Mandamentos Hoje

Ivo Storniolo

I. OS DEZ MANDAMENTOS

Todos nós estamos bem lembrados dos Dez Mandamentos, decorados a partir das páginas do Primeiro Catecismo da Doutrina Cristã. Ali aprendemos que esses mandamentos são "leis de Deus", isto é, a suprema vontade de Deus sobre a vida da humanidade. Em geral, porém, nunca mais aprofundamos esse primeiro conhecimento.

Outra lembrança constante é a figura das Tábuas da Lei: duas tábuas de pedra, sozinhas nas nuvens ou nas mãos de Moisés. Figura muito comum nas pinturas das Igrejas ou nos santinhos que colecionávamos quando crianças. A primeira pedra contém os três mandamentos, e a outra os restante sete. Aprendíamos que a primeira apresentava os deveres para com Deus e a segunda os deveres para com o próximo. E ficávamos entre Deus e o próximo, dilacerados pelos deveres. E "deveres", essa coisa terrível da qual procuramos nos livrar o mais depressa possível. Cumprimos logo os deveres para ficar, enfim, livres para o resto. Mas, que resto? E aqui surgem as perguntas: Esses mandamentos são mesmo ordens? Até que ponto podemos dividi-los em deveres para com Deus e deveres para com o próximo? Até que ponto esses mandamentos implicam deveres? Pior ainda, até que ponto esses mandamentos são mandamentos? E são dez? Ou são onze? Ou nove apenas?

 Em vista dessas perguntas, e de muitas outras que irão aparecer, convidamos todos os irmãos em Cristo à aventura de reler os Dez Mandamentos. Agora como adultos, que conhecem a vida e podem enxergar as coisas de modo novo. O que era dever agora se torna satisfação. O que era ordem e mandamento agora se torna caminho e necessidade. O que era para Deus e para o próximo agora pode ser descoberto como sendo para nós mesmos. E, sobretudo, descobrir que os Dez Mandamentos não são um freio, mas sim um estímulo para viver mais.

 FREIO OU ESTÍMULO?

Quando pensamos nos Dez Mandamentos logo nos vem à idéia que eles são um freio para a nossa liberdade. Como se Deus, que é pai, estivesse preocupado em nos segurar, em impedir que "batêssemos as asas para longe", conhecendo lugares e situações que ele ciumentamente conservasse para si próprio. Por trás disso está a idéia errada de um Deus contra o homem, competindo com a sua própria criatura. Ora, isso pode ser tudo, menos o Deus Vivo e Verdadeiro.

 O prazer de Deus é a Vida. E a maior glória que podemos dar a Deus é vivermos e estarmos, a cada momento, criando, inventando formas novas de vida. Deus é vida. Seu projeto é liberdade e vida para todos. Sua maior alegria acontece quando inventamos liberdade e vida para todos. Ele jamais iria criar freios para o nosso desejo de liberdade e vida. Ele apenas quer que todos estejam incluídos nesse projeto. Se inventamos liberdade só para nós, só para um grupo, estamos de um lado criando o poder de poucos, que é acúmulo de liberdade de muitos, e, de outro lado, criando um rebanho de escravos dos poderosos. Se inventamos vida só para nós, só para um grupo, estamos de um lado criando a riqueza de poucos, que é acumulo da vida de muitos, e, de outro lado, criando um rebanho de miseráveis. Ora, Deus quer que todos tenham liberdade e vida.

Por isso ele nos deu os Dez Mandamentos. Esses mandamentos são estímulo para que inventemos liberdade e vida para todos. Estímulo para repartir em vez de acumular, a dar em vez de roubar, a conceder em vez de exigir. Em poucas palavras, a repartir a liberdade e a vida, em vez de as acumular, criando poder e riqueza. Deus não quer que vivamos fechados em nossos projetos egoístas. Ele quer que estejamos abertos para todos.

PARA MIM OU PARA TODOS

 No catecismo aprendemos, em geral, que os Dez Mandamentos são para mim: devo fazer isso e evitar aquilo. E esquecemos que vivemos em sociedade, e que todos devem procurar a liberdade e a vida para todos. Reduzimos a palavra de Deus ao nível individualista, esquecendo que todos os outros também são filhos de Deus, e que juntos formamos uma só família. Deus deu os Dez Mandamentos para que essa família inteira aprenda a repartir a liberdade e a vida.

 Os Dez Mandamentos são palavras que ensinam a viver em sociedade, em família, como irmãos. Não se preocupam apenas com o que eu devo ou não fazer, mas o que todos devem ou não fazer para que a liberdade e a vida sejam usufruídas por todos. Todos nós estamos sempre implicados em ações individuais e coletivas. Acontece que muitas vezes somos justíssimos em nossas ações individuais, mas fazemos exatamente o contrário em nossas ações coletivas. É claro que evitamos matar o próximo, mas em geral colaboramos socialmente para que o próximo seja morto, ou tenha seus direitos diminuídos, ou que a sua alma, puro desejo de liberdade e vida, seja pouco a pouco assassinada. Será que o quinto mandamento não compreende tudo isso?

 Os dez mandamentos são projeto de uma sociedade nova, onde todos possam ter liberdade e vida. Onde alguém não goza de liberdade e vida esse projeto está falhando. E de quem é a falha? De todos e de cada um de nós. Alguém, ou todos nós, está falhando no respeito para com a liberdade e a vida que devem reinar na sociedade. 

Os Dez Mandamentos são caminhos para aprender a construir uma sociedade onde as pessoas não se sufoquem uma às outras; onde cada um possa ser livre e viver com todos os outros, somando, e não diminuindo, a liberdade e a vida que Deus deu para todos.

 II. PRIMEIRO MANDAMENTO: O DEUS LIBERTADOR

O primeiro mandamento começa: "Eu sou Iahweh teu Deus que te tirou do Egito, da casa da escravidão"( Ex 20,2 e Dt 5,6). Aí está a raiz dos Dez Mandamentos: eles foram dados pelo Deus que liberta a pessoa da escravidão.

 Que escravidão? Todas. Desde a escravidão da criança aos pais, satisfazendo seus caprichos, até a escravidão do adulto diante do patrão no trabalho, ou do povo diante do poder que o impede de ser gente e ter sua opinião própria. A escravidão que submete a mulher ao homem, o amigo ao amigo, a pessoa a qualquer outra pessoa. Deus nos criou livres, e é contra toda forma de escravidão. Escravidão significa a impossibilidade de sermos o que somos. Quem somos nós? Ninguém sabe. Só Deus. Cada um de nós deve descobrir, passo a passo, o que é. Nossa vida é uma descoberta e uma concretização do que somos chamados a ser. Isso, porém, fica impossibilitado quando alguém nos impede de descobrir ou de realizar  o que nós seremos, seja os nossos pais, os nossos amigos, nossos chefes, ou até nós, ou a sociedade em que vivemos.

 O primeiro sinal de que conhecemos o Deus verdadeiro é a libertação. Quando o conhecemos e adoramos, percebemos que vamos ficando libertos de todas as escravidões, externa e internas. Nem nossos pensamentos nos aprisionam mais. Ficamos livres para descobrir novos horizontes, dentro e fora de nós, porque o que passa a nos comandar é o desejo de plenitude, a própria presença do Deus infinito, que nos chama a uma vocação de eternidade. Respeitar e realizar esse desejo, em nós e nos outros, é o maior sinal de que encontramos o Deus do êxodo, esse Deus que nos faz atravessar todas as fronteiras da escravidão, para criar a liberdade e a vida para todos.

 DEUS E DEUSES

O primeiro mandamento continua: "Não terás outros deuses diante de mim"(Ex 20,3 e Dt 5,7). Aí está a primeira e incondicional exigência do Deus que liberta. Ele é ciumento e não suporta dividir sua soberania com nenhum outro deus. A Bíblia sabe que existe outros deuses, aliás muitos. Mas sabe também que o Deus verdadeiro é um só, e sua ação principal é nos libertar de todos os outros deuses que escravizam.

 Em geral pensamos que somos  muito modernos e esse negócio de Deus e deuses já era. Coisa de gente antiga, atrasada e alienada. E nos enganamos. Hoje temos e fabricamos muito mais deuses que os antigos. Só que não lhes damos o nome de deuses. Mas o efeito é o mesmo: escravidão em todos os sentidos. Endeusamos pessoas, coisas, situações, estruturas, quando não a nós mesmos; ou então idéias, sistemas, dinheiro, prestígios, poder e riquezas. O principal de tudo é que todo deus exige adoração. Se for o Deus verdadeiro, tudo bem, ficamos cada vez mais libertos. Mas se forem falsos deuses, se forem ídolos, ficamos cada vez mais escravizados e frustrados, roubados exatamente naquilo que tínhamos procurado em nosso deus.

 Como saber se estamos adorando o Deus verdadeiro ou os deuses falsos? É fácil. Basta ver onde colocamos o maior valor da nossa vida. Cada um de nós é uma espécie de templo, e lá dentro colocamos o deus que servimos. E nossa vida é um culto ao nosso deus. Mas que deus é? O livro do Gênesis diz que o homem foi criado "a imagem e semelhança de Deus" (Gn 1,26-27). Somos sempre, a expressão do deus que servimos. Não adianta confessarmos de boca o Deus verdadeiro. É nossa vida que mostra qual deus, de fato, servimos. Não adianta reclamar depois. A culpa não é de Deus. É nossa mesmo. O importante é ver logo qual deus entronizamos no templo de nossa vida. E tomar uma atitude, antes que seja tarde demais.

 DEUS É MISTÉRIO

O primeiro mandamento continua: "Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra" (Ex 20,4 e Dt 5,8). Em outras palavras, o Deus verdadeiro não pode ser representado adequadamente por nada que conhecemos. Céu, terra e região subterrânea são a imagem do universo para os antigos. Nenhum ser humano pode dar uma imagem do que Deus é. Todos os seres são expressões parciais de Deus, mas nenhum deles esgota o que Deus é. 

Deus é mistério que não pode ser representado. Nenhuma imagem visual pode dar uma idéia do que Deus é. Apenas uma alusão, um símbolo fugidio, um aceno distante. E isso vale também para a palavra, que também é um modo de representar a realidade. Nossas palavras, com as quais construímos as idéias e os sistemas de pensamento, são apenas setas que indicam o mistério, mas não conseguem dizer o que ele é em si mesmo. Isso vale principalmente para a Teologia, que é a ciência sobre Deus. A Teologia é apenas uma leve indicação do que Deus parece ser. Não é uma linguagem absoluta. Deus está muito além de toda e qualquer Teologia, e não se deixa prender por nenhuma forma de pensamento. Se absolutizarmos o que a Teologia diz, provavelmente já não estaremos diante do Deus vivo, e sim diante de um ídolo, o mais perigoso de todos.

 Deus ultrapassa tudo o que podemos conceber. E onde é que podemos experimentá-lo? Em dois mistérios: o da liberdade e o da vida. No da liberdade ele nos liberta de todas as prisões, para sermos finalmente o que sempre fomos sem contudo nunca ter sido antes. No da vida ele nos chama a viver e a criar vida em todos os sentidos. Liberdade e vida são um mar sem margens, o infinito de Deus que podemos pressentir, mas nunca representar. Deus é quadro sem moldura. E nós somos sua imagem e semelhança.

 DEUS É CIUMENTO

 O primeiro mandamento continua: "Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás porque eu, Iahweh teu Deus, sou um Deus ciumento" (Ex 20,5 e Dt 5,9). "Esses deuses" são aquelas representações de que a Bíblia falava logo antes: os seres do céu, da terra e do mundo subterrâneo. O que se quer dizer é que nós, seres humanos, não devemos adorar nenhum desses seres como se fossem Deus. Deus está além de tudo isso. Somente a ele devemos adorar e servir. Com as outras criaturas devemos nos relacionar, com cada uma em seu plano.

