CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
Conselho Episcopal de Pastoral – 9ª Reunião
Brasília - DF, 25 a 27 de maio de 2004

MENSAGEM PASTORAL
“Bem-aventurada aquela que acreditou,
porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu”

(Lc 1,45)

FESTAS JUBILARES MARIANAS

1. A Igreja em festa
Nossa Igreja Católica vive, neste ano de 2004, Ano Mariano, grandes alegrias ao celebrar dois importantes jubileus de sua história. Estes jubileus têm no centro de suas comemorações a pessoa amada de Nossa Senhora, a Mãe de Deus e da Igreja, o auxílio dos cristãos.

Estamos celebrando os 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição de Maria, (08.12.1854), e os 100 anos da coroação da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil (08.09.1904).

O dogma da Imaculada Conceição, isto é, “Maria concebida sem pecado”, é luz que ilumina nossa origem e nosso destino: de onde viemos? Para onde vamos? A condição excelsa de Maria, Imaculada e Santíssima, nos enche da esperança do que a graça de Deus, redentora e salvadora, pode fazer em nós apesar de nossas próprias fraquezas e limitações humanas.

A coroação da imagem de Nossa Senhora Aparecida é testemunho de nosso reconhecimento, terno e filial, de sua presença como Rainha e Padroeira do Brasil. Maria é aquela que nos acompanha, consola e intercede por nós todos, confirmando que “jamais se ouviu dizer que algum daqueles que a ela tenha recorrido, reclamado o seu socorro e implorado a sua assistência, tenha sido por ela desamparado” (São Bernardo).

2. Uma convocação
Estas alegrias e bênçãos jubilares, num clima de festa, nos envolvem todos nós, povo de Deus: bispos, padres, diáconos, religiosos e religiosas, evangelizadores, agentes de pastorais, leigos e leigas.

Esta festa da gratidão deve ser uma abençoada oportunidade de evangelização e crescimento na fé, para que todos tenham a facilidade de beber nas fontes das graças de Deus.

Convocamos todas as dioceses, paróquias e comunidades, associações e movimentos para se empenharem, de modo criativo, na programação de eventos, pastorais e acadêmicos e momentos celebrativos para marcar ainda mais a importância de Maria como mãe e educadora da fé (cf. LG 63) e “Estrela da evangelização”, convidando à santidade os que peregrinam, e mantendo fiéis os setores que carecem de atenção pastoral adequada (cf. DP 284).

3. Maria, protetora e intercessora
Os santos e santas são amigos de Deus e são também nossos amigos, protetores e intercessores. De modo especial temos a proteção e intercessão de Nossa Senhora.

Seu nascimento, na condição de Imaculada, mostra a base profunda de nossa esperança, sempre presente no coração de todo homem e de toda mulher. Temos aqui um traço decisivo da intervenção divina na história da humanidade. Todos sabemos, e ninguém pode contestar, a participação da mulher, em Maria, para a realização e cumprimento da obra de Cristo.

Por isso, o “Sim” dado por Maria, ao anúncio que lhe fora feito pelo Anjo Gabriel, é atitude profunda e completa de fé: fé no “Deus do impossível” (Lc 1,39), garantia e certeza da confiança n'Ele depositada. Esta fé, expressão de intimidade filial, esponsal e maternal, nos dá razões para contar com sua intercessão e proteção.

Justifica-se, pois, o caráter universal da esperança humana, depositada em Maria, sustentado pelo encontro sobrenatural com o Verbo Encarnado. Deste modo, a ela podemos nos dirigir apresentando nossas súplicas e necessidades, e dizendo com toda a Igreja do Brasil, “Queremos ver Jesus – caminho, verdade e vida”, para a realização do seu Projeto Nacional de Evangelização. Maria, como ninguém, é aquela que nos pode mostrar Jesus, o fruto bendito do seu ventre (cf. Lc 1,42).

