Solenidade do Santíssimo Sacramento
do Corpo e do Sangue de Cristo
(Corpus Christi)

 Histórico

A origem da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo remonta ao século XII. A Igreja sentiu necessidade de realçar a presença real do "Cristo todo" no pão consagrado. Esta necessidade se aliava ao desejo do homem medieval de "contemplar" as coisas. Surgiu nesta época o costume de elevar a hóstia depois da consagração. Disseminava-se uma controvertida piedade eucarística, chegando ao ponto das pessoas irem à igreja mais "verem" a hóstia do que para participarem efetivamente da eucaristia.

 A Festa de Corpus Christi foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula ‘Transiturus’ de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Festa da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. O Papa Urbano IV foi o cônego Tiago Pantaleão de Troyes, arcediago do Cabido Diocesano de Liège na Bélgica, que recebeu o segredo das visões da freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico.

 A ‘Fête Dieu’ começou na paróquia de Saint Martin em Liège, em 1230, com autorização do arcediago para procissão eucarística só dentro da igreja, a fim de proclamar a gratidão a Deus pelo benefício da Eucaristia. Em 1247, aconteceu a 1ª procissão eucarística pelas ruas de Liège, já como festa da diocese. Depois se tornou festa nacional na Bélgica. 

A Festa foi oficializada em 1264, quando o Papa Urbano IV deu ordem para que toda a igreja celebrasse e encarregou Santo Tomás de Aquino de compor o ofício litúrgico. Em 1311, o papa Clemente V confirmou a obrigatoriedade para toda a Igreja. 

O Concílio de Trento (1545-1563), por causa dos protestantes, da Reforma de Lutero, dos que negavam a presença real de Cristo na Eucaristia, fortaleceu o decreto da instituição da Festa de Corpus Christi, obrigando o clero a realizar a Procissão Eucarística pelas ruas da cidade, como ação de graças pelo dom supremo da Eucaristia e como manifestação pública da fé na presença real de Cristo na Eucaristia. 

Em 1983, o novo Código de Direito Canônico – cânon 944 – mantém a obrigação de se manifestar ‘o testemunho público de veneração para com a Santíssima Eucaristia’ e ‘onde for possível, haja procissão pelas vias públicas’, mas os bispos escolham a melhor maneira de fazer isso, garantindo a participação do povo e a dignidade da manifestação. 

Conforme a Liturgia renovada, a solenidade que antes levava o título de Corpus Christi (Corpo de Cristo), agora é: Solenidade do Santíssimo Sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo. É celebrada na quinta-feira depois do domingo da Santíssima Trindade, para comemorar solenemente a instituição do Sacramento da Eucaristia. 

Papa Bento XVI

Na homilia pronunciada por ocasião da solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, o Papa Bento XVI ofereceu os seguintes elementos para a compreensão desta solenidade da Igreja: 

Na festa de Corpus Christi, a Igreja revive o mistério da Quinta-Feira Santa à luz da Ressurreição. Na procissão da Quinta-Feira Santa, a Igreja acompanha Jesus ao monte das Oliveiras: a Igreja orante sente um desejo profundo de vigiar com Jesus, de não o deixar sozinho na noite do mundo, na noite da traição, na noite da indiferença de muitos. Na festa de Corpus Christi, retomamos esta procissão, mas na alegria da Ressurreição. 

A procissão da Quinta-Feira Santa acompanhou Jesus na sua solidão, rumo à "via crucis". A procissão de Corpus Christi, ao contrário, responde de maneira simbólica ao mandamento do Ressuscitado: precedo-vos na Galileia. Ide até aos confins do mundo, levai o Evangelho a todas as nações. Sem dúvida, para a fé, a Eucaristia é um mistério de intimidade. Contudo, desta intimidade, que é dom muito pessoal do Senhor, a força do sacramento da Eucaristia vai além das paredes das nossas Igrejas. Neste Sacramento, o Senhor está sempre a caminho no mundo. Este aspecto universal da presença eucarística sobressai na procissão da nossa festa. Nós levamos Cristo, presente na figura do pão, pelas estradas da nossa cidade. Nós confiamos estas estradas, estas casas a nossa vida quotidiana à sua bondade. Que as nossas estradas sejam de Jesus! 