 Deus nos criou para vivermos três tipos diferentes de relação. Diante de todos os seres inferiores nós somos senhores, não para abusar deles, mas para deles usar, com respeito e amor. Diante das pessoas, nossos semelhantes, nós somos irmãos, para viver em relação de fraternidade e partilha, com respeito e amor. Diante de Deus, somos todos filhos, e a Deus devemos temor e obediência, porque ele é Deus e nós não somos Deus. E Deus é ciumento: ele não suporta que substituamos a relação que devemos ter com ele por qualquer outra relação; nem quer que adoremos e sirvamos qualquer outro ser que não seja Deus. Como veremos na próxima coluna, seu ciúme nos castiga de vários modos, para que aprendamos a colocar as coisas nos devidos lugares.

 Certa vez ouvi uma coisa tão bonita que deve ser verdade. Que devemos tratar cada ser como se estivesse um grau acima do que ele é. Tratar as pedras como se fossem plantas, as plantas como se fossem animais, os animais como se fossem pessoas, e as pessoas como se fossem deuses. Como não disseram como tratar Deus, eu acrescendo: tratar a Deus com total adoração, porque ele é o fundo de tudo isso e, ao mesmo tempo, está infinitamente além disso tudo, numa perfeição, santidade e beleza que nem somos capazes de imaginar. Pois é. E nós somos sua imagem e semelhança.

 DEUS CASTIGA?

O primeiro mandamento continua: "Sou um Deus ciumento, que puno a injustiça dos pais sobre os filhos, até a terceira  e quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração para aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos"( Ex 20,5-6 e Dt 5,9-10). É a continuação do que dizíamos na coluna anterior: Deus é ciumento e, se adorarmos outros deuses, ele nos castigarás. Se o adoramos, porém, e formos fiéis à sua vontade, expressa nos mandamentos, ele nos amará e tratará com misericórdia.

 Como é que Deus castiga? De todos os modos imagináveis. Na dimensão psíquica e espiritual, conta-se desde a simples inquietação até a angústia, depressão profunda, neurose e psicose. Na dimensão física com todo tipo de desordens funcionais e doenças, até mesmo o câncer. Na dimensão social, com todas as formas de desencontros e conflitos desde o simples desentendimento nas relações até as guerras intestinas e internacionais. Pois é. Com Deus não se brinca.

 Mas será que é mesmo Deus quem castiga? Sim e não. Ele apenas faz com que arquemos com as conseqüências de nossas opções. Deus é liberdade, vida, harmonia e paz. Se o adorarmos teremos liberdade, vida, harmonia e paz. Mas se cultuarmos deuses falsos teremos tudo ao contrário: escravidão, morte, de todos os modos e em todos os setores e dimensões. No fundo de todos os nossos sofrimentos há sempre um desvio, uma escolha infeliz, um momento em que deixamos de obedecer ao Deus verdadeiro para servir a um ídolo. Basta olharmos com atenção, e descobrirmos o deus falso nos premiando com uma vida falsa. E muitas vezes, o erro não é pessoal, mas familiar, social, nacional. Mas existe um erro que exige tomada de consciência e conversão. O sofrimento já é em si uma chamada de atenção. Felizes os que percebe isso e têm a coragem de fazer uma mudança radical.

 III. SEGUNDO MANDAMENTO: COM DEUS NÃO SE BRINCA

Conforme o catecismo, o segundo mandamento diz: "Não tomar seu santo nome em vão". A Bíblia vai mais longe: "Não pronunciarás em vão o nome de Iahweh teu Deus, pois Iahweh não deixará impune aquele que pronunciar em vão o seu nome"  (Ex 20,7 e Dt 5,11). Isso muitas vezes é entendido literalmente: não repetir o nome de Deus à toa. Os judeus, por respeito, nem falam o nome de Deus - em vez de Iahweh dizem Senhor, e hoje simplesmente "o Nome".

 É bom lembrar que o nome de Deus era usado para garantir os juramentos, e principalmente para assegurar a verdade dos que depunham no tribunal. Ora, isso é muito delicado. Usar o nome de Deus para garantir o que estamos dizendo ou fazendo é manipular a Deus em favor dos nossos interesses. Se esses interesses são bons e verdadeiros, tudo bem. Mas, se for por puro capricho, ou para torcer a verdade, ou para prejudicar os outros, é bom tomar cuidado, porque Deus não ficará quieto e "não deixará impune".

 Esse mandamento é muito sério. Quantas  vezes não dizemos que Deus quer isso e aquilo, só para justificar nossos interesses? É assim que muitos pais controlam seus filhos, muitos padres e freiras e agentes controlam a comunidade e, pior ainda, muitos políticos tapeiam o povo, dizendo Deus quer aquilo que eles estão querendo. Perigo. O projeto de Deus é liberdade e vida para todos. Quando usamos o seu nome para justificar a nossa ganância (sempre muitíssimo bem disfarçada) pelo poder, riqueza e prestígio - que criam as maiores injustiças - estamos certamente brincando com fogo. Não podemos manipular o nome de Deus para encobrir nossas intenções injustas, seja para  "pôr ordem em casa", ou "dirigir a comunidade", ou "zelar pela ordem social". O que é que está por trás disso? Com Deus não se brinca...

 IV. TERCEIRO MANDAMENTO: UM DIA PARA IAHWEH

O catecismo simplificou bastante o terceiro mandamento: "Guardar o domingo e festas de guarda". A Bíblia diz mais: "Lembra-te do dia de sábado para santificá-lo. Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra. O sétimo dia, porém, é o sábado de Iahweh teu Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu animal, nem o estrangeiro que está em tuas portas (da cidade)" (Ex 20,8-10 e Dt 5,12-14a). Assim, conforme a Bíblia, o terceiro mandamento fala de trabalho e descanso: trabalhar durante a semana e descansar no fim. Para Israel o dia santo era o sábado. Para os cristãos esse dia ficou sendo o domingo, o dia em que Jesus ressuscitou.

 Para começar, o importante do mandamento é que ele fala de trabalho e descanso. Todos devem trabalhar e descansar, ou todos têm direito ao trabalho e ao descanso. Isso por si já supõe uma sociedade igualitária, onde, para viver dignamente, todos trabalham e todos podem usufruir do descanso: pai, mãe, filho, filha, empregado, empregada, os imigrantes e até os animais. Em outras palavras, o dia do descanso, consagrado a Iahweh, é o dia em que todos - sem diferença de idade, sexo ou condição social - têm direito a descansar e se refazer de todo o trabalho realizado durante a semana. Descobrimos então que o dia santo não é mais um dia de obrigação, agora para com Deus. Deus não quer nada para si. O que o homem dá a Deus ele está dando a si mesmo, porque Deus é puro dom de vida, e dar alguma coisa a ele é receber multiplicado em troca. E Deus não reserva seu dom para este ou aquele, somente. Seu dom é para todos, pois ele quer que todos tenham liberdade e vida. E o dia consagrado a Deus é dia de liberdade e vida para todos. Dia de festa, de alegria, de fruição do próprio trabalho.

 DESCANSO PARA TODOS

Por que descansar um dia por semana, consagrando-o a Deus? O catecismo não dá a motivação. A Bíblia apresenta duas. A mais antiga se encontra no livro do Deuteronômio: "Deste modo o teu escravo e a tua escrava poderão repousar como tu. Recorda que foste escravo na terra do Egito e que Iahweh teu Deus te fez sair de lá com mão forte e braço estendido. É por isso que Iahweh teu  Deus te ordenou guardar o dia de sábado" (Dt 5,14b-15). O dia do descanso, portanto, é o dia em que se lembra a libertação da escravidão. E todos sem exceção, até os animais, têm direito de participar da liberdade.

 "Recorda-te que foste escravo.. e que Iahweh te libertou"... O dia do descanso é um dia de lembrança da grande passagem da escravidão para a liberdade. Consagrar esse dia é lembrar-se de que Deus é libertador, e que o homem deve repetir em sua vida, em relação aos outros, o que Deus fez por todos nós. Só quem foi escravo compreende o que significa ter sido liberto. Escravo não tem descanso, não tem vida própria, nem liberdade, nem direito a nada. Em poucas palavras, escravo tem que ser o que os outros querem, e por isso tem que matar as suas aspirações e desejos próprios. Sua vida só tem deveres, obrigações, trabalho todo dia, quando não toda noite. Mas não é isso que Deus quer. Deus quer a liberdade para todos, para que todos possam se descobrir, desabrochar e participar da sociedade e da história, dando sua contribuição insubstituível para a realização do projeto de Deus, que é liberdade e vida para todos.

 O dia do Descanso é, portanto, o dia de festejar o Deus libertador, e,  por isso, de nos alegrarmos com a liberdade. É dia de revermos se a nossa história está caminhando no sentido de todos poderem usufruir da liberdade. O que faremos na semana que vem para que isso se concretize?

 DESCANSAR COM DEUS

O livro do Êxodo apresenta outra motivação para o descanso semanal: "Porque em seis dias Iahweh fez o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm, mas repousou no sétimo dia; por isso Iahweh abençoou o dia do sábado e o santificou" (Ex 20,11). E, para a nossa surpresa, descobrimos que o dia do descanso semanal devemos servir ao Deus que descansa. O que significa isso? 

Assim como Deus criou tudo em seis dias, e no sétimo descansou, também nós devemos criar o mundo em seis dias, através do nosso trabalho, e no dia do descanso descansar. Será que Deus nos libertou de tudo para depois nos tornar escravos dele? Sim e não. Acontece que servir ao Deus da liberdade significa encontrar a liberdade. Servir ao Deus que descansa é descansar junto com ele. Só fica um problema: Quando é que todos vão poder descansar de fato no fim da semana? Dentro de uma sociedade onde a maioria trabalha e uma minoria usufruiu do trabalho (dos outros), como é que todos poderão descansar? Podemos então perceber que estamos bem longe de poder observar essa ordem de Deus. Precisamos antes criar uma sociedade nova onde todos, de fato, trabalhem, para que todos, de fato, possam descansar. Caso contrário, estaremos sempre, de alguma forma, roubando o descanso dos outros, e neste caso o descanso do próprio Deus.  

Para que serve o descanso? Para voltarmo-nos para nós mesmos e para as realidades mais profundas da vida: a esposa, os filhos, nossa alma, nossa sociedade, nossa história, o projeto de Deus, tudo o que é nossa maior aspiração. Liberdade e descanso para repensar a semana que vem, a fim de nos encaminharmos para a sociedade e a história que Deus quer construir junto com todos e cada um de nós. Só então poderemos finalmente descansar com Deus! 

V. QUARTO MANDAMENTO: O BERÇO DA VIDA

Quarto e sexto mandamentos têm em comum o tema da família. Se o quarto mandamento fala da nossa, o sexto fala da dos outros. E aqui se coloca uma questão de princípio: não faça aos outros o que você não quer que façam a você. Honre o pai e a mãe dos outros assim como você procura honrar os seus. Não adultere (estrague) a família dos outros, da mesma forma que você não gostaria que estragassem a sua.

 A família é o berço da vida humana. Das relações que se vive dentro dela dependem os fundamentos biológicos e psíquicos que por toda a vida governarão o comportamento da pessoa individual e as relações sociais. Não que sejamos simples resultados da soma das personalidades de nosso pai, mãe, irmãos e irmãs. Somos cada um um ser original e irrepetível, com caminho e destino próprio. Mas, e isso é muito importante, esse ser original e irrepetível pode ficar para sempre abafado e soterrado por causa das influências familiares que recebemos. Sem dúvida que é possível nascer de novo. Todavia, nem todos têm chance ou coragem para semelhante empresa. Por isso é melhor prevenir do que remediar. É na família que nosso corpo, alma, história e destino são formados ou deformados. A grandeza da família pode se tornar drama ou tragédia.

 Nossa família é um mistério. E a dos outros também. A sociedade futura dependerá do respeito à liberdade e à vida a que todos têm direito desde o seio da família. Vida é a base que possibilita a sustentação biológica para descobrir e realizar o mistério da liberdade. E a  liberdade é a possibilidade inesgotável de descobrir a própria originalidade e se tornar uma pessoa irrepetível. Contudo, se a família for adulterada - tanto a nossa como a dos outros - o que seremos nós?

 RESPEITAR A FONTE DA VIDA

O quarto mandamento, conforme o catecismo, diz: "Honrar pai e mãe". Na versão mais longa do Deuteronômio, temos: "Honra teu pai e tua mãe, conforme te ordenou Iahweh teu Deus, para que os teus dias se prolonguem e tudo corra bem na terra que Iahweh teu Deus te dá" (Dt 5,6 e Ex 20,12). Percebemos logo que o mandamento não tem apenas uma finalidade filantrópica, mas se refere à vida da própria pessoa que deve observá-lo: vida longa e sucesso na sociedade fundada pelo Deus libertador dependem da honra que se dá aos pais.

