Resenha do livro Mesters, Carlos. O Profeta Jeremias: Boca de Deus, boca do povo. São Paulo: Paulinas, 1992.

Este livro do Frei Carlos Mesters, OCarm., está inserido dentro de seu esforço por aproximar a Bíblia do nosso povo e o povo da Bíblia. O autor nasceu na Holanda, mas há muitos anos vive no Brasil, totalmente integrado com a nossa mentalidade e o nosso estilo. Formou-se em Teologia e Ciências Bíblicas em Roma e na Escola Bíblica de Jerusalém. Sua extraordinária capacidade de interpretar e de transmitir a mensagem bíblica numa linguagem simples e transparente o tem levado a falar e a escrever tanto para professores universitários quanto para estudantes e para humildes agricultores.

 

Esta sua breve introdução à leitura do livro do profeta Jeremias foi escrita para poder ajudar no aprofundamento do tema da Campanha da Fraternidade de 1992, dedicada à juventude. Contudo, continua sendo uma ferramenta muito valiosa na formação bíblica dos homens e mulheres de hoje, especialmente os jovens. Por isso, o objetivo do livro será “falar da vida de Jeremias de tal maneia que sirva de espelho para nós e nos ensine como ser profetas hoje”, e de modo especial, “como ser fiel a Deus e aos pobres”.

 

O autor não procurou fazer uma análise exegética do atual livro do profeta Jeremias, nas suas várias etapas de redação, mas procurou, a partir de algumas indicações do próprio livro e de outras contribuições das ciências, reconstruir a vida do profeta. Por isso, “a pessoa de Jeremias vai ser a chave de leitura que nos fará entender melhor os seus escritos e ler com mais gosto”.

 

Apesar das incertezas quanto às datas, o autor julgou importante apresentar a pessoa de Jeremias seguindo os vários períodos de sua vida, desde o nascimento até a sua morte. Para cada período de sua vida haverá um capítulo. Serão seis capítulos no total, mais um adjutório. Em cada período, procura-se saber qual era a situação do povo naquele tempo, como eram o ambiente e a fé da comunidade, “como tudo isso repercutia na vida de Jeremias e como ele reagia”. Desse modo, fique claro: “o livro de Jeremias não foi escrito para ensinar datas, mas sim para transmitir uma mensagem, para servir de espelho e para ensinar como ser profeta”.

 

O primeiro capítulo compreende o período de aproximadamente 645 a 627 a.C., isto é, do nascimento até os 18 anos da vida de Jeremias. Neste primeiro período de sua vida, Jeremias vive o final do trágico reinado de Manassés, o reinado de Amon e os primeiros anos do reinado do jovem Josias. Um período marcado pelo forte tributo imposto pela Assíria, principal potência de então, que chegava a ficar com 1/3 de toda a produção do povo. A vocação de Jeremias nasce nesse ambiente, fortemente marcado pela “estupidez das decisões dos governantes que buscavam apoio no Egito ou na Assíria, a corrupção das lideranças e dos grandes, a manipulação da religião, a absoluta falta de percepção do problema real”. Jeremias tinha em torno de dezoito anos quando, em 627, recebeu sua vocação. “Foi lá mesmo em Anatot, no seu ambiente de vida e de trabalho, que iniciou sua atividade como profeta. Era o 13o. ano do governo do jovem rei Josias”. O relato de sua vocação é expresso de maneira magnífica em Jr 1,4-10.

 

O segundo capítulo compreende o período de 627 a 609 a.C., ou seja, durante a reforma do rei Josias; portanto, apresenta a atuação do profeta dos 18 aos 36 anos de idade. Este foi um período marcada por um profundo movimento popular que lutava por reforma e volta à aliança em Javé. Vários são os grupos empenhados nesse projeto: os chamados recabitas, os refugiados, os discípulos de Isaías, os pobres de Javé (anawin). A pregação de Jeremias nesse período se insere dentro desse grande movimento popular. O rei Josias também vai se empenhar em levar a cabo uma reforma. Para isso, se vale da proposta dos refugiados, a partir do chamado “livro da lei”, encontrado no templo durante as reformas. “Jeremias via com bons olhos o esforço pessoal do rei” nesse seu projeto, mas, mesmo assim, “não chegou a ser um ardoroso defensor da reforma oficial”. Alguns pontos, como a centralização do culto em Jerusalém e a oferenda de sacrifícios e holocaustos no Templo, fizeram com que o nosso profeta não assumisse a “reforma oficial”. Nesse primeiro período de sua atividade (627-609) “Jeremias não apresenta uma proposta política alternativa, mas tenta reformar a monarquia de acordo com as exigências da aliança”, a qual depende da “fidelidade às exigências da justiça e do direito”.

