Moisés

ou a experiência do Deus que mexe com as estruturas sociais e políticas

 “Eu vi a miséria do meu povo no Egito.
Ouvi seu clamor que lhe arrancam os seus opressores.
Por isso desci para liberta-lo das mãos dos egípcios...
Agora, pois, vá, eu te envio ao faraó.
Tirarás do Egito o meu povo”.
(Ex 3-7-10)

A experiência de Moisés incomoda. Incomoda a ele mesmo e ao faraó, mas incomoda mais a nós, a você e a mim e a todos aqueles que se chamam cristãos. Pois o Deus que se revela aí é definitivamente outro. Não é aquele velho ancião com barba branca, longe da vida e longe do que se passa na praça da Sé.

 O Deus que se revela aqui está no meio da história.

Um Deus atento ao que se passa na terra, bem informado, envolvido até o pescoço em nossa história concreta.

 E se ele faz questão de afirmar que “viu a miséria do povo e ouviu seu clamor”, então podemos concluir que isto vale não somente para certo momento histórico, mas para toda a história dos homens. Isto quer dizer também para hoje.

O Deus verdadeiro está bem ao corrente também no que diz respeito à guerra no Iraque, à ocupação de terra na zona leste de São Paulo. Ele está consciente dos lucros dos vendedores de cocaína e também da morte de José, torturado e baleado num terreno abandonado. 

Essa é a grande lição dessa história antiga. Uma lição que sempre soubéramos porque sempre aceitamos que Deus é todo-consciente (Onisciente). Mas, para tantos de nós, este “ser todo consciente” era coisa bem abstrata, teórica, que no máximo tinha relação com o fato de ele conhecer os meus pensamentos e pecados mais íntimos. Assim, foi que aprendemos.

Somos, porém, chamados para ampliar a nossa visão sobre Deus. Somos mais uma vez chamados a tomar consciência de que o Deus todo-poderoso significa, de fato, coisa bem concreta. A tomada de consciência não pode parar aí. A narração continua, e ela me força a abrir os olhos também ante outra verdade. Uma verdade que foi tão esquecida na história dos séculos passados e muitos cristãos até se escandalizam quando ela é formulada. Diversos cristãos a rejeitam e não a querem aceitar e, apesar disso, ela é fato. Talvez, um dos fatos mais bem provados em toda a Bíblia. Não dá para escapar. Não dá para negar. E a verdade é esta: 

O nosso Deus tomou claramente posição que favorece os coitados, os fracos, os oprimidos. 

“Eu ouvi o clamor de meu povo e vi a sua opressão. Eu sou o Senhor e o tirarei de debaixo das cargas dos egípcios e os libertarei”(Ex 3,7-8).

Este Deus, o Deus verdadeiro, se revela, não sendo um Deus ausente, residindo atrás de muros fechados em templos de ouro. Bem pelo contrário. Ele se encontra nos lugares onde os oprimidos estão, os rejeitados, os escravos. Certamente, ele muitas vezes não foi a templos, onde os senhores o veneram.

É esta a verdade que hoje em dia, sendo cristãos, devemos reaprender:

O nosso Deus é um Deus que optou pelos fracos, pelos oprimidos, pelos pobres e marginalizados. 

Mas não só isso. A sua opção tem conseqüências muito reais: “Eu os tirarei de debaixo das cargas dos egípcios...” 

Um Deus que fala assim incomoda demais, pois sua decisão tem conseqüências. Estas conseqüências superam de longe o plano da moral individual e restrita de alguns bons cristãos. A decisão de Deus se estende a todo o campo do político e do social. Deus exige a libertação de todos os escravos. Ele se opõe a todos aqueles que oprimem e a todos aqueles que querem que os sistemas de opressão permaneçam, porque é destes sistemas que eles tiram proveito (...).

Você pode imaginar como tal Deus não é bem aceito por todos aqueles que querem defender os próprios privilégios. Deus, de fato, está contra os privilégios de alguns poucos, enquanto esses privilégios estão em detrimento da grande massa.

 Na narrativa sobre Moisés, ele se revela como sendo um Deus que quer mudar essa situação. Para isso, mexe nas estruturas sociais e mexe nas estruturas políticas também. E, em todas essas ações, ele nem pergunta se pode, nem pede permissão. O que agir é soberano. Os protestos dos poderosos não o preocupam.

 ASSIM É DEUS!

 Mas não só isso. Continuando a nossa busca, descobrimos logo outra característica bem acentuada:

 Deus não age por conta própria. Mas ele se serve dos homens!

Não é o próprio Deus que vai ao faraó para exigir a libertação dos escravos. Não é assim. Deus chama uma pessoa humana para que tome o seu lugar.

“Vá, eu TE envio ao faraó”.

Eis outro elemento no comportamento deste Deus que incomoda. Um comportamento que incomoda a mim e a cada um de vocês de maneira bem pessoal. Também para nós seria mais cômodo um Deus quieto e satisfeito com orações e sacrifícios. Mas assim Deus não é.

Nós já o percebemos na história de Abraão. Agora a coisa se repete:

 Deus o chama pelo nome, para que assuma compromisso para ele.

Sendo assim, não podemos mais escapar, louvando Deus pelo fato de ele rejeitar a opressão. Não podemos mais ficar quietos em nossas casas ou rezando em nossas igrejas, esperando que Deus tome atitudes pessoais neste mundo.

 DEUS NUNCA AGE NO MUNDO SENÃO ATRAVÉS DE NÓS!

 Isto quer dizer que a vocação de Moisés nada mais é do que exemplo daquela vocação que foi dirigida a mim e a você e a cada um de nós.

Descobrimos de maneira específica o que significa ter fé em Deus. Significa, em última análise, isso: 

Deixar-se incomodar por Deus. Ficar disponível para o que ele quer. 

A verdadeira fé incomoda da mesma maneira como o Deus verdadeiro incomoda. Este incômodo, porém, está longe da antiga e superada idéia de um Deus legislador e vigilante que tudo registra para depois nos julgar. Nada disso. Nada mais, também, do que um incômodo do tipo legalista: “É proibido isso e não se pode fazer aquilo”.

 Não é a esse tipo de incômodo a que me refiro. Nós já vimos (...) que assim Deus não é.

 E, caso você tenha ainda tal concepção, esqueça-o o mais rápido possível!

 O incômodo que o Deus verdadeiro traz é o incomodo do amor. Quem já amou sabe muito bem que o verdadeiro e apaixonado amor incomoda, porque mexe com o nosso ser mais íntimo. É assim que também Deus nos incomoda.

A fé em Deus é apelo ao meu amor e à minha liberdade criativa. 

Porque Deus me chamou, posso sair das minhas próprias limitações, posso superar o meu medo. Porque Deus me chamou posso quebrar as minhas barreiras internas, para depois quebrar, também, as barreiras externas na família, na sociedade, na Igreja e em outros relacionamentos de minha vida diária. Porque Deus me chamou, posso criar novas iniciativas, pois o chamado de Deus é chamado a mais liberdade, chamado para mais empenho em minha vida e na vida da sociedade, rumo à construção de um mundo mais justo e menos opressor.

O incomodo da fé é incômodo de amor!

Do livro: BLANK, Renold J., Quem afinal é Deus?,  São Paulo: Paulinas, 1988.

 

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