 O que significa esse mandamento? Na origem ele se refere à "casa do pai", uma grande família de mais ou menos cem pessoas, formada por três ou mais gerações, que perpetuavam o nome e a propriedade da família. Isso evitava que a história e os costumes familiares se apagassem ou diluíssem, e que os bens duramente conquistados através do trabalho fossem alienados pela ganância de latifundiários e alguns ricos proprietários que, pouco a pouco, iam devorando as terras e bens que significavam a sobrevivência dos pobres. Vida longa e sucesso, portanto, significava zelar pela continuidade do grupo que havia conquistado representação dentro de uma sociedade. E isso tem um lado econômico, um lado político e um lado ideológico. Economicamente significa que os filhos não devem "jogar fora" as propriedades que os pais conquistaram; politicamente quer dizer que os filhos devem continuar a luta por uma sociedade  fraterna e igualitária, onde os direitos dos pobres sejam respeitados; ideologicamente significa que os filhos devem preservar os valores verdadeiros pelos quais os pais viveram e educaram seus filhos. E, se levarmos em conta que Israel fazia tudo isso para respeitar o Deus libertador devemos acrescentar o lado religioso: os filhos devem continuar a religião dos pais, que lhes garantiu um espaço de liberdade e vida.

 PAIS, MESTRES DE VIDA

Continuando a comentar o quarto  mandamento - "honrar pai e mãe, para ter vida longa e sucesso" - devemos acrescentar um ponto muito importante: os pais são mestres de vida, porque viveram mais. Se acertaram ou não, se erraram muito ou não, isso já é outra coisa. Mas o importante é que, acertando ou errando, os pais caminharam e ensinaram os filhos a caminhar. É tarefa dos filhos, portanto, discernir e compreender o que os pais buscaram e perseguiram na vida, conquistando até certo ponto a meta a que se propunham. Disso depende a nossa vida. Como dizia o grande psicólogo C.G. Jung, "quanto menos compreendemos o que nossos pais e avós procuraram, tanto menos compreendemos a nós mesmos". Podemos achar, em nossa pujante juventude, que nossos pais são quadrados e caretas. No fim, porém, como diz o nosso músico Belchior, acabaremos descobrindo que apesar de tudo estamos vivendo exatamente "como nossos pais". Ou até muito pior, acrescento eu.

 Nossos pais ensinam a viver. Para os israelitas, os pais eram os transmissores da história, a ponto de dizer que a história era uma transmissão da interpretação dos acontecimentos que os pais forneciam aos filhos, para que estes, por sua vez, a transmitissem aos seus próprios filhos. Contar o que deu certo e o que deu errado é ensinar. E quem está disposto a aprender poderá poupar muito tempo e energia, que poderão ser usados, com maior proveito, na tentativa de algo realmente novo. E aí descobriremos como é difícil construir algo de verdadeiramente novo. Quando conversamos com nossos pais, podemos perceber que eles também viveram nossas secretas experiências, fantasias e esperanças. Se os ouvirmos, quem sabe não "quebraremos a cara" como eles. E aí aprenderemos que todo passo a frente na vida custa sangue.

 CARREGAR OS PAIS NO COLO

Há ainda mais um aspecto do quarto mandamento que devemos considerar: a honra que devemos ter para com nossos pais velhos. Nascemos no colo deles e eles nos amparam desde o primeiro momento, dando-nos o que tinham para que finalmente pudéssemos chegar a ser o que somos. Se estamos contentes, devemos isso a eles. Se estamos insatisfeitos, também devemos isso a eles. Mas, num e noutro caso, como é que poderemos retribuir? Eles nos deram o que eram e tinham. O que temos e somos para lhes retribuir?

 Quando nascemos dependemos. Quando somos adultos imaginamos que não dependemos de ninguém (grande ilusão...). E quando ficamos velhos, voltamos a depender. E agora, depender de quem?

 Quando velhos, os pais passam a depender dos filhos. Depender da sua bondade, compreensão, paciência e por fim, da suportabilidade mesmo. Tudo isso que eles próprios tiveram que ter pelos filhos pequenos. E aqui vem o momento delicado. Os filhos não se lembram disso, ou não estão dispostos a abrir mão da "sua vida", ou se vingam pelos maus tratos, mal sabendo que estão repetindo a mesma dose que receberam, e que, afinal, estão sendo exatamente "como nossos pais". E vem o abandono. E vem o asilo ou como se costuma dizer: "a casa do repouso" (melhor dizer logo "a casa onde se espera a morte"). Mal se imagina que o pior dos lares é melhor do que o mais luxuoso e confortável asilo. Nada substitui o carinho e a atenção, por mais minguados que sejam.

 Nossos pais velhos são um desafio. Desafio a nos lembrarmos que deles nascemos, por eles fomos (bem ou mal) cuidados. Mas graças a eles somos o que somos. Certamente a maneira como deles cuidamos já é um julgamento. Resta sempre a questão: bons ou maus que eles tenham sido, será que nós somos melhores do que eles?

 VI. QUINTO MANDAMENTO: VIDA X MORTE

O quinto mandamento é o centro de todo o Decálogo, e aqui o catecismo e a Bíblia coincidem: “Não matarás" ( Ex 20,13 e Dt 5,17). Aí está o centro do projeto de Deus: Deus quer a vida e não a morte. Ele do nada criou tudo para a vida, e da escravidão à morte ele libertou para a vida. O que é que Deus quer de nós? Que façamos o mesmo: que do nada tiremos vida e onde existe escravidão à morte invertamos o processo, transformando morte em vida. Tanto que o projeto de Deus culminou em Jesus, ressuscitando-o para a Vida, quando todos os tinham condenado à morte.

 A vida é um mistério que vivemos, mas não compreendemos. Sentimos na própria pele e na própria alma quando estamos vivos ou mortos. Percebemos quando nossos atos nos fazem viver ou morrer. Sabemos quando nossos pensamentos, palavras ou gestos fazem os outros viver ou morrer. Todo esse bruto contraste é muito claro para nossos sentimentos. O único problema é que nosso pensamento frio nem sempre acompanha nosso sentimento mais profundo, que é o espelho do próprio sentir de Deus, que só quer vida.

 O quinto mandamento é o fio da navalha em que todos nós caminhamos. Quantas vezes não fabricamos a morte dos outros através de um momento mínimo de nosso pensamento, palavra ou ação? Pode ser que nunca tenhamos empunhado um revólver nas mãos, mas o resultado é o mesmo: a morte, em algum nível ou dimensão dos nossos semelhantes. E aqui descobrimos que o limite entre a vida e a morte é algo misterioso: qualquer projeto - imaginado, dito ou feito - pode implicar na vida ou na morte dos nossos irmãos. Depende de mínima mudança de direção caminharmos para a morte ou a vida, e fabricarmos, consciente ou inconscientemente o destino fatal dos nossos irmãos. Este dilema é terrível.

 VIDA É PROJETO

"Não matarás". Pensamos que o quinto mandamento proíbe apenas tirar diretamente a vida do próximo. E nos esquecemos de que a Vida, principalmente a humana, é um projeto que está sempre se fazendo, em contínuo desenvolvimento. Mais do que algo realizado. Vida é direção e meta para a qual nos dirigimos. Resta ver se é realmente para ela que caminhamos. Pois no lado oposto vamos encontrar a Morte. Também ele é um projeto e uma meta para a qual podemos estar caminhando. A cada instante, dependendo do que pensamos, falamos e fazemos, estamos sempre construindo a Vida ou a Morte. 

O conjunto inteiro de nossa vida tem efeito mediatos e duradouros, que ultrapassam a dimensão curta de nossas pequenas atitudes neste ou naquele momento. Podemos ser educados, respeitosos e até muito atenciosos para com os nossos semelhantes nos inumeráveis encontros que se repetem indefinidamente em nosso dia-a-dia. Contudo, estamos sempre engajados num projeto de vida: no nosso trabalho, nossas idéias, nosso engajamento político, nossa vida familiar e social. É nisso tudo que construímos a Vida ou a Morte. De nada adianta nunca empunhar um revólver, mas trabalhar numa fábrica de armamentos. E de que vale falar de vida quando produzimos alimentos contaminados com germes de Morte e pretendemos curar tudo com remédios que em vez de curar comprometem ainda mais a saúde?

 Sim, Vida e Morte são coisas que se decidem em atos mínimos que fazem parte de grandes projetos. Dois projetos só: um voltado para a acolhida e o desenvolvimento do dom da Vida. Outro comprometido com a destruição gradual que leva à Morte. É necessário rever o processo de nossa educação familiar, escolar e social, se quisermos que este mundo tenha algum futuro. E sobretudo reconhecer que depende de nós a vitória da Vida ou o terrível triunfo da Morte.

 QUEM PAGA POR ESSAS MORTES?

"Não matarás". Mas hoje acontecem tantas mortes que nos deixam perplexos, perguntando: Quem é o culpado? Quem é que vai pagar - se isso fosse possível - por tantas mortes prematuras?

 Primeiro, a situação dos índios, habitantes de nosso continente, que são pouco a pouco mortos como animais pelo homem branco. Depois a morte de crianças que não chegam a um ano de vida, por falta de alimento. E as que são abortadas? Depois vem a morte do povo trabalhador, subalimentado e  exaurido, que não tem a mínima segurança de trabalho. Depois vem a morte de mendigos e marginalizados, que nunca puderam usufruir dos benefícios da vida social. ( E sabe-se que muitos batem palmas pela existência de "esquadrões da morte", encarados como companhias dedetizadoras...) E vêm depois as milhares de pessoas exterminadas pelo trânsito mortífero de nossas cidades e estradas... Sem contar os que encontraram a morte quando buscavam o lazer e a convivência.. ou os que cumpriam pena por crimes que sabe Deus quem os levou a cometer, e morreram sufocados numa cela hermeticamente fechada... Isso para não falar de 90% da população que ganhando até três salários mínimos, vive continuamente espreitada pela morte que os ameaça de fome, doença, aviltamento... Ao ver tudo isso pensamos: Mas que vida, meu Deus! Nem se pode chamar de vida ... É morte mesmo!

 Pois bem. "Não matarás" se refere a tudo isso. E quem é o culpado? Em maior ou menor grau todos nós. Toda vez que fechamos os olhos ou nos calamos diante da morte brutal somos culpados. Podemos não ter poder para fazer nada, mas temos pelo menos a palavra que ninguém poderá calar. E falar incomoda, e faz pensar e rever que mundo é esse que estamos fabricando. Pois se todas essas mortes ficam impunes é sinal que a maioria de nós está aprovando. Até quando vamos suportar que a Vida seja derrotada pela morte?

 LUTA INADIÁVEL

Expresso no quinto mandamento, o centro do projeto de Deus é a Vida. Ele mesmo é essa Vida, e toda a criação é comunicação dele mesmo, do seu próprio mistério, que chamamos tão simplesmente de Vida. Nesse mistério nascemos, crescemos e existimos. E também encontramos inúmeros obstáculos que se levantam contra esse mistério: nossos desvios, nossos caprichos e interesses egoístas que, multiplicados por bilhões de seres "humanos”, criam a gigantesca e monstruosa figura da Morte, espreitando o mistério da Vida. E o projeto de Deus se transforma em tragédia, em luta contra a Morte. 

Em grau maior ou menor, somos todos vítimas e responsáveis por essa tragédia. Nós podemos compreender, mas o resto da criação apenas sofre, sem entender nada. Cabe a nós tomar consciência do problema e providenciar atitudes pessoais e coletivas que mudem o processo da Morte em processo de vida. Em primeiro lugar, ver, reconhecer e aceitar que estamos errando muito. É bom lembrar que Deus sempre perdoa, porque ele "não fez a morte, nem tem prazer em destruir os seres vivos" (Sb 1,13). Nós, seres humanos, podemos perdoar, e isso depende da nossa compreensão e grandeza de coração. Contudo, não esqueçamos: a natureza, seja a nossa interior (o inconsciente, como a chama a psicologia) seja a exterior (todo o universo) não perdoa. Porque ela só sabe obedecer ao Criador, que a projetou para a vida. Nós, "humanos", somos os únicos seres capazes de nos desviar e desviar toda a criação para a Morte.

