua análise,
o autor diz que uma teologia abstrata, “privada de contato
com a realidade e carente de compaixão humana” não
pode ajudar nosso discurso sobre Deus. Ao contrario, “a
solidariedade para com o pobre oferece uma base segura para que
se possa falar de Deus”. Essa solidariedade nos permite
“vislumbrar outras maneiras de falar (e calar) sobre Deus”.
Por fim, a gratuidade, a graça, é a única
forma de compreender a predileção de Deus pelo pobre.
Dessa forma, só podemos situar a nossa busca por justiça
e por direito (solidariedade para com o pobre) “no marco
do amor gratuito de Deus”.
O autor encerra seu livro com um capítulo dedicado a Maria,
ainda na tentativa de ajudar na compreensão da pergunta
“Como falar de Deus?”. Através dos relatos
de Maria no Evangelho podemos encontrar informações
preciosas sobre o seguimento de Jesus. Com efeito, ela nos é
apresentada “como aquela que medita e guarda dentro de si
tudo o que se refere a Jesus. Interessam-nos por isso, de modo
especial, os caminhos que tomam a linguagem e os silêncios
de Maria sobre Deus. São três as suas imagens que
o autor valoriza. A primeira é a Maria que “nos fala
de Deus na sua condição de mulher”; a segunda
imagem a apresenta como “aquela que acreditou em Jesus”;
não a partir de uma fé instantânea, intemporal,
mas processual, o que levou K. Rahner a chamá-la a “cristã
perfeita”. Por fim, Maria nos é apresentada como
alguém profundamente ligada à vida de seu povo.
Com efeito, no Magnificat, ela se mostra como a filha
de um povo: “Maria e com ela seu povo cantam a grandeza
de Deus” (cf. Lc 1,46-50), nos apresentam uma esperança
de “mudança profunda de valores e de situações”
(vv. 51-53) e, por fim, nos falam da misericórdia sem limites
de Deus (vv. 54-55). “Essa é a palavra final de Maria
(...) sobre Deus”.
Este texto, como já foi dito no começo, foi escrito
com a intenção de nos ajudar numa melhor compreensão
do Deus da revelação bíblica, o “Deus
da vida”, “o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó,
de Jesus Cristo”. O autor trabalha esse tema com muita competência.
E vai além! Coloca-nos diante do grande desafio da fé:
crer que Deus se revela em Jesus Cristo e, por ele, na história
humana, “no mais insignificante e pobre dessa história”.
Estas são reflexões mais do que pertinentes, pois
evidenciam a necessidade de tomarmos posição diante
do mundo, diante da fé, diante da revelação
de Deus na história. Com efeito, só é possível
crer em Deus a partir do compromisso com o marginalizado; só
a partir dele é que encontramos “o sentido de nossas
vidas como crentes e como seres humanos”. É a responsabilidade
que nos coloca diante do tema da Parusia na sua real
significação, isto é, trabalharmos para que
a plenitude da presença de Deus ocorra no hoje de nossa
história e a plenitude da história em Deus.
O autor também desenvolveu a temática tomando
como base uma vasta e rica bibliografia, além de demonstrar
muita competência na apresentação das várias
correntes da exegese, fator pelo qual torna as informações
confiáveis e dignas de um maior aprofundamento. Permite-nos,
além disso, estabelecer critérios confiáveis
para o aprofundamento da disciplina “Deus da Revelação”.
O estilo literário muito agradável, a linguagem
acessível de um livro escrito para o grande público
e a disposição dos temas fazem com que a leitura
e a compreensão do conteúdo seja facilmente assimilada.
Também a coerência interna demonstra um altíssimo
nível de competência do autor. Trata-se, enfim, de
um texto altamente recomendável, de cuja leitura tirarão
proveito todos aqueles interessados em uma abordagem competente
sobre a teologia da revelação e suas exigências
para a vida cristã.
Rodrigo Assis Rosa, OMV