4. Veneração e culto a Maria no Novo Testamento
No Novo Testamento, estão as bases da veneração e do culto a Maria, sobretudo no Evangelho de São Lucas. Esse culto marial aparece, por exemplo, quando uma mulher, do meio da multidão, ergue a voz para proclamar um elogio à Mãe de Jesus: “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” E Jesus, responde: “Felizes, antes, os que ouvem a palavra de Deus e a observam” (Lc 11,27-28). O louvor pronunciado pela mulher é, com efeito, repetição do louvor proclamado inicialmente por Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!” (Lc 1,42).

Além dessas bases do culto e da veneração a Maria, já no início da vida da Igreja, encontramos no mesmo Evangelho de Lucas uma rica doutrina em perspectivas muito belas.

“Ave Maria, cheia de graça” (Lc 1,28), é a saudação que define a singularidade da alma de Maria, exaltando sua condição de escolhida, sacrário da ação amorosa da graça de Deus no seu ser. Ela é a virgem intacta (Lc 1,27-34), pois que no seu seio puríssimo e virginal foi gerado o Cristo, Salvador do mundo, por obra e graça do Divino Espírito Santo. Sua maternidade divina (Lc 1,31-33), é escolha e fruto da intervenção milagrosa do Pai que a elegeu para ser a Mãe do seu Filho (Lc 1,35b), desposada pelo Espírito Santo (Lc 1,35a).

Maria é a obediente “serva do Senhor” (Lc 1,38), modelo insuperável de discípula, é o exemplo daqueles que crêem (Lc 1,45).

Quando vemos os sofrimentos da humanidade e as lutas de tantos irmãos e irmãs, Maria está presente consolando, pois ela é também a “Mãe das dores” (Lc 2,35b).

A excelência do que a graça de Deus realizou em Maria, cantada por ela no Magnificat, confirma para sempre a verdade de que ela é “a bendita entre todas as mulheres e a proclamada bem-aventurada por todas as gerações” (Lc 1,42-48b).

Dessas riquezas do Novo Testamento, embora apresentadas de modo resumido, não menos rico e profundo por isso, vale a pena ter presente também do Evangelho de São João algumas passagens que muito nos ensinam.

Em Jo 2,1-11, nas Bodas de Caná, Maria participa revelando sua máxima atenção à Nova Aliança que se realiza em Cristo Jesus, o único Salvador da humanidade. Por isso, ela diz “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5), marcando a indicação que gera o coração dos verdadeiros discípulos e discípulas.

Em Jo 19,25-27, sua presença de Mãe dolorosa no alto do Calvário, escutando obediente a indicação de Jesus, seu Filho amado, ao dizer “Mulher, eis aí o teu filho”, “Filho, eis aí tua mãe”, Maria se torna a imagem de comunhão e a certeza de que nesta está nossa força e o caminho verdadeiro para o coração de Deus.

São muitos os aprofundamentos que do Novo Testamento podem nos ajudar a compreender da grandeza da Mãe do Verbo Encarnado, filha predileta do Pai, esposa do Espírito Santo e modelo de discípula.

5. Maria, Mãe de Deus, Imaculada e Assunta aos céus
O fundamento da veneração que aparece no Novo Testamento, desenvolve-se nos primeiros séculos da vida da Igreja, de forma gradativa e sempre crescente, na liturgia e na devoção. O culto, os símbolos, a vivência, a experiência, sobretudo a fé vivida, precederam as proclamações dogmáticas oficiais, o que significa que o dogma surge da fé vivida pela Igreja, fundamentada na Escritura e na Tradição. A importância de Maria na vida da Igreja vai se confirmar pelas proclamações dogmáticas que aconteceram no decorrer dos séculos. Na tentativa de falar do mistério de Cristo, o Concílio de Éfeso, já em 431, afirmara que aquele que nasceu de Maria era verdadeiramente o Filho de Deus, concedendo a Maria o título de Theotokos, isto é, Mãe de Deus. Ela é a Virgem, Mãe de Deus (concílio Lateranense); é a Imaculada (Pio IX); a elevada ao Céu em corpo e alma (Pio XII).