 Estamos todos situados num ponto muito delicado, entre Deus e  a natureza. Deus nos entregou as rédeas. Cabe a nós todos, e a cada um, decidir sobre o futuro: vitória ou derrota, da Vida ou da Morte. Quem vai ganhar ou perder? Nós mesmos!

 A MATANÇA DA ALMA

"Não matarás". Pensamos que o quinto mandamento diz respeito apenas à materialidade do corpo. E nos esquecemos de que o corpo é a encarnação da alma espiritual, a raiz última da Vida que se expressa no amor, na arte, na religião e nas idéias criadoras de novas realidades e caminhos. Não basta respeitar o corpo. É preciso respeitar a alma que dá e se expressa através desse corpo.  Mas, para isso, também a alma precisa de um corpo alimentado, cuidado, sadio. 

No seu livro "Terra dos Homens",  Saint-Exupéry descreve uma aldeia miserável que conheceu, e termina lamentando que em cada uma daquelas pessoas havia um Mozart assassinado. Ora, Mozart foi um dos maiores músicos, e nos deliciamos com aquilo que ele produziu. Mas nos esquecemos de que cada pessoa à nossa volta poderia ser um Mozart, ou um Bach, ou um Michelangelo, ou quem sabe, um novo Moisés, ou profeta, filósofo, cientista ou político que abririam insondáveis caminhos para nós todos. No entanto essa pessoa têm seus corpos tão castigados que sua alma nunca despertou, ou já murchou, ou já inevitavelmente ressequiu tanto que nada mais se pode esperar. Culpa de quem? De Deus? Ou do destino, como se as coisas tivessem que ser assim mesmo? Não. É culpa da mesquinhez cheia de interesses e caprichos egoístas de uma sociedade que impede que as pessoas usufruam da Vida que Deus deu para todos. 

O pior assassínio é o da alma, porque ele resume todos os outros. A alma é incomensurável e está sempre voltada para Deus, o infinito da Vida que sequer podemos imaginar. Todavia, a cada vez que matamos a alma dos nossos irmãos, estamos impedindo que o próprio Deus se revele ao mundo em sua bondade e beleza. Se achamos que as pessoas "não têm mais alma", é porque foi cometido um grande crime. Quem foi que o cometeu, e como? Se não dermos condições para que a alma do povo viva e se expresse, todos nós acabaremos frustrados. 

A MATANÇA DO PLANETA

"Não matarás". Esse mandamento foi dirigido às pessoas humanas. E imaginamos que não matando a pessoa que está perto de nós estamos quites com o mandamento. Esquecemos que a vida nos ultrapassa e nos cerca por todos os lados. Aliás, os antigos já diziam que o universo é um grande organismo vivo do qual fazemos parte. Coisa que os cientistas modernos estão começando a descobrir.

 Fazemos parte de um grande sistema de Vida, que Deus criou voltado para mais Vida. E somos os únicos seres dotados de consciência, isto é, sabendo o que as coisas são. Mas parece que ainda não sabemos muito, porque, quanto mais civilizados somos, parece que estamos tanto mais destruindo este planeta que, no dizer dos astronautas que o contemplaram da lua, se parece com uma imensa jóia azul. No entanto, o que vemos? Estamos a cada instante comprometendo esta jóia. Desde os agrotóxicos, sabões, detergentes (queremos limpar o quê?), até os compostos de clorofluorcarbono (os elegantes aerossóis) estamos fabricando pouco a pouco a destruição do equilíbrio vital do nosso planeta. Isso para não falar dos lixos atômicos e de todos os outros lixos que nós, seres humanos, somos os únicos a produzir. O que é a civilização, afinal? Vida ou Morte?

 Quando Deus criou a humanidade, ele disse que o Homem iria dominar toda a natureza (Gênesis 1).  Não disse, porém, que devia destruir tudo, por uso indevido. Devemos sim entrar em sintonia consciente (com toda a ciência) com a natureza, para multiplicar a Vida, e não para destruí-la. Somos "imagem e semelhança" do Deus Criador da Vida. Toda vez que desrespeitamos, ou violamos, ou destruímos a Vida da natureza, para satisfazer nossas comodidades egoístas, estamos comprometendo a nossa própria vida e o destino futuro de toda a humanidade. Isso não é matar? Não é violar o quinto mandamento?

 VII. SEXTO MANDAMENTO: RESPEITAR A FAMÍLIA DOS OUTROS

"Não pecar contra a castidade". Foi assim que aprendemos o sexto mandamento no catecismo. A Bíblia, porém, diz outra coisa: "Não cometerás adultério" ( Ex 20,14 e Dt 5,18). Claríssimo que são coisas completamente diferentes. O sexto mandamento, segundo a Bíblia, não está nada preocupado com a sexualidade, nem com a castidade. 

Adultério é relação que acontece entre diferentes pessoas casadas, homens ou mulheres. Ao menor sinal disso, todo mundo fica preocupado ou interessado na área sexual, que parece ser o maior escândalo. E não é nisso que o sexto mandamento está interessado. O mandamento quer preservar o núcleo básico da sociedade, que é a família. Pois é dentro dela e a partir dela que o homem e a mulher se revelam um ao outro, crescem juntos e se lançam na relação social. E é no ninho formado pela relação amorosa entre homem e mulher, é nesse forno aquecido na temperatura exata que nasce a humanidade - futuros homens e mulheres - que vai continuar o mistério da vida humana. Só que os humanos demoram pelo menos dezoito anos para caminharem por si mesmos. Até lá terão de ser acompanhados. Por quem? Pelos pais, pai e mãe, marido e esposa, homem e mulher que se comprometeram. 

Adultério é injustiça social. Injustiça contra a própria família e contra a família dos outros. É roubo perpetrado contra a própria esposa ou marido, e contra a esposa ou marido do outros. Principalmente um roubo do direito dos próprios filhos e dos filhos dos outros. Se o quarto mandamento nos mandava  respeitar os próprios pais, este nos manda respeitar pais, mães e filhos dos outros. Deus é Vida que se dá. Ele não quer que tiremos a vida de ninguém. Como sua imagem e semelhança, ele quer que  também nós demos a vida, e não que a roubemos! 

E A SEXUALIDADE?

Por quais caminhos, o sexto mandamento, que proíbe o adultério, acabou dando o nosso "não pecar contra a castidade"? Difícil saber. Parece que a sexualidade não era problema para o povo da Bíblia, mas para nós ficou sendo. E tanto, que as mais diferentes pessoas vivem se perguntando e perguntando aos outros - pais (raramente), padres, professores, amigos, psicólogos - "afinal, posso ou não posso fazer?” Fazer o quê? Sabe lá Deus o quê, e nós também. Quem é inteligente não pergunta, e quem é prudente não responde. 

Sexo é natureza e, como o nome diz, natureza é aquilo que nasce, é vida produzindo vida, que cresce e produz vida nova. Mas o que é Vida? Podemos descrever todo o processo visível de vida. Palmas para a ciência. Mas não sabemos nada daquilo que está por trás do visível, o fundo desse mistério insondável que chamamos tão simplesmente de "vida". Podemos ou não criar vida? Não podemos. Mas devemos. O fato é que ela se faz de nós, e mesmo apesar de nós. Somos apenas canais, e ela corre através de nós. 

Sexo é mistério criador de vida. Quando compreendemos isso, só nos resta adorar o mistério e servir a vida. Não adianta querermos fazer dele o que ele próprio não é, ou dele tirar proveito. Ficaremos frustrados. A vida não volta atrás, para servir aos nossos caprichos. Ela sai de Deus, e, uma vez  desencadeado o seu processo, ela vai sempre para a frente, de novo à procura de Deus. Porque Deus pode satisfazer o infinito anseio de vida que a vida tem. Somos um elo na corrente que liga a mão direita de Deus à sua esquerda. Perceber, aceitar e amar esse mistério é a nossa tarefa de animais (seres animados) racionais. O importante é nunca se esquecer da pergunta: "Por quê?" Um dia Deus nos responderá! 

O QUE É A CASTIDADE?

Dizem que a castidade é uma das grandes virtudes. O sexto mandamento, segundo o catecismo, teve grande influência nisso. Mas nunca explicam direito o que é castidade. É fazer ou não fazer sexo, ou "fazer amor", como se diz? Tormentos, dúvidas, escrúpulo. Pode ou não pode? Vale ou não vale a pena?

 "Tudo vale a pena, se a alma não é pequena", diz Fernando Pessoa, o grande poeta. E muito antes diz Agostinho, o pecador que se tornou santo: "Ame e faça o que você quiser!" E aí temos tudo: alma e amor. Um depende do outro e um faz o outro. Mas, por que é que as coisas se complicam tanto na vida? Porque a insegurança, falta de confiança, sempre acaba se intrometendo no mistério da alma e do amor. E aparece a idéia da posse. Segurar o que se conquistou, possuir o que se cativou. Prisão. E quem é que gosta disso?

 Castidade é se relacionar com o mundo sem possuí-lo. O mundo é de Deus. Nós também. Cada um de nós. E cada um dos seres. E, compreenda quem puder, Deus não possui nada. Criou tudo, e entregou tudo à humanidade. Restou seu Filho. Pois ele entregou seu Filho também. E Deus ficou apenas sendo, sem mais nada. Ele é castidade absoluta. Nós, criados à imagem e semelhança dele, ficamos com esse modelo que podemos aceitar ou não. Deus é a felicidade absoluta, porque só é. Não possui nada porque deu tudo.

 Castidade é essa pureza de ser puro dom, entrega, presente. Deus criou o universo inteiro, e não ficou com nada para si. Tornou-se pobre. Não bastasse isso, deu-se a si mesmo. Se ele, Deus, fez isso, o que nós, sua imagem e semelhança, somos convidados a fazer? Darmo-nos também. Aprender que as flores não precisam ser apanhadas no jardim. Elas já estão se dando!

 VIII. SÉTIMO MANDAMENTO: NÃO ROUBARÁS

Catecismo e Bíblia concordam na versão do sétimo mandamento: "Não roubarás" (Ex 20,15 e Dt 5,19). Alguns preferem o verbo furtar, menos chocante, mais elegante. Contudo, o que proíbe esse mandamento? O texto fala de roubar, mas não especifica o quê.

 O verbo hebraico roubar (ganab) é usado em muitos contextos na Bíblia, tanto para o roubo de coisas, como, principalmente, para o roubo da liberdade, que reduz as pessoas à escravidão. E esses dois roubos podiam estar intimamente ligados: depois de completamente roubada no que possuía (bens, casa, pequena propriedade), a pessoa não tinha outra saída senão vender a si mesma como objeto, um corpo sem consciência e vontade própria. Daí por diante ficava à mercê de alguém mais poderoso, que lhe roubava o que há de mais íntimo: a liberdade que garante a originalidade de uma vida pessoal e irrepetível.

 O povo de Israel havia lutado por uma sociedade igualitária, onde todos podem ter uma vida digna, com os bens necessários e um espaço para a liberdade, tanto para tomar decisões próprias, como para participar nos rumos da sociedade e da história. E tanto lutou que conseguiu. A ganância, porém, era um perigo sempre à espreita. Mal interpretado, o desejo de eternidade torna-se ganância sem medida, que não respeita mais os próprios limites, invadindo o terreno da liberdade e da vida dos outros. E assim, pouco a pouco, alguns se tornam poderosos e ricos, fabricando ao seu lado a miséria e a escravidão de um povo todo, quando não de nações e continentes inteiros. Israel tinha consciência disso e, quando intuiu o sétimo mandamento, estava procurando conter a volta para trás para o abismo escuro e profundo da miséria e da escravidão, que matam a liberdade e a vida do povo!

 O ROUBO "LEGALIZADO"

"Não roubarás!" certo. Para o povo de Israel esse mandamento era a forma de garantir a continuidade de uma vida social igualitária. Contudo, e quando a relação social não é nada igualitária? E quando se baseia justamente na desigualdade, na injustiça estabelecida, reconhecida e aprovada daquele caso muito especial de roubo que se chama lucro? Como é que fica então o sétimo mandamento? 