 

O terceiro capítulo cobre o período de 609 a 597 a.C., durante o governo do rei Joaquim; portanto, apresenta a vida de Jeremias dos 36 aos 48 anos. Este foi um período de grande sofrimento para a vida do profeta Jeremias. Um sofrimento que era resultado da sua identificação com o povo. “Sofria ao ver o povo sofrendo. Sofria porque lutava para mudar e não conseguia”. Com efeito, com o assassinato do rei Josias pelo faraó Necao, e a tomada de posse de Joaquim – servo do faraó – todo o movimento de reforma “voltou à estaca zero!” “Agora ficou mais difícil e mais perigoso ser profeta”. O autor indica alguns conflitos que o profeta teve com o Templo, com o rei e com o próprio povo. Jeremias “denunciava o que estava errado e apontava os responsáveis”; “apontava as instituições que estavam sendo manipuladas”; “indicava os crimes todos”; “fazia análise da realidade, criticando o sistema dos ídolos e a sua total falta de bom senso na vida do povo”; “denunciava os países invasores”; “interpretava os fenômenos da natureza como apelo de Deus à consciência do povo”; chamava o rei e o povo à conversão; “ameaçava com o anúncio do castigo da destruição”; revelava um novo rosto de Deus, diferente do oficial, a saber: “Javé nossa justiça”.

 

O quarto capítulo compreende o período de 597 a 588 a.C., durante o governo do rei Sedecias; portanto, corresponde à atividade de Jeremias dos 48 aos 57 anos de idade. Os 11 anos do governo de Sedecias (597-586) foram anos difíceis para Jeremias. “O rei já não governava de fato, nem era capaz de tomar posição. Já não havia autoridade central. A cidade de Jerusalém estava entregue à politicagem”. Diante de tudo isso, Jeremias fez a sua hermenêutica dos fatos e procurou da uma opinião “para orientar o povo”. Dois foram os principais posicionamentos de Jeremias, os quais foram motivos de muitos conflitos. O primeiro diz respeito à dominação da Babilônia. Diante da crescente força de tal império, nosso profeta percebeu que “resistir contra a Babilônia seria suicídio”. Não que ele pregasse a submissão ao poder estrangeiro (como ao longo da história se inferiu!). Jeremias não estava preocupado com isso e sim com a vida do povo. Assim, dentro daquela situação histórica situada, o único modo de garantir a vida do povo “era entregar-se à Nabucodonosor; resistir contra ele era o caminho da morte”. O segundo grande posicionamento está em sintonia com o primeiro. Para Jeremias, a dominação Babilônica não era um simples acidente de percurso, mas “vontade de Deus”. Mesters quer dizer que o exílio serviu para que o povo fizesse uma avaliação da sua fidelidade à aliança, sobretudo sobre o papel da monarquia. Por isso, Jeremias “relativizou o rei e o templo do rei (...). No futuro pode ter rei e pode não ter. Tanto faz! O rei e o templo perderam sua importância para a realização do projeto de Deus. O que importava já não era o rei nem o templo do rei, mas sim a aliança e a prática da justiça”.

 

O capítulo quinto compreende o período de dezembro de 588 a julho de 586 a.C., durante o cerco de Jerusalém; portanto, corresponde à atividade de Jeremias dos 57 aos 58 anos. Segundo Mesters, neste período temos dois grande movimentos teológicos. Um que aponta para a “derrota da ideologia dominante” e outro que se torna “semente de esperança”. Os dois muito interligados! O cerco de Jerusalém foi um golpe duro na vida do povo. “Até aquele momento, tinham vivido da certeza: ‘Deus está conosco!’ (...) E agora, tudo (...) estava destruído: a terra, o templo, o culto, o rei, a cidade, tudo!”. As promessas da posse da terra, da habitação de Deus no Templo e sobretudo da segurança vinda da dinastia davídica não se realizaram. Nesse contexto, a atuação de Jeremias aparece como anúncio de esperança. “Ele foi um dos que mais contribuíram nessa tarefa de reavaliar a caminhada, de repensar tudo e de redescobrir o caminho por onde avançar para um futuro novo, diferente do tempo dos reis”. Sua pregação contribuiu para reavivar a certeza de que “Javé está com o povo, independentemente do rei, independentemente do templo, independentemente do culto!”