O Vaticano II confirma a doutrina marial dos concílios e as proclamações dogmáticas, referindo-se à perfeita relação de Maria com Cristo, a apresenta como modelo da Igreja. Abre também novas perspectivas, interpretando a relação da esperança, realizada em Maria, em conformidade com a esperança da Igreja, enquanto alcança o ideal de santidade mais profundo e mais alto para a humanidade. Sentimos, a partir daqui, que o amor e a devoção do nosso povo pela santíssima Mãe de Deus fundamenta-se na descoberta dos cristãos que a destinação incomensurável, recebida por ela, está agora à disposição de todo homem e de toda mulher. É este o segredo descoberto, antes de tudo pela devoção popular, a solidariedade da mulher no Mistério da redenção, na vitória sobre o pecado: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a sua, ela te esmagará a cabeça” (Gn 3,15).

O cumprimento deste anúncio está registrado na carta aos Gálatas, um antigo texto mariológico do Novo Testamento: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher” (Gal 4,4). E o evangelho registra o nome da mulher: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria ” (Lc 1,26-27).

O Papa João Paulo II, iniciando a sua carta apostólica Tertio Millennio Adveniente , lembra as palavras do apóstolo Paulo. E a plenitude do tempo, segundo o Papa, identifica-se com o mistério da encarnação do Verbo, Filho consubstancial ao Pai, e com o mistério da redenção do mundo. Segundo São Paulo, o Filho de Deus nasceu de mulher, nasceu sujeito à lei, e veio ao mundo resgatar quantos estavam sujeitos à lei, para receberem a adoção de filhos: “Porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o espírito do seu Filho que clama: “ Abba , Pai” (Rm 8,15). O Apóstolo ligou não somente o Filho de Deus à história do mundo e da salvação, mas também à mãe desse mesmo Filho.

6. A riqueza de Maria
As proclamações dogmáticas vieram revelar a natureza profunda da pessoa de Maria, sua vocação e atuação no plano salvífico de Deus.

Estamos comemorando 150 anos da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. O Papa Pio IX, ao proclamar essa verdade como dado fundamental da fé viva da Igreja, que tem raízes na economia da salvação, quis mostrar Maria – Mãe do Redentor – como obra-prima da graça de Deus, que a preparou para uma missão única na história da salvação. Ela é a cheia de graça (Lc 1,28). A proclamação do dogma reflete, em sentido positivo, a riqueza da Graça concedida a Maria, e esperada pela humanidade inteira.

Desde o primeiro instante de sua existência no ventre materno, o Espírito Santo ocupou todo o seu ser. Ela foi previamente redimida. Concebida como nova criatura para ser a Mãe digna do Redentor. Por isso, os cristãos orientais a denominam Toda Santa, e os cristãos ocidentais, a Imaculada. Em Maria, a Imaculada, podemos ver o exemplo da criatura que Deus criou à sua imagem e semelhança. A Imaculada Conceição é também a imagem da nova humanidade, não mais desfigurada pelo pecado e pelos males que ele provoca no mundo. Afirma São Paulo, na Carta aos Romanos (cf. 6,23) que o salário do pecado é a morte. Na linha do pensamento de São Paulo, podemos também dizer que o salário da graça é a nova criatura, a humanidade nova, a vida em plenitude. Nossa fé se reveste, então, de uma esperança viva. Somos chamados a abrir-nos à graça de Deus no caminho da busca da santidade, como marca de nossa vida de fé a caminho do Reino definitivo.

7. Celebrando os Jubileus
Todos nós somos convidados a celebrar, com cantos de louvor e alegria, estes dois jubileus que apontam para os alicerces da nossa fé, o dogma da Imaculada Conceição, pelo Papa Beato Pio IX, 8.12.1854 - 8.12.-2004, 150 anos, e para a riqueza de nossa devoção a Nossa Senhora Aparecida, coroada como Rainha e Padroeira do Brasil,1904- 08.09-2004, pelo Papa São Pio X.