O alicerce econômico principal de qualquer nação do Ocidente, principalmente as chamadas "desenvolvidas", é o lucro. Lucro que dá origem ao capital, capital que é investido na produção, produção que dá mais lucro, lucro que aumenta mais o capital, que aumenta a produção, que multiplica o lucro, que... O que nunca fica claro é: de quem é todo esse lucro? Do povo? Não, é claro. O povo mal tem o que comer, o que vestir, não tem casa própria, se "vira" como pode (quando pode), não descansa, não pode educar direito os filhos, e ainda procria futuros proletários e proletárias e prostitutas... Para satisfazer a ganância de quem? Aqui o sétimo mandamento já rodou há muito tempo. Esse povo inteiro já foi roubado, tanto na sua vida, reduzida à miséria, quanto na sua liberdade, há muito transformada em escravidão. Já não tem forças para viver e, quando pára de trabalhar, dorme. Dorme no ônibus, no banco da praça, no chão, na sarjeta, sem força no corpo, sem vida na alma, tudo morto... Já foi roubado em tudo: no que produziu, no que é, roubado na alma, reduzido a menos que um bicho... E ainda dizem que ele é indolente, vagabundo, imprestável!

 Se nos calarmos diante disso, Deus não calará. Ao ver o que foi feito com a sua criação, Deus fica revoltado, e convoca o julgamento, e nos pede contas. Como é que podemos agüentar esse julgamento?

 ROUBO? OU JUSTIÇA?

"Não roubarás!" Todo mundo concorda com o mandamento, até mesmo os ladrões disfarçados e legitimados pelo sistema que tem sua base fundamental no lucro, que é roubo puro, mas disfarçados, legalizado, “limpo", como se diz. Aqui o roubo já se tornou a regra do jogo. E o sétimo mandamento?

 Em geral ficamos calados diante do roubo generalizado e institucionalizado, aquele que vai criar gordas somas nos bancos estrangeiros - a Suíça que o diga. Mas somos sensibilíssimos aos pequenos roubos, o roubo perpetrado por aquele que passa fome, e rouba para comer ou tomar um gole de cachaça, tão pequeno o roubo é. Diante disso todo mundo grita, e chama a polícia, e clama para pôr o "trombadinha" na cadeia, para que ele aprenda. Aprender o quê? A roubar com mais elegância? Uma pessoa com profundo senso de justiça me disse que seria capaz de chefiar um grupo de pessoas com fome para um assalto. E algo semelhante disse uma prostituta cuja especialidade é proteger trombadinhas perseguidos pela polícia. Quando o perigo passa, ela diz ao menino: "Vá, meu filho, vá. E que Deus o abençoe!" Será que Deus abençoa essa atitude? Creio que sim, numa sociedade em que esse exemplo vem de cima, dos poderosos que roubam impunemente um povo inteiro.

 Segundo a Bíblia, Deus inverte as nossas perspectivas. Ele próprio se aliou a um grupo de escravos para formar o seu povo (livro do Êxodo), subvertendo o sistema que rouba a liberdade e a vida em nome da pura ganância. Se compreendermos isso, também compreenderemos que Deus abençoa e legitima o roubo feito pelo pobre. Não seria ele uma denúncia e, ainda que tortuosa e canhestra, uma busca desesperada de fazer a justiça que Deus quer?

 QUESTÃO DE FILOSOFIA

"Não roubarás!" Mandamento difícil de se observar numa sociedade em que roubar é a regra. Exceção é ser honesto, ou bobo, como se costuma dizer. O interessante é que tudo isso envolve uma questão de filosofia, ou de três sistemas filosóficos,  todos eles lindamente expostos na parábola do bom samaritano, em  Lucas 10,25-37. 

 O primeiro sistema filosófico é o dos assaltantes que saqueiam aquele homem, roubando-lhe tudo: o dinheiro, os bens, a força de trabalho, a vida... O ponto de vista do ladrão é: "o que é teu é meu!" O outro sistema é o do sacerdote e do levita, que passam,  vêem o homem assaltado e agonizante, e seguem em frente, sem nada fazer. A filosofia destes é "o que é meu é meu", ou seja, não tenho nada a ver com isso. O terceiro sistema filosófico é o do samaritano, inimigo consumado dos judeus - e, ao que parece, o homem assaltado era um judeu.

 Pois bem, o samaritano se enche de compaixão (= sofrer junto), faz ali mesmo tudo o que pode, continua a cuidar da vítima numa hospedaria, e ainda se dispõe a saldar os gastos futuros... A filosofia dele é "o que é meu é teu!"

 Aí estão os três grandes sistemas econômicos que atingem o ser e o ter das pessoas. É claro que Jesus, e Deus com ele, escolheram o terceiro. Afinal, Jesus entregou-se a si mesmo pelo povo, dando tudo o que tinha e o que era. E não impôs nada. Deixou apenas uma sugestão, um convite: "Por que vocês não fazem o mesmo?"

 A meu ver não existem outras filosofias econômicas além das três apresentadas nessa parábola. Não há como escapar delas. Resta-nos ver qual delas dirige a nossa vida. Mas, atenção: Deus está com o samaritano, superando todas as barreiras que criamos. E agora, com quem vamos ficar?

 TRABALHO X ESPERTEZA

Numa visão concêntrica do Decálogo, o terceiro mandamento corresponde ao sétimo. O terceiro mostra o ritmo da vida - trabalho e descanso - que propicia a base econômica para sustentar a família na sua vida biológica, base imprescindível para a vivência do mistério da liberdade. O sétimo mandamento proíbe de roubar. Mas roubar o quê? O trabalho e/ou o descanso a que o próximo tem direito.

 Não há muitos caminhos para sustentar a vida e possibilitar o exercício da liberdade. Só há duas formas: ou trabalhar (e descansar, para agüentar a parada), ou roubar o trabalho e o descanso dos outros. Isto é, ou se vive do próprio trabalho, ou se vive da esperteza de roubar o trabalho dos outros. A primeira forma gera uma sociedade onde os bens da vida e da liberdade podem ser igualitariamente conquistados por todos. A segunda produz a relação social injusta e desigual, onde um grupo de espertos rouba o trabalho e o descanso da maioria. Os privilegiados ficam sempre mais ricos e poderosos; o povo se torna cada vez mais pobre e fraco, reduzido à mínima (quando há) expressão de vida e liberdade. Enquanto isso, os privilegiados esbanjam possibilidades que nenhum proveito lhes traz. É sempre assim: só damos  valor àquilo que conquistamos às duras penas, com dedicação e suor.

 Se o trabalho possibilita a sustentação da vida, o descanso permite a descoberta e o exercício da liberdade. A escravatura foi abolida há muito tempo. O que não se aboliu foi a mentalidade de explorar e roubar os corpos e as consciências dos outros. Essa mentalidade gerou sistemas econômicos e políticos diabólicos, onde roubar é a regra do jogo. Até quando o povo continuará em silêncio, achando que "Deus quer assim?" Esse não é o Deus verdadeiro...

 IX. OITAVO MANDAMENTO: A FAMA DO PRÓXIMO

Conforme o catecismo, o oitavo  mandamento diz: "Não levantar falso testemunho!" A Bíblia continua: "contra o teu próximo" (Ex 20,16 e Dt 5,20). À primeira vista o mandamento proíbe "falar mal dos outros!" Mas a coisa é mais grave, e envolve o depoimento das testemunhas no tribunal encarregado de fazer justiça.

 Em Israel o tribunal funcionava nas portas da cidade, isto é, no lugar mais público. Para aí se dirigiam as pessoas que tinham alguma questão para resolver, em geral conflitos de interesse. Eram convocados os anciãos do lugar, que exerciam a autoridade de juízes e davam a sentença. Cada uma das partes conflitantes levava suas testemunhas, para apoiar seu depoimento. Ouvida a "briga" entre as partes, ouvidas as testemunhas, os anciãos davam a sentença e a penalidade correspondente, prevista por lei.

 O mandamento se refere a esse clima de tribunal, principalmente ao papel das testemunhas. Estas podiam ser "contratadas" ou "compradas" e, assim, servir aos interesses de "quem podia mais" ou de "quem pagava mais!" O célebre suborno que, na atualidade, atingiu proporções políticas e econômicas de  grande porte.

 Hoje as portas da cidade são o Ministério da Justiça e os tribunais, onde se espera a justiça. Não é o que acontece, porém. Quem é que vê os poderosos perderem uma causa? Quem é que vê o pobre sem meios (econômicos) ganhar sua pequena questão, embora dela dependa sua magra sobrevivência? Nos tribunais de hoje há inúmeras "gavetas", onde os processos dos pobres apodrecem, e de onde os processos de "quem pode" desaparecem. Coisa maravilhosa, para não dizer mágica. O que são os tribunais? Templos da justiça ou da injustiça?

 FAMA E QUESTÃO SOCIAL

É claro que o oitavo mandamento - "Não levantar falso testemunho contra o próximo"- não fica apenas em questões de relacionamento pessoal, mas envolve os relacionamentos mútuos de grandes segmentos da sociedade, permeados sempre por questões econômicas e políticas, por sua vez penetradas pelas idéias que procuram justificar e cimentar toda a construção social. 

A sociedade capitalista estratifica o povo de acordo com seu poder aquisitivo e sua chance de participação nas decisões políticas e no mundo das idéias. Temos assim as classes sociais. Na camada mais baixa temos os marginalizados, totalmente dependentes da "bondade" social. Depois vêm os pobres, ganhando entre um e cinco salários mínimos. Depois temos a classe média, ganhando entre seis e duzentos salários mínimos. Finalmente vem a classe rica, que vive do "trabalho estafante" de administrar suas rendas. 

Nesse quadro de sociedade, como fica a honra devida ao próximo? As classes sociais se interpenetram e interdependem, para o bem de uns e mal dos outros. Afinal, como explicar a riqueza e o poder de uns sem recorrer à pobreza e à fraqueza de outros? Quando algo encrenca na máquina social - em geral uma busca mínima de justiça - as coisas complicam. De quem é a culpa? Quem está com a razão? Os ricos e os médio-ricos culpam os pobre e os marginalizados. Estes últimos, por sua vez, culpam-se a si próprios, e se digladiam no próprio seio da miséria. E a justiça? E a honradez  ou boa-fama do próximo, para onde vai? Os que estão em cima culpam os de baixo, os do meio culpam os de baixo também, e os que estão lá embaixo culpam os que estão à margem. Acabamos todos no buraco negro e sujo da injustiça. E uma vez aqui, quem é que pode ter boa-fama? 

FOFOCO - TERAPIA?

Se o oitavo mandamento  busca proteger o direito de todo o mundo à boa-fama, ele está contra toda e qualquer forma de difamação. E aqui temos o caso da  fofoca, em todos os níveis em que ela acontece: crítica destrutiva nos grandes meios de comunicação, distorção nas informações, desvendamento de segredos delicados, mexericos ao pé do muro (ou da cerca)... Em tudo isso o que se visa é sempre acabar com a fama e a credibilidade dos outros. 

Dizem que "fofocar", ou "falar mal dos outros", é psicoterapia de pobre, e que isso faz bem, alivia. Para quem fala, é claro! Coisa muito discutível. Os psicólogos de hoje conhecem bem o fenômeno da sombra inconsciente que, quando não é reconhecida, torna-se projetada. Mas, bem antes da Psicologia atual, Jesus dizia: "Vocês serão julgados com o mesmo julgamento com que vocês julgarem... Hipócrita, tire primeiro a trave de seu próprio olho, e então você enxergará bem para tirar o cisco do seu irmão" (Mt 7,1-5). E quinhentos anos antes, Confúcio já dizia : "O Homem de bem, quando vê uma qualidade nos outros, ele a imita, quando vê um defeito nos outros, ele o corrige em si próprio!" 

Nós vemos nos outros aquilo que nós mesmos somos. Os outros funcionam como espelho, tanto para o que temos de bom, como para o que temos de sombra. É nessa luz que podemos compreender melhor o que significa a inveja e a irritação que os outros provocam em nós. A inveja mostra que temos aquela qualidade, só que ainda não desenvolvida. Por que não desenvolvê-la então? E a irritação mostra que também temos aquele defeito, só que abafado, escondido. E por que não corrigi-lo? Só então entenderemos o desafio: "Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra"(Jo 8,7). 