 

O ultimo capítulo compreende a atividade de Jeremias dos 58 anos até a sua morte; portanto, de 587 a aproximadamente 584, período que corresponde ao governo do governador Godolias. Godolias era o governador deixado pelo rei da Babilônia. Era da família de Safã, família amiga de Jeremias. Junto com Godolias, Jeremias tenta reorganizar a vida do povo sem a monarquia e sem o templo real. Tentam, portanto, reinventar o antigo ideal do templo do êxodo e dos juízes. Mas o governo de Godolias durou pouco. Foi assassinado por representantes da velha ordem monárquica – Ismael, que estava refugiado em Amon, na Transjordânia. Estes “queriam o restabelecimento das monarquias locais”. Após a morte de Godolias, Jeremias é levado a contra gosto para o Egito e ali morre. No final deste capítulo, o autor olha para a vida de Jeremias e conclui que ele foi “alguém muito atento à Palavra de Deus”. Também nos apresenta os “traços do rosto de Deus” que se revelam através da vida e do testemunho de Jeremias. Para o nosso profeta, Deus é acima de tudo “o Deus da justiça, o Deus da aliança” (Jr 33,16); por isso, “a prática da justiça é a exigência básica que percorre o livro de Jeremias do começo ao fim”. Deus é também apresentado como “ternura, amor, bondade”(Jr 31,3); Deus é, para Jeremias, “sua força, sua fortaleza, seu refúgio” (Jr 16,19); é o Deus “companheiro fiel, cuja presença nunca falha” – o Deus-conosco e também o Deus-comigo! (Jr 20,11).E ainda, identifica a figura do servo sofredor, encontrada no livro de Isaías (Is 40-55), com o profeta Jeremias. Na vida de Jeremias, “homem tão sofrido e solitário, o povo pobre, lutador e sofredor, reencontrava algo de si, do seu ideal. Jeremias, lutando e sofrendo, passou pelo mesmo caminho por onde o povo passava (...). É da experiência de vida deste homem e de outros que viveram como ele que nasceu a figura do servo de Javé, amostra e modelo do futuro do povo. Boca de Deus, boca do povo!”

 

No adjutório, além de apresentar um plano para continuar o estudo do livro do profeta Jeremias, o autor apresenta uma breve história da formação do livro. Partes do livro teriam sido escritas pelo próprio Jeremias; além do profeta, o livro recebeu contribuições dos seus discípulos que conservaram, transmitiram e atualizam sua mensagem. É difícil, porém, precisar como foi o processo exato da formação do livro. “Uma coisa é certa: os redatores não tiveram critério biográfico (...). Os redatores tinham uma preocupação catequética e pastoral. Isto é, apresentar os oráculos do passado como espelho do presente; queriam que o livro continuasse como palavra viva do profeta e ajudasse o povo a descobrir a Palavra de Deus na vida”. Por isso temos a seguinte organização do livro: oráculos de denúncia (Jr 1 a 25); oráculos de esperança (Jr 26 a 35); parte biográfica (Jr 36 a 45); Oráculos contra as Nações (Jr 46 a 51); no capítulo 52 temos um apêndice que trata da tomada de Jerusalém.

 

Este texto, como já foi dito no começo, foi escrito com a intenção de falar da vida de Jeremias de tal maneia que sirva de espelho para nós e nos ensine como ser profetas hoje. O autor trabalha esse tema com uma competência extraordinária. E vai além! Coloca-nos diante do grande desafio de ser luz no mundo e de encontrar e apontar os apelos de Deus na vida. A Religião não era para Jeremias um sistema, mas eram homens e mulheres, caminhado animados por uma fé, em direção ao futuro. Na vida de Jeremias transparece a coragem de apontar os apelos de Deus até nos acontecimentos internacionais. Transparece ainda a convicção de que o mundo será aquilo que os homens dele fizeram pela sua liberdade: mostra que não adianta apelar para Deus como para um pretexto que justifique o mal-estar. Esse aspecto concreto da sua missão faz ver que os cristão de hoje precisam estar abertos ao mundo, ao homens e mulheres de hoje, e não enclausurados dentro de suas casas e “sacristias”.

 

Por estar direcionado ao grande público, o autor prescindiu de indicações bibliográficas e se limitou a indicar alguns poucos livros no final. Porém, demonstrou muita competência na apresentação dos vários períodos históricos e as conclusões da exegese sobre o tema, fator pelo qual torna as informações confiáveis e dignas de um maior aprofundamento. Contudo, permanece ainda uma simples introdução, que necessitaria de um maior aprofundamento, como o próprio autor deixa claro no final do livro. Trata-se, enfim, de um texto recomendável, de cuja leitura tirarão proveito todos aqueles interessados em uma abordagem competente sobre a vida do profeta Jeremias.

 

Rodrigo Assis Rosa, OMV

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