Na procissão de Corpus Christi, acompanhamos o Ressuscitado no seu caminho pelo mundo inteiro como dissemos. E, precisamente fazendo isto, respondemos também ao seu mandamento: "Tomai e comei... Bebei todos" (Mt 26, 26s.). Não se pode "comer" o Ressuscitado, presente na figura do pão, como um simples bocado de pão. Comer este pão é comunicar, é entrar em comunhão com a pessoa do Senhor vivo. Esta comunhão, este acto de "comer", é realmente um encontro entre duas pessoas, é deixar-se penetrar pela vida d'Aquele que é o Senhor, d'Aquele que é o meu Criador e Redentor. A finalidade desta comunhão, deste comer, é a assimilação da minha vida à sua, a minha transformação e conformação com Aquele que é Amor vivo. Por isso, esta comunhão exige a adoração, requer a vontade de seguir Cristo, de seguir Aquele que nos precede. Por isso, a adoração e a procissão fazem parte de um único gesto de comunhão; respondem ao seu mandamento: "Tomai e comei". 

Solenidade do Santíssimo Sacramento
do Corpo e do Sangue de Cristo
(Corpus Christi)

à luz da Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine do Papa João Paulo II

1. A Eucaristia, mistério de Luz

“A Eucaristia é luz antes de tudo porque em cada missa a liturgia da Palavra de Deus precede a liturgia eucarística, na unidade das duas mesas, a da Palavra e a do Pão. (...) Porém, não basta que as passagens bíblicas sejam proclamadas em uma língua compreensível, se a proclamação não ocorre com aquele cuidado, aquela preparação prévia, aquela escuta devota, aquele silêncio meditativo, que são necessários para que a Palavra de Deus toque a vida e a ilumine” (n. 12). 

A Eucaristia ilumina a vida através da meditação bíblica, dos momentos de adoração dedicados à escuta da Palavra de Deus. 

2. A Eucaristia, fonte de Comunhão

 “Em cada santa missa somos chamados a nos comparar com o ideal de comunhão que o livro dos Atos dos Apóstolos traça como modelo de Igreja de sempre. É a Igreja reunida em torno dos Apóstolos, convocada pela Palavra de Deus, capaz de uma partilha que não atinge apenas os bens espirituais, mas mesmo os bens materiais (cf. At 2,42-47; 4, 32-35)” (n. 22).

 A Eucaristia forma comunhão, forma comunidade, onde se partilha a vida, os dons e as necessidades com os irmãos.

 3. A Eucaristia, princípio e projeto de Missão

 “Há ainda um ponto sobre o qual gostaria de chamar a atenção, porque sobre ele recai em grande medida a autenticidade da participação na Eucaristia, celebrada na comunidade: é o impulso que ela traz em si por um empenho eficaz na edificação de uma sociedade mais justa e fraterna. Na Eucaristia, nosso Deus manifestou a forma extrema do amor, derrubando todos os critérios de domínio que regem freqüentemente as relações humanas e afirmando de modo radical o critério do serviço: Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (Mc 9,35). Não por acaso, no evangelho de João não encontramos a narrativa da instituição eucarística, mas a do “lava-pés” (cf. Jo 13,1-20): inclinando-se para lavar os pés de seus discípulos, Jesus explica de modo inequívoco o sentido da Eucaristia. São Paulo, por seu lado, insiste com vigor que não é lícita uma celebração eucarística na qual não refulja a caridade testemunhada pela partilha concreta com os mais pobres (cf. 1Cor 11, 17-22.27-34)” (n. 28)

 A Eucaristia é projeto de solidariedade com toda a humanidade, especialmente aqueles que sofrem injustiças, os pobres e necessitados, aqueles “sem voz e sem vez”.

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