TUDO ISSO, MAS ...

A técnica mais refinada de ir contra o oitavo mandamento, destruindo a boa-fama dos outros, técnica praticada por pessoas muito inteligentes ou educadas, é a técnica do "mas". Funciona assim: Em determinado ambiente ou círculo de pessoas, alguém fala de alguém muito conhecido e, em geral muito respeitado. Então uma das pessoas começa a tecer uma série longa de elogios a esse alguém (ausente, é claro): "Ah, fulano ou fulana é assim e assim, faz  isso e aquilo, também já fez coisas deslumbrantes, e tal e tal..."e prolonga os elogios ao máximo. Contudo, no momento do maior  suspense, vem o "mas... ele é assim" ou então "mas ele fez aquilo..." Assim como ou aquilo o quê? Claro, uma coisa que todos condenaria, sem pestanejar. A  técnica é ótima. Usada com inteligência de construção e delicadeza na execução, não falha nunca.  É também a mais sofisticada forma de acabar com qualquer neste mundo, pois não há santo ou leigo que não tenha sido ou feito o seu "mas". Até São Paulo tinha o seu "espinho na carne"... E São Pedro então? Não renegou ele o Cristo?

 "Mas" é uma forma eficientíssima de condenar qualquer pessoa. Só que não percebemos que por trás do "mas" e daquilo que vem depois dele estamos nós mesmos. Só vemos nos outros o que  nós mesmos somos. E pior ainda: Por que é que precisamos condenar os outros? Esta é apenas uma forma de absolvermos a nós mesmos. Este é o mal dos perfeitos, daqueles que jamais tiveram a coragem de se olhar no espelho. Deus sabe lá por quê. Elas preferem se olhar nos outros e condenarem a si mesmas nos outros. E no fim não entendem como é que ficaram tão anuladas e tudo. Não são capazes de compreender que o "mas" com que mataram os outros acabou por matá-las também.

 X. NOVE OU DEZ?

Lendo atentamente o texto de Ex 20,17, perceberemos que um só verbo rege o nono e o décimo mandamentos: "Não cobiçarás (hamad) a casa do teu próximo, não cobiçarás (hamad) a sua mulher, nem seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo!" Isso nos permite afirmar que, na origem, os dois últimos mandamentos do catecismo ("Não desejar a mulher do próximo" e "Não cobiçar as coisas alheias") fossem  um só. O mandamento proíbe a cobiça. E a mulher, entre outras coisas, podia ser um objeto cobiçado. Coisa de sociedade patriarcal e machista. 

O Deuteronômio é um pouco diferente. Em Dt 5,21 temos: "Não cobiçarás (hamad) a mulher do teu próximo; nem desejarás ('awah) para ti a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo!". A mulher vem em primeiro lugar na lista, regida pelo verbo cobiçar (hamad), e o resto é regido pelo verbo desejar ('awah). Há uma distinção no Deuteronômio, e foi provavelmente a partir dela que o Decálogo do nosso catecismo aparece na forma de Dez mandamentos. E então, são nove ou dez? 

Nem o texto do Deuteronômio nem o do Êxodo reproduzem a forma antiga do mandamento. Na origem, este devia ser simplesmente: "Não cobiçarás as propriedades do teu próximo!" A mulher era uma das coisas que o próximo  possuía. Pode ser estranho, mas era assim. Será que hoje as coisas mudaram? É bom verificar, porque em geral se pensa uma coisa e se vive outra. Como a esposa e o marido já são especialmente contemplados no sexto mandamento (proibição do adultério), prefiro ficar com a conta de nove mandamentos, e perguntar o que é cobiça! 

COBIÇAR É DESEJAR?

Nono e décimo mandamentos  proíbem a cobiça, qualquer que seja a forma de seu objeto. Mas o que é cobiça? Em geral a confundimos com o desejo. Estamos errados. Cobiça é um passo além do desejo.

 Desejar, em hebraico, é 'awah, verbo que significa "ter vontade de, ter impulso para, querer tal coisa!" Esse verbo é sempre aplicado para alguém que vê alguma coisa e a deseja, querendo tê-la para si - pode ser uma mulher, um homem, ou qualquer coisa que não se possua. Mas cobiçar é coisa muito mais séria. Hamad, em hebraico, significa "fazer planos, maquinações e armadilhas para arrebatar aquilo que se deseja!" Pode ser a mulher do próximo, ou o marido da próxima, ou outra coisa que o próximo possua: sua propriedade, meio de trabalho, ou suas idéias, e daí para a frente. Enquanto o desejo é realidade interna, a cobiça é o plano para realizar externamente o desejo. Achar bonita a mulher do próximo, e até desejá-la, é uma coisa. Mas fazer planos para apropriar-se dela é outra: aqui já entra a cobiça. Pode não ser a mulher, mas o sitiozinho, a empregada ou empregado, ou o quintal, o meio de trabalho, ou o emprego, o trator, as idéias, e até a roupa ou o sapato do próximo.

 Israel tinha lutado para criar uma sociedade igualitária, onde  todos pudessem ter o necessário para viver dignamente. Lutou e conseguiu. Mas o desejo não se extingue e, quando ele se transforma em cobiça, em plano para tirar o que o outro possui, ele começa a recriar a desigualdade que em nome da justiça se havia antes combatido. O desejo é infinito. Certo. Mas, se mal compreendido, transforma-se logo em cobiça e produz o engano fundamental: ter mais em vez de ser mais. E quem disse que a felicidade está em ter mais?

 A FONTE DA DESIGUALDADE

O mandamento que proíbe  a cobiça  procurar assegurar a continuidade de uma sociedade igualitária, onde todos podem ter o necessário e o suficiente para viver bem (partilha econômica dos bens) e se expressar socialmente (exercício político da liberdade). De fato, a cobiça de possuir o que pertence ao outro é a fonte da desigualdade, pois ela se alimenta da exploração dos bens e da opressão das liberdades. Desse modo nasce a sociedade de classes, onde uma pequena minoria privilegiada detém o controle econômico e político, contra os interesses da grande massa do povo, reduzido à miséria e marginalidade.

 Esmagado pela insaciável cobiça dos grandes e poderosos, cedo ou tarde o pobre só vê uma saída para continuar sobrevivendo: vender bem barato a sua casa, o seu pequeno campo, seus poucos animais (meio de trabalho) ou seu pequeno comércio. Sem nada, procura agora um subemprego e uma submoradia. Em troca formam-se os grandes latifúndios, improdutivos ou sustentados a custo de "bóia-frias", e, na cidade, a especulação imobiliária, onde os aluguéis astronômicos dão origem às favelas e cortiços, e a concentração do comércio e industria na mão de multinacionais, que mais e mais exploram a força de trabalho e o magro salário do povo pobre.

 Falar de cobiça dentro de um sistema construído e alimentado pela cobiça é o mesmo que pôr abaixo o sistema. Usar o mandamento para defender a propriedade dos poderosos seria torcer a  Palavra de Deus e, em primeiro lugar, ir contra o segundo mandamento, tornando Deus cúmplice da injustiça. Contra a cobiça desenfreada dos grandes, aos pobres só resta um caminho: cobiçar desenfreadamente a liberdade que, alimentada com a fome e a sede de justiça, sempre venceu todas as batalhas!

 SER OU CONSUMIR?

Todos nós somos seres inacabados e com uma vocação infinita. Somos e não somos. Temos sede de ser e, quando nos tornamos, desejamos ser mais, e sempre cada vez mais, rasgando todos os limites e horizontes conhecidos. No centro de cada um de nós está o desejo infinito, espelhando o próprio Deus que nos chamou à vida para sermos "imagem e semelhança" dele mesmo (Gn 1,26-27). De modo que o que desejamos mesmo é Deus, ou a eternidade.

 O perigo é confundir o ser com o ter. Aí vem o engano fundamental: ter mais, em vez de ser mais. Como o desejo é infinito, infinita é a sede também. E agora? Quem não tem, quer ter, e quem tem, quer ter sempre mais. Está montado o jogo do consumo que, em nome do lucro e do poder de alguns, vai explorar o nosso desejo de eternidade, transformando-o em cobiça de ter, sempre oferecendo a cada instante um ilusório passo a mais para a nossa realização. Realização ou tapeação? A cada instante as vitrinas e os meios  de comunicação (TV, Rádio, Jornal, Revistas, Cartazes) nos oferecem a "eternidade" em troca de um produto qualquer. Acreditamos. Experimentamos. E ficamos frustrados. Tudo acabado? Não. Logo chegam novas propagandas, e tudo recomeça. E nós, sempre com aquela sensação amarga de que "Tudo isso é bom. A gente é que não presta"!

 Numa sociedade em que a cobiça dos grandes é a regra, o povo é sempre tapeado para consumir "cobiças menores". Os grandes, é claro, sempre embolsam seus polpudos lucros. Quem vai nos ensinar que tudo isso é tapeação do nosso mais profundo e legítimo desejo, transformado em ilegítima cobiça que não leva a nada, a não ser voltar vazios e desesperados ao terno desejo de ser e viver, em vez de ter e consumir máscaras vazias?

 XI. UMA LEITURA DIFERENTE

Há muitos modos de se ler um texto, e cada modo leva a descobrir novos significados. Os antigos cultivavam uma técnica literária chamada quiasmo, que consiste em construir o texto a partir de um núcleo central. Ao redor desse núcleo ou idéia central monta-se o resto, usando a técnica do paralelismo, de modo a conseguir diversas correspondência em paralelo. No fim o texto o texto se parece com uma cebola, onde as várias capas ou folhas envolvem o centro, preparando e tirando as conseqüências do tema central. Visto numa estrutura concêntrica ou quiástica o Decálogo ficaria assim: 

1. Servir ao Deus Libertador

   (Ex 20,2-6; Dt 5,6-10)

2. Não Manipular o Nome de Deus

      Ex 20,7; Dt 5,11

3. Trabalhar e descansar

         Ex 20,8-11; Dt 5,12-15

4. Honrar a própria família

            Ex 20,12; Dt 5,16

5. Lutar contra a Morte pela Vida

               Ex 20,13; Dt 5,17

6. Não adulterar a família do    próximo

            Ex 20,14; Dt 5,18

7. Não roubar o trabalho e o descanso

         Ex 20,15; Dt 5,19 

8. Não difamar o nome do próximo

      Ex 20,16; Dt 5,20

9. Não cobiçar os bens do próximo

   Ex 20,17; Dt 5,21

V I D A                          X          MORTE

caminho da vida             caminho da morte

 1 - 2 - 3 - 4   >      5         < 6 - 7 - 8 - 9

 Vemos logo que o quinto mandamento - “Não matarás” - é o centro do Decálogo. Aí se encontra ao mesmo tempo o problema central que está por trás de todos os nossos problemas pessoais e sociais: lutar contra a Morte, para preservar a Vida. Os diversos momentos dessa luta fundamental são apresentados nos outros mandamentos. Estes se correspondem dois a dois , aos pares: o 4º com o 6º, o 3º com o 7º, o 2º com o 8º, e o 1º com o 9º. Basta olhar para o gráfico e começaremos a descobrir várias coisas. Por exemplo: nunca se viola um mandamento só, porque um sempre implica o outro. Também se percebe que todo o conjunto é fortemente amarrado, de modo que o desrespeito a um mandamento compromete logo todos os outros. A observação de todos leva à Vida. A violação de um só deles desmonta o conjunto inteiro, e acaba sempre comprometendo a Vida e produzindo algum tipo de morte.

 É interessante agora ter em mente este gráfico e reler os textos bíblicos do Decálogo e os comentários que já foram feitos. Vamos dar um passo à frente.

 HONRAR A DEUS E AO PRÓXIMO

Segundo e oitavo mandamentos se correspondem. Se o segundo proíbe desonrar ou manipular o nome de Deus para servir aos nossos caprichos egoístas, o oitavo nos proíbe fazer o mesmo com o nome do próximo. As duas coisas estão intimamente unidas: quem não respeita a Deus é claro que também não respeita o próximo.