Desde então, os Papas têm tido gestos fraternos e carinhosos de apreço e incentivo pela devoção do povo brasileiro a Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Este gesto de carinho se confirma, neste ano mariano, com o Decreto da Santa Sé, concedendo Indulgências, conforme Decreto da Penitenciaria Apostólica: “Concede-se Indulgência Plenária aos fiéis dentro das condições costumeiras (Confissão Sacramental, Comunhão Eucarística e Oração na intenção do Sumo Pontífice) e com a mente livre de afeto por qualquer pecado, a) se participarem de alguma função sagrada ou pio exercício mariano, ou pelo menos recitarem devotamente a Oração Dominical e o Símbolo dos Apóstolos, acrescentando alguma piedosa invocação à Beatíssima Virgem Aparecida: nos dias 1º de maio e 31 de dezembro de 2004, nos quais haja solene abertura e clausura das celebrações aniversárias; dia 8 de setembro de 2004, no aniversário da definição dogmática da Imaculada Conceição; cada vez que, em honra da Beatíssima Virgem Aparecida, for celebrado rito solene presidido pelo Bispo diocesano ou outro Bispo em seu nome; cada vez que individualmente ou em grupo forem em devota romaria a algum dos supra nomeados templos marianos; uma única vez, em um dia livremente escolhido pelo fiel cristão.”

Conforme o mesmo Decreto, os idosos, enfermos e todos os que, por legítima causa, não puderem sair de casa, poderão obter Indulgência Plenária, contanto que de ânimo devoto se unam àqueles que realizam uma piedosa visitação ou peregrinação, detestem qualquer pecado, e logo que for possível realizem as três condições habituais: diante de uma imagem de Nosso Senhor Jesus Cristo ou da beata Virgem Maria, recitem o Pai-nosso, o Credo ou uma prece mariana. Se nem isso puderem fazer, ofereçam humildemente a Deus, por Maria, suas doenças e incômodos.

Todos os que recitarem súplicas ou praticarem atos de piedade em honra da Virgem Aparecida, ou fizerem obras de misericórdia, penitência ou evangelização propostas pelo bispo diocesano, invocando a Mãe de Deus sobre o título de Virgem Aparecida, lucrarão indulgência parcial.

8. Lembranças e compromissos
Ecoam ainda em nossas lembranças e em nossos corações agradecidos os momentos da visita de sua Santidade, o Papa João Paulo II, à cidade de Aparecida para consagrar, pessoalmente, o Santuário Nacional da Rainha e Padroeira do Brasil. Estas lembranças se constituem num convite para que, todos juntos, pastores e rebanho, manifestemos a Maria a nossa filial devoção.

Recomendamos, nesta oportunidade, a oração do santo Rosário “que tem não só a simplicidade de uma oração popular, mas também a profundidade teológica de uma oração adaptada a quem sente a exigência de uma contemplação mais madura” (RVM 39). “Uma oração tão fácil e ao mesmo tempo tão rica merece ser descoberta de novo pela comunidade cristã” como recentemente exortou o Santo Padre (RVM 43).

Reconheçamos, na imagem pequena, simples e negra da Virgem de Aparecida, a Mãe do Redentor, mãe solícita de todos os seus filhos e filhas, especialmente, dos pobres, excluídos, sofredores e pecadores. Nesta comemoração, entoemos, com amor e alegria, o hino dos peregrinos, quando sobem a colina do Santuário:

Viva a Mãe de Deus e nossa,
Sem pecado concebida!
Viva a Virgem Imaculada!
Ó Senhora Aparecida!

Brasília – DF, 27 de maio de 2004
Os Bispos da Presidência e do Conselho Episcopal Pastoral da CNBB.

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