Resenha do livro: pixley, George V.. Êxodo. Trad. J Resende Costa. São Paulo: Paulinas, 1981, 252 p.

Neste comentário ao livro do Êxodo, George Pixley não tem por objetivo elaborar “um comentário científico que proponha teorias novas para o grêmio dos peritos em Bíblia”. Pretende sim ser um comentário “Evangélico e Popular” para facilitar a leitura do texto atual do livro do Êxodo, ao mesmo tempo que pretende ser um instrumento cientificamente confiável para todos aqueles – de modo especial os pastores, os estudantes de teologia e os agentes de pastoral – que se dedicam à difícil e importante tarefa de ajudar o povo de Deus “em seu anseio de pronta libertação”.

 

A tese que o autor procura demonstrar, insistentemente, durante todo o livro é que “o Êxodo é texto-guia de povo em revolução”. É a partir desse pressuposto que se pode entender algumas contradições da própria redação do livro do Êxodo: a construção de uma sociedade sem classes (a partir da experiência revolucionária dos hebreus do Egito e das tribos israelitas de Canaã) em contraposição à sociedade tributária, classista e opressora (representada pela instituição monarquia, seja no Egito como em Canaã). Nesse sentido o autor alerta para duas leituras do êxodo. Uma que segue a interpretação nacionalista da redação javista (e, portanto, da época da monarquia) que enxerga no êxodo apenas um movimento para a restauração da nacionalidade de Israel, após um período “transitório” de escravidão – já que a identidade israelita era anterior ao êxodo. Ao contrário, “ao situar a produção do relato do êxodo dentro das lutas dos camponeses israelitas para conseguir e defender condições dignas de vida diante dos reis de Canaã, devolvemos o caráter revolucionário à luta contra o Faraó”. Somente dentro desse ultimo ponto de vista é que poderemos compreender a razão de ser dos dois grandes blocos que constituem o livro do Êxodo: A libertação do povo e as bases para a nova sociedade.

 

Dito isso, cabe uma consideração muito interessante que faz o autor ainda na introdução, que é a distinção de quatro momentos ou níveis no texto do Êxodo, “que correspondem à re-produção do relato em quatro diferentes contextos sociopolíticos”. 1) o primeiro nível considera o grupo que teria vivido a experiência histórica da libertação do Egito. Pouca coisa podemos saber dessa etapa, por estar tão recoberta por níveis redacionais posteriores. Mas é importante não perdê-lo de vista, “justamente por ser o primeiro relato do Êxodo”. 2) O segundo nível considera as tribos da terra de Canaã (séc. XIV – XI a.C.) em sua luta contra a dominação dos reis locais (aqui o autor segue de perto a teoria de Gottwald). Quando chegou ao pais, o grupo vindo do Egito se aliou a esses camponeses “e o relato de sua experiência de libertação foi lido como a experiência de uma luta contra a exploração por um aparato real ilegítimo”. Assim, o Êxodo foi lido como “uma revolução social contra a instituição da monarquia”. Também esse nível esta apagado no texto atual do Êxodo, mas conserva sua importância. 3) O terceiro nível considera o início da monarquia em Israel, instituída como necessidade de organização de um exército profissional para enfrentar os povos vizinhos. Nesse nível, o Êxodo foi visto como suporte ideológico para legitimar “uma luta de libertação nacional e não mais mera luta de classes”. É neste nível que se coloca a fonte javista (e também a eloísta, que embora seja uma crítica da monarquia, também defende uma identidade nacional israelita). 4) Por fim o quarto nível, que é a reelaboração do relato do Êxodo pela classe sacerdotal. Este nível é o de mais clara distinção, pois o relato sacerdotal se diferencia bastante das outras fontes. Aqui, “a história do Êxodo converte-se na história da fundação da comunidade religiosa daqueles que reconhecem a exclusiva divindade de Iahweh e se submetem a seus preceitos”.

 

O livro do Êxodo pode ser dividido em quatro grandes seções, que não se identificam necessariamente com a divisão tradicional (capítulos e versículos). A primeira parte compreende Ex 1,1—2,22, e corresponde ao capítulo chamado “Opressão: projeto de morte”. Analisa a “introdução” ao livro do Êxodo. Nela se apresentam os personagens principais de todo o relato: 1) Os filhos de Israel, o personagem mais importante do livro, “cuja figura envolve seria ambigüidade pelas mudanças que sofreu nos diferentes níveis do relato”; 2) o Rei do Egito, “gerador de morte por seu desejo de oprimir aos hebreus-israelitas”. Em oposição aos filhos de Israel, o Rei do Egito se identifica com a classe dominante/opressora e as forças da morte; 3) por fim, Moisés, “um membro da elite do Egito que se identifica com os trabalhadores explorados e que até na terra de Madiã manifesta o seu amor à vida, em particular à vida dos fracos”.

 

A segunda parte compreende 2,23—13,16,  e tem por título “A libertação: projeto de vida”. Apresenta Deus que, ouvindo o clamor dos escravos, envia Moisés para a libertação. Há dois aspectos muito importantes que podemos frisar nesta seção. O primeiro diz respeito à revelação de Deus. Iahweh não é um Deus que está do lado dos poderosos, mas um Deus que está do lado dos oprimidos (e isso é totalmente novo para as religiões da época). “Saber que Deus está do lado dos oprimidos é sempre um impacto para o opressor, e, na maioria das vezes, esta experiência é negada com indignação que brota de certo senso de culpa”. Um segundo aspecto importante está no próprio projeto de Iahweh. Sua estratégia para a libertação não consiste em meras medidas reformistas. Não, em seu diálogo com Moisés ele rechaça isso completamente. Seu plano, desde o princípio coloca a necessidade de uma mudança radical. “Dito isso, cabe frisar a força com que o relato nos apresenta Iahweh como um Deus que está decidido a realizar um plano de libertação em resposta ao clamor dos escravos, um Deus que não permitirá que nada nem ninguém impeça sua salvação revolucionária”.