 Desonramos a Deus quando usamos o seu nome para nossos interesses egoístas, contrários ao seu projeto, que é liberdade e vida para todos. É claro que todos nós desejamos liberdade e vida. Contudo, sempre que este desejo se restringe só para nós mesmos, não temos o direito de dizer que estamos servindo a Deus, e muito menos dizer que estamos com ele, ou que ele está conosco. Podem ser projetos pessoais, ou sociais, econômicos, políticos e ideológicos. No projeto de Deus não há cercas nem fronteiras. Se colocarmos cercas ou fronteiras (familiares, de classe, de nação, raça ou religião) em nossos projetos, já não podemos dizer que o nosso projeto coincide com o projeto de Deus.

 Antigamente, e ainda hoje, o nome de Deus era usado nos tribunais, onde se joga com a honra do próximo. Fora dos tribunais também. Contudo, de modo algum temos o direito de manipular o nome do próximo em proveito dos nossos interesses. Muito menos  ainda servindo-nos do nome de Deus. É claro que, quando isso acontece apenas querendo salvar nossa própria pele, ainda que para isso tenhamos que sujar o nome de Deus e o nome do próximo. Ora, se não estamos contentes com o que somos, para que querer diminuir Deus e o próximo às nossas proporções? Não seria melhor nós mesmos nos transformarmos e crescer, em vez de querer que o mundo se reduza ao tamanho do nosso quintal e de nossas mesquinhas proporções?

 OU DEUS OU OS ÍDOLOS

O primeiro mandamento corresponde ao nono. O primeiro nos convida a servir exclusivamente ao misterioso Deus vivo, que liberta as pessoas da escravidão e da morte, para levá-las todas à liberdade e à vida. O nono proíbe a cobiça, que é a mãe de todos os ídolos, falsos deuses que, em nome da liberdade e da vida para mim, fabrica a escravidão e a morte para todos. 

O Deus verdadeiro liberta a pessoa para ela ser o que ela é e ter o necessário para viver, sem prejuízo de ninguém, ou melhor, para a alegria de todos. Liberdade é esse mistério de podermos descobrir o que somos e passar a ser aquilo que Deus projetou para sermos, repartindo o nosso ser com todos  os outros. Vida é outro mistério: descobrirmos que temos o direito de viver e ter o necessário para viver dignamente, repartindo tudo o que existe e o que temos com todos outros. Partilha do ser e do ter, com todos. Isso é o que Deus quer, porque isso é também o que ele próprio é. Criados à sua imagem e semelhança, só nos realizaremos sendo como ele é. 

A cobiça, porém, solapa o projeto de Deus. Nossa fome de liberdade, em vez de se descobrir e se realizar, começa a ir pelo caminho torto de fazer planos para roubar o que os outros são ou seriam. Pensamos que assim seremos mais. Grande engano. E a nossa fome de vida? Em vez de repartirmos o que temos, começamos a querer ter mais, insaciavelmente, roubando o que os outros têm. Pensamos assim satisfazer nossa fome de vida. Outro grande engano. 

Nossa cobiça cria ídolos, e eles são o contrário de Deus, e justamente o contrário do que queríamos. Em vez de liberdade, teremos escravidão, para nós e para os outros. Em vez de vida teremos morte para todos, e em todos os sentidos!

 O CAMINHO DA VIDA

Os mandamentos foram fruto da luta que o povo de Deus fez contra a escravidão e a morte, para conquistar a liberdade e a vida. Nessa luta Deus se aliou ao povo e o chefiou, pois o Deus verdadeiro é a própria fonte da liberdade e da vida, e quer que todos usufruam delas.

 Vitorioso na luta liderada pelo próprio Deus, o povo conquistou a liberdade e a vida. Restava agora criar uma sociedade nova, onde a conquista não fosse jogada fora e as coisas simplesmente voltassem a ser como antes. Para que isso não acontecesse surgiram os mandamentos, as palavras sagradas. Elas são o dom feito por Deus através do discernimento do povo que se dispôs a construir a sociedade e a história conforme o projeto divino.

 O centro do projeto é a VIDA. Para que todos a tenham é preciso observar todos e cada um dos mandamentos. Primeiro servir ao Deus verdadeiro, misterioso e irrepresentável em formas ou conceitos. E também não manipular o seu nome a serviço do egoísmo pessoal ou social. Depois construir o mundo humano com trabalho e descanso, com esforço e suor, mas também com arte e beleza. E no meio disso tudo, respeitar e continuar a luta que os nossos pais começaram; luta da qual  nascemos, crescemos e somos. Qual luta? A luta da Vida, em todos os sentidos, contra a Morte, em todos os sentidos.

 Deus projetou a Vida e quer que todos nós estejamos sempre a caminho dela. Esse caminho precisa ser procurado, descoberto, construído e trilhado por todos e cada um. É em nossa vida pessoal e social que vamos construindo o caminho da Vida. Mas, para onde vai ele? Para Deus, fonte e fim, começo e plenitude, inspiração e realização do mistério da Vida. Ele que é a própria Vida!

 O CAMINHO DA MORTE

Se do primeiro ao quinto mandamento temos o caminho da Vida, na direção inversa temos, do nono ao quinto mandamento, o caminho da Morte. Foi contra esse projeto de Morte que o povo de Deus lutou. E pode ser que nós, pessoal ou socialmente, estejamos envolvidos nesse projeto de Morte. Pode ser que nem percebamos, mas é certo que sofremos inevitavelmente suas conseqüências.

 O caminho da Morte começa com a cobiça. Quando começamos a cobiçar (= fazer planos para tomar para si) o que os outros são e têm, já estamos fabricando ídolos, falsos absolutos que, colocados no lugar de Deus, passam a construir o caminho da escravidão e da morte. Dado esse passo inicial, o restante é mera  conseqüência. Se nossa avidez é o  mais importante, para que respeitar a pessoa ou a honra do próximo? Se o mais importante é sermos e termos mais, por que não roubar, sempre com muita elegância, o que o próximo é ou possui? E se o mais importante é eu mesmo e a minha família, por que respeitar a família do próximo - sua mulher, seu marido, seus filhos e filhas? E para que lutar pela Vida, quando o lucro, o sucesso e o prestígio estão do lado dos que fabricam a Morte?

 Quando entendemos mal e colocamos mal a nossa ânsia de liberdade e vida, acabamos invertendo tudo. Primeiro usurpamos o lugar de Deus e, a seguir, ninguém mais pode nos segurar. Queremos engolir os outros e o mundo inteiro para saciar essa fome divina e infinita que, mal entendida e mal direcionada, transforma-se em apetite devorador. Não nos assustemos se no fim descobrirmos que estamos escravizados e condenados à morte. Nós, que queríamos tanto. Às vezes o arrependimento chega tarde demais...

 SÓ DOIS MANDAMENTOS

Os mandamentos também são temas do Novo Testamento. Nos três primeiros evangelhos sempre alguém pergunta a Jesus sobre isso. A forma mais interessante aparece em Lucas 10,25-28. Um especialista em leis (e, portanto, sobre os mandamentos) pergunta a Jesus o que deve fazer para ter a vida eterna, que é a vida que Deus promete. Jesus faz o próprio homem responder: "Ame o Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com toda a sua força e com toda a sua mente; e ao próximo como a si mesmo!" E Jesus aprova a resposta: "Você respondeu certo. Faça isso, e viverá!"

 Vemos logo que o Evangelho dá  um passo à frente dos Dez Mandamentos(ou nove, ou onze, ou doze). Jesus sintetiza a vontade do Pai em apenas dois mandamentos: amar a Deus com total devotamento (coração, alma, força e mente) e ao próximo como a si mesmo. Aí está a essência do comportamento que leva à vida verdadeira e plenamente humana, a vida do reino que Deus projetou para nós.

 O amor a Deus é a mística do Reino. Esse amor deve estar por trás e penetrar tudo o que fazemos, desde a mamadeira para o bebê que acorda à noite chorando, até a luta pela justiça que nos faz gritar nas manifestações de rua. Devemos fazer tudo com a mística do amor a Deus, porque Deus é vida, projeta a vida, e obedecer a ele é obedecer à vida, para que todos tenham Vida.

 E o amor ao próximo é a ética do Reino. Se amar a Deus é a nossa devoção, o amor ao próximo é a nossa ação, traduzindo visivelmente aquela devoção ao invisível mistério da Vida. E o critério é muito fácil: como a si mesmo. Podemos não saber o que queremos, mas sabemos muito bem o que não queremos. É só agir assim com o próximo...

 SEGUIR A JESUS

Certo homem queria ter a vida eterna e perguntou a Jesus o que devia fazer. Jesus lhe disse para observar os mandamentos. O homem respondeu que já observava os mandamentos desde a juventude. Jesus percebeu que aquele homem queria dar um passo além dos mandamentos, e olhou com amor. Então lhe disse: "Falta só uma coisa para você fazer: vá, vende tudo, dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha e siga-me!" (leia Marcos 10,17-31).

 Esse trecho do evangelho nos mostra que o caminho de Jesus está além dos mandamentos. Depois de observar tudo o que Deus pedia na antiga aliança, o Evangelho pede para aqueles que querem dar um passo a mais: desfazer-se de tudo o que têm, distribuir aos pobres, e depois seguir a Jesus.

 Seguimento exigente esse. Desfazer-se de tudo implica deixar para trás tudo aquilo a que damos importância, e com razão, pois em geral são coisas duramente conquistadas: propriedades, dinheiro, boa-fama, privilégios, idéias... Balancete total, venda e, em vez de aplicar em algo mais rendoso, distribuir às pessoas necessitadas, que nada têm. E então, e só então, estaremos prontos para seguir o caminho de Jesus.

 É duro isso? É. O homem que fez a pergunta a Jesus era "muito rico", e Marcos diz que ele "ficou abatido e foi embora cheio de tristeza" (Mc 10,22). É duro, porque em geral queremos o novo sem deixar o velho. A novidade de Jesus é tão radical que exige deixar tudo para poder seguir a Jesus. Todos nós queremos isso, e esse desejo, de vez em quando sentido, vem lá do fundo de nós mesmos. Mas, será que teremos coragem de nos desfazer de tudo, dar o dinheiro aos pobres, e depois seguir a Jesus?

 O MANDAMENTO NOVO

Os três primeiros evangelhos mandam amar a Deus de modo total e exclusivo, e ao próximo como a si mesmo (Mt 22,34-40; Mc 12,28-34; Lc 10,25-28). O evangelho de João dá um passo à frente. Diante da morte que se aproxima, Jesus diz aos discípulos: "Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem amar uns aos outros. Se vocês tiverem amor uns para com os outros, todos reconhecerão que vocês são meus discípulos" (Jo 13,34-35).

 Agora a ordem é amar como Jesus amou. Como judeu fiel à Bíblia, Jesus seguiu os mandamentos e amou a Deus com total devotamento, e ao próximo como a si mesmo. Viveu cumprindo o projeto do Pai, e sua vida foi em todos os sentidos amor pelo próximo como a si mesmo, testemunhando sua entrega total a Deus. Mas Jesus não ficou aí. Mais à frente ele diz que "não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos" (Jo 15,13). E foi isso que Jesus fez: entregou sua vida para dar Vida aos seus amigos. Quem são os amigos dele? Jesus explica: "Vocês são meus amigos, se fizerem o que eu estou mandando" (Jo 15,14).

 Compreendemos então que o Evangelho pede o amor sem limites, ou seja, amar como Jesus amou. Para além de qualquer romantismo, amar é dar a própria vida. É dar-se em cada pensamento, palavra e gesto. O amor tem como regra Deus e Jesus. Deus deu tudo o que criou. Depois deu o seu Filho, que era tudo o que tinha. Jesus deu-se em cada pensamento, palavra e gesto. E quando tudo já estava entregue deu-se a si mesmo. sua vida foi o supremo dom e testemunho. Amar é dar-se sem limites. O limite é a Vida sem limites. Puro dom, que cresce quando morre para si mesma, entregando-se para que outros tenham vida!

 O MISTÉRIO DO AMOR

Na sua primeira carta, João contempla o supremo mistério.  Ele diz: "Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama , nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor" (1Jo 4,7-8).

