Evangelização e Missão Profética da Igreja

Novos desafios

 Alterações culturais e exclusão dos pobres

O processo de racionalização (isto é, o processo histórico que veio da Idade Moderna, que valorizou a razão e desprezou a fé), afirmou-se em contraposição à história e à cultura precedente (ou seja, a Idade Média), com a desvalorização do passado, considerado como o tempo em que os homens e mulheres estavam sob a tutela de autoridades externas (as Igrejas, as Sagradas Escrituras), percebidas como contrárias à razão e à liberdade, época de superstições e do acúmulo de erros. O centro de gravidade da cultura deslocou-se do passado para o futuro, isto é, para a experimentação, que inaugura o novo. Motivo de esperança não era mais a memória dos fatos passados, dos heróis e dos santos, mas o futuro, nas realizações que a razão técnica e científica poderia proporcionar. As conquistas científicas e as poderosas ideologias que foram elaboradas nesse mesmo século alimentavam um grande otimismo.

 Com a crise da modernidade, chamada também de pós-modernidade, no entanto, as promessas de progresso passaram a ser consideradas destituídas de credibilidade, como fábulas ilusórias. O futuro luminoso anunciado como certo, quer no plano sóciopolítico, quer no técnico-produtivo, começou a aparecer como improvável. As construções utópicas, que procuravam esboçar a imagem do progresso e acelerar o seu advento, desmoronaram. Na primeira etapa da modernidade havia sido desvalorizado o passado, agora era a vez de o futuro perder validade: as promessas utópicas dos mais variados tipos perderam credibilidade.

 As possibilidades de vida e de satisfação passaram a concentrar-se no tempo presente. Às visões entusiásticas do progresso histórico sucediam-se horizontes mais curtos, ou seja, uma temporalidade dominada pelo precário e pelo efêmero, marcada pela primazia do aqui e do agora. A moda torna-se o fenômeno que mais significativamente encarna essa nova sensibilidade moderna. Sua influência vai além dos salões a ela reservados, tornando-se a forma da economia, da cultura e do comportamento social. A moda assim entendida, deixa de ser privilégio de uma elite para tornar-se um fenômeno de massa. O consumo que o mercado oferece passa a ser fonte de satisfação, nele concentram-se, agora, as esperanças de realização individual.

Inaugura-se um tempo separado de suas origens e de seu destino: homens e mulheres sem raízes e sem metas, a não ser a fruição dos bens que a modernidade estava oferecendo, numa nova edição do carpe diem (aproveite o momento). Não faltaram alertas para os problemas de uma cultura que corta suas raízes. Com efeito, o desenraizamento é a doença mais perigosa das sociedades humanas. Cortar os vínculos com sua história, anular a memória de suas festas, foram as condições para manter na escravidão grande contingente de populações africanas. Novas escravidões surgem quando os vínculos de pertença são desvalorizados e as raízes da própria identidade não são cultivadas.

 A grande maioria da população do primeiro mundo pode festejar esse dinamismo de consumo, que institucionaliza o efêmero, em benefício de uma emancipação e de uma libertação sem precedentes na esfera subjetiva. O indivíduo tornou-se um sujeito aberto e móvel diante da pluralidade de opções. Mas, nos países emergentes e nos menos desenvolvidos, bom como nos bolsões de pobreza que crescem nos próprios países ricos, aos pobres é negado o acesso ao mercado.

É o caso de muitos JOVENS e adultos no Brasil. Eles se vêem condenados à exclusão mais radical. Já foram desapropriados do passado, isto é, das fontes onde poderiam haurir esperanças e energias para enfrentar os desafios do presente. Foi retirada de seu horizonte a esperança de um futuro luminoso, pois não há perspectivas de crescimento econômico suficientemente intenso, a ponto de serem absorvidos pelo mercado de trabalho com níveis salariais satisfatórios. Por outro lado, carecem de políticas públicas de inclusão, pelas quais possam tornar-se protagonistas de uma mobilidade social ascendente, por meio de escolas profissionalizantes e outros mecanismos de redistribuição da renda. O presente impõe-se aos pobres como carregado das preocupações com a sobrevivência imediata, fonte de humilhação, sendo negado a eles o acesso ao ideal de consumo insistentemente apresentado nos meios de comunicação. Esta é a fonte de muitos problemas sociais que assolam o país: depressão, violência, prostituição, alcoolismo, consumo e tráfico de drogas. Os problemas acima citados não impediram o crescimento econômico, o desenvolvimento técnico e científico, a conquista de espaços de liberdade e de igualdade antes ignorados.

Do livro: CNBB. Evangelização e Missão Profética da Igreja. Novos Desafios (Doc. 80). São Paulo: Paulinas, 2005  [pp. 39-42].

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