 

A terceira parte compreende 13,17—18,27, cujo título é “Os perigos da passagem para a terra que mana leite e mel e as primeiras ameaças contra-revolucionárias” , vai tratar justamente das ameaças ao processo de libertação do povo. O deserto será o lugar onde o povo vive os perigos da maturação dessa liberdade alcançada, mas ainda não consolidada. “O problema de fundo desses relatos é a contra-revolução”.

 

Na quarta e última parte do livro, que compreende 19,1—40,38, o autor mostra como o livro do Êxodo “expõe as bases constitucionais da nova sociedade do povo de Iahweh, o Deus libertador”. Ora, esse povo, que fora libertado da escravidão, precisa agora criar fundamentos sólidos, bases seguras para a nova sociedade, revolucionária e sem classes, segundo o autor. Esta seção, por sua vez, é dividida em outras três partes distintas. A primeira e a segunda é dominada pela exposição do “Decálogo” e do “Código da Aliança”. Estes constituem, em seu conjunto, “a solene declaração de Iahweh  acerca das condições para se pertencer ao povo de Iahweh”. Várias vezes o autor diz isso quando fala das condições necessárias, dos “marcos constitucionais da nova sociedade”, sem as quais essa sociedade possa subsistir. Mas não é qualquer sociedade. É preciso lembrar que o Êxodo quer fundar as bases da sociedade sem classes, onde há uma igualdade fundamental  entre todos. Daí a importância dada à primeira das “dez palavras”: “não terás outros deuses diante de mim”. “Esta é a lei fundamental para a vida de Israel como uma sociedade nova”. Ora, se Iahweh é o Deus que quer a liberdade de seu povo, e não a opressão e dominação, “então não poderá um homem dominar sobre o outro de forma alguma, roubando, matando ou cobiçando o que é dele”. Assim este “mandamento” dará a tônica a todos os outros.

 

Em coerência com a idéia que até aqui se tentou justificar, Pixley lembra que não ter outros deuses significa ter sempre presente as bases para a nova sociedade. Os outros deuses até podiam parecer algo bom para o povo, por cuidarem da chuva ou da fertilidade dos rebanhos, mas é preciso lembrar que eles eram também protetores da ordem social “onde o rei era a máxima autoridade, com o direito de dispor das propriedades de seus súditos”. “A formulação polêmica do mandamento de adorar a Iahweh tem, portanto, como explicação a longa luta dos camponeses para desvenciliar-se da dominação de uma série de reis”. Adorar somente a Iahweh era continuar a opção pela liberdade! Neste mesmo espírito seguem os outros mandamentos, sempre com a intenção: ora de “manter a pureza da opção dos camponeses de Israel contra a religião que justificava a opressão”, ora de estabelecer “a justiça na nova sociedade do povo de Iahweh”.

 

É digno de nota também a terceira e última parte desta seção dedicada à revelação do Sinai, devido ao seu tom demasiado contrastante em relação aos níveis 1, 2 e 3: é a interpretação sacerdotal da revelação (com o sugestivo subtítulo: a revelação do aparato do culto). Segundo essa interpretação, que dá um significado muito diferente da revelação, “o que Deus revelou foi o modelo para o lugar onde habitaria sua presença (o tabernáculo); e o que ordenou foi a instituição de um sistema sacrifical”. O contexto em que foram escritos esses relatos é o projeto sacerdotal de um Israel centrado no templo reconstituído sob a proteção das autoridades persas (portanto a reconstrução da comunidade após o exílio babilônico).

 

Segundo esse projeto, “opina-se que a causa da desgraça e do exílio teriam sido as impurezas de um povo que não soube separar o santo do profano”. Daí a necessidade de se fortalecer o culto. Não mais interessam os assuntos civis (que agora estavam nas mão do governo persa). Para a comunidade do (pós-)exílio, o que Deus quis de fato revelar foram as estruturas e as normas “para dele se aproximar no culto”. Ligado a isso o autor nos mostra outro tema fundamental para esta interpretação: a instituição do sacerdócio de Aarão e de seus filhos, através dos quais se dará o culto. Estes serão as únicas pessoas autorizadas “a prestar o culto em nome do povo no lugar da morada de Deus”. Por meio destas normas “se faz remontar ao Sinai o privilégio dos sacerdotes, assunto de enorme importância no projeto sacerdotal do exílio”.

 

Este texto, como já foi dito no começo, foi escrito com a intenção de facilitar a leitura do texto atual do livro do Êxodo mostrando que este é “texto-guia de povo em revolução”, ou seja, em busca pela liberdade desejada por Iahweh. O autor trabalha esse tema com muita competência. Também desenvolveu a temática tomando como base uma vasta e rica bibliografia, fator pelo qual torna as informações confiáveis e dignas de um maior aprofundamento. Permite-nos, além disso, num estudo introdutório, estabelecer critérios confiáveis para as pesquisas que estão se desenvolvendo nesta área. Trata-se, enfim, de um texto altamente recomendável, de cuja leitura tirarão proveito todos aqueles interessados em uma abordagem competente sobre o livro do Êxodo e suas implicações na vida de um povo “em seu anseio de pronta libertação”.

 

 

 

Rodrigo Assis Rosa, OMV

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