 Deus é amor. Nunca se disse algo mais belo de Deus, nem coisa mais profunda do amor. João diz muito e explica pouco. A que amor ele se refere? A todos. Desde o amor que une homem e mulher no êxtase criador que gera vida nova, até o amor paterno e materno, o amor filial, o amor entre amigos, o amor pelos inimigos, pelos animais, plantas, pedras, até o amor universal, abraçando toda a criação no gesto amoroso que nasce de Deus, passa através de nós, e continua infinitamente.

 Amar é o modo de Deus ser. É também o nosso mais profundo desejo e modo de ser. Estranho? Não, pois somos "imagem e semelhança de Deus" (Gn 1,26-27). Por amor Deus criou tudo. Nós também criamos. Por amor Deus liberta para dar vida nova. Também nós, quando amamos, fazemos o mesmo. Deus vai até o limite: dá tudo o que tem. Pois também somos assim: quando amamos de fato, somos capazes de dar tudo o que temos e somos. Jesus fez isso e pediu que fizéssemos o mesmo.

 Amar é prazer infinito. Só não sabe disso quem nunca amou. Quando descobrimos esse mistério, vemos que Deus não é o Pai egoísta e severo que só manda e castiga. Pelo contrário. Deus só manda fazer o que é prazer para  nós. E jamais castiga. Somos nós que castigamos quando traímos o amor. Amor só quer liberdade e vida para todos. Esse é o projeto de Deus. Se amamos de verdade, também iremos querer liberdade e vida para todos. Então realmente estaremos sendo "imagem e semelhança" de Deus!

 O POVO É SÁBIO

O povo, principalmente o povo simples e analfabeto, sofre grande complexo de inferioridade. Olhando os poucos que tiveram a chance de freqüentar a escola e a  universidade, o povo simples fica temeroso, pois pensa que não sabe nada.

 A Bíblia inverte esse modo de pensar. Uma série de livros do Antigo Testamento, chamados de livros sapienciais (Jó, Salmos, Provérbios, Cântico dos Cânticos, Eclesiástico), mostram que sabedoria não é a erudição aprendida nos livros e nas escolas, e sim o discernimento que se conquista através da experiência concreta da vida no dia-a-dia, com todos os seus grandes e pequenos problemas. A vida é a escola do povo, e nela o povo aprende a viver e a se orientar, desatando o nó dos problemas e abrindo caminho para construir a história e a vida.

 O povo é sábio e expressa o seu discernimento de modo simples, poético, intuitivo e profundo. o Livro dos Provérbios testemunha isso. Nele encontramos centenas de frases curtas e incisivas, que mostram a sabedoria do povo descobrindo a realidade da vida e abrindo caminhos para viver melhor e se realizar. E o mais importante é que esses simples provérbios são revelação de Deus. Deus fala através da boca do povo, confirmando que "a voz do povo é a voz de Deus!"

 XIII. CONHECENDO O AUTOR

Pe. Ivo Storniolo nasceu em Ibitinga (SP), em 1944. É Mestre em Sagrada Escritura pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Foi coordenador da tradução, revisor exegético e um dos tradutores de "A Bíblia de Jerusalém" em língua portuguesa.  Foi professor de Bíblia na Faculdade N. S. da Assunção, no ITESP e no ITCR da PUC-Campinas. Por vários anos redigiu os Roteiros Homiléticos da Revista Vida Pastoral, na qual colabora como membro da Equipe de redação há mais de 20 anos.

 É coordenador da coleção "Amor e Psique", publicada pela Paulus. Publicou, na mesma editora, entre outros, “As Tentações de Jesus" e em parceria, "Salmos e Cânticos, a oração do povo de Deus", "Conheça a Bíblia", "Salmos, a oração do povo que luta", além de vários volumes da coleção "Como ler a Bíblia". Faz parte da equipe dos tradutores-redatores da "Bíblia Sagrada - Edição Pastoral".

 Durante o ano de 1989 escreveu uma seqüência de artigos no folheto litúrgico- catequético  O DOMINGO. O tema desses artigos foi MANDAMENTOS, HOJE. 

 Na Revista Vida Pastoral nº 149, de l989 - pp. 27-29, encontra-se uma Entrevista com Pe. Ivo Storniolo sobre o artigo: "Mandamentos, Hoje".  

Trechos da entrevista com Ivo Storniolo, publicada na Vida Pastoral 149 (novembro/dezembro de 1989), pp. 27-29, sob o título “Mandamentos, ontem e hoje”  

“Ao começar a tarefa, deparei-me com a questão da metodologia: como iria abordar esse tema tão importante? De um lado eu sabia que o povo cristão já conhecia os mandamentos pelo catecismo. De outro, sabia também que muitos ignoravam o texto bíblico. Decidi então tratar o assunto comparando o texto dos mandamentos segundo o catecismo com a versão dos mandamentos segundo a Bíblia. Pronto. Para muitos, pareceu que eu estava criticando o catecismo, e até querendo “jogar o catecismo no lixo”. Não foi isso que pretendi”.  

(...) “Mas não bastava conhecer o texto bíblico. Os mandamentos não caíram do céu, como um presente aleatório de Deus. Presente a gente dá na hora certa, para comemorar algum grande acontecimento. Os mandamentos apareceram na hora certa, para coroar a grande luta que o povo de Deus fez para conquistar uma nova forma de viver, superando um sistema de sociedade que explorava e oprimia as pessoas. Os mandamentos eram a grande carta para construir uma nova forma de vida, a fim de que todos pudessem viver de forma digna, com igualdade fundamental, preservada pela justiça, que cria fraternidade e partilha. E aqui veio uma segunda incompreensão. As pessoas não estão muito acostumadas a pensar que os textos bíblicos têm raízes. Pensam que tudo caiu do céu, sem porquê nem para quê. A tarefa que o povo de Deus fez naquele tempo deve se repetir com os mandamentos. Enquanto não fazemos a mesma luta, os mandamentos ficam sendo apenas provocação para aquela luta fundamental entre a Vida e a Morte, que se repete a cada dia na vida do povo”.  

“E aí vem um outro ponto que, creio, foi difícil de aceitar para muitos. Os mandamentos provocam. Se não vivemos numa sociedade igualitária, fundada na justiça, os mandamento se tornam provocadores, inquietantes, e não nos deixam dormir “como anjos”.  

(...) “Enquanto introduzi e comentei os cinco primeiros mandamentos não houve reação (...). Do sexto mandamento para a frente a reação foi imediata. A cada mandamento uma classe determinada de pessoas se manifestou. Coisa engraçada. Meu comentário sobre o sexto mandamento afetou principalmente pessoas de Igreja. Quando expliquei que o texto bíblico falava de adultério e não de castidade recebi muita cartas perguntando: fora o adultério, a gente pode fazer tudo? Tudo o quê? Sabe lá Deus. Já prevendo isso, escrevi sobre a sexualidade, explicando bem que ela é função geradora de vida (...) Houve uma chuva de protestos (...) Aí escrevi sobre a castidade e, em boa ou má hora, achei de citar, juntos, Fernando Pessoa e Santo Agostinho. O primeiro dizendo que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, e o outro: “ame e faça o que você quiser”. Foi a conta. Acharam que eu estava dizendo que pode tudo. Tudo o quê? Sei lá o que anda pela cabeça das pessoas, mas percebi que cada um lê o que quer, e não o que está escrito. A essas pessoas pergunto eu: Será que as pessoas com alma grande e que amam farão qualquer coisa? Para mim, alma é a interioridade de onde nasce o amor, faculdade que tem um discernimento superior para decidir o que fazer a cada momento, de forma muito mais perfeita do que qualquer lei ou regra. Mas a incompreensão foi grande. Será que essas pessoas perderam a alma, nunca a tiveram, ou nunca amaram?”  

(...) Quando escrevi sobre o sétimo mandamento a incompreensão começou [através dos grandes meios de comunicação]. Primeiro porque eu disse que “lucro é roubo puro”. Comecei a receber cartas de empresários, reclamando que o que eu dizia era generalização, que eles agora achavam duro ir à Igreja etc. Ora, nem direta nem indiretamente pretendi criticar pessoas. Pretendi fazer uma crítica estrutural ao sistema econômico em que vivemos. Um empresário entendeu isso muito bem, e me perguntou por escrito: “Como posso ser justo dentro de um sistema injusto?” Simplesmente não pode. Dentro de um sistema injusto, o máximo que se pode ser é honesto para com o sistema, e injusto para com as pessoas. Dentro dele todos nós nos tornamos, em grau maior ou menor, conivente com a injustiça, que é exatamente o contrário do projeto de Deus”.  

(...) Muita gente ficou irritada quando dei aquele exemplo (real) da prostituta que protege trombadinhas da polícia e depois os abençoa. Certa pessoa ficou chateadíssima e me escreveu, sem assinar: “Pronto. Agora as prostitutas viraram professoras de moral”. Pois é. Jesus dizia que as prostitutas vão nos preceder no Reino (Mt 21,31). E tem o caso daquela adúltera que, apesar de ser pega em flagrante, estava sozinha para ser linchada, e linchamento previsto por lei. E o adúltero, cadê ele? Esse nunca foi pego. O adúltero somos todos nós, hipócritas consumados, que temos a coragem de fazer Deus assinar as injustiças que cometemos. Jesus não deixou a coisa por menos, e até hoje ele continua a rabiscar no chão, desprezando nossas farisaicas questiúnculas... (leia Jo 8,1-11).  

“A celeuma, porém, aumentou quando escrevi que “Deus abençoa e legitima o roubo feito pelo pobre”. Pois é. Quando o pobre tem que roubar para comer, a coisa chegou às raias do desespero, e só quem passou por isso é capaz de compreender e compadecer-se (= sofrer junto), deplorando todo esse sistema social que nega os bens da vida a quem suou por ela. São Gregório Magno dizia que “quando damos aos indigentes algo de que necessitam, estamos lhes devolvendo o que lhes pertence e não estamos lhes dando o que é nosso. Estamos antes pagando uma dívida de justiça do que realizando uma obra de misericórdia” (ML 77,87). Nossa esmola é devolução, pagamento de dívida. E São João Crisóstomo diz que “o ladrão pobre nunca furta. Só retoma o que é seu”.  

(...) “Acho que há coisas muito graves [por trás dessas críticas]. Primeiro as pessoas em geral não lêem o que está escrito, e sim o que lhes convém e não abala o modo de viver em que se acomodaram. Quando algo lhes incomoda, elas tentam a todo custo dar um jeito. Todos nós temos a nossa fronteira de ego: quem está dentro dela é nosso amigo, pensa e vive como nós. Os que pensam e vivem de forma diferente são inimigos e devem ficar fora da fronteira. Não é a melhor solução, mas é a mais cômoda. Também temos a questão do nosso quadro de referências. Ele é uma espécie de superestrutura, formada lentamente pela educação familiar, escolar, social e pelos meios de comunicação, todos eles refletindo a consciência coletiva de um determinado tempo e de suas condições. Quando chega um fato novo, ele imediatamente se choca com o quadro de referência, e aí vem a questão. Ou o fato novo encontra um lugar ou não. É uma questão vital, porque o quadro de referência dirige nossa vida toda, nossa visão e ação no mundo. Quando o fato novo não se encaixa no quadro, tendemos ou a rejeitar o fato ou a mudar o quadro de referência. Mudar não é fácil. É conversão”.  

(...) “A compreensão dos mandamentos é extremamente chocante para nós que não vivemos numa sociedade igualitária. Aí eles se tornam provocadores, e acabamos descobrindo que temos medo da fraternidade, da justiça, da partilha, enfim, de sermos humanos como Deus quer, isto é, à imagem e semelhança dele próprio (Gn 1,26-27)”.  

“Acho que isso explica um pouco as reações. Mas devo dizer também que recebi muitos elogios e muito apoio. Muita gente simples não escreve nem carta e nem em jornal, mas fala. E eu descubro então que há muita gente aberta para Deus e para o seu projeto. A certeza de compreensão de milhões de pessoas me encoraja a caminhar para a frente, sem desanimar com os obstáculos. Afinal, se Deus não desiste de acreditar em nós, apesar de tudo, por que é que nós vamos desistir?”.

 

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