Eutanásia

 

1. Ver

 

1.1. Dinamizando:

Organizar um teatro. Há um jovem deitado numa maca. É um jogador de futebol que lutou muito para ser famoso e rico e agora, por um acidente, ficou paraplégico. Sua família está aos pés do doente. Tanto a família como o paciente pedem para lhe ser abreviada a vida, agora “sem sentido”. Nos lados direito e esquerdo há duas equipes de médicos: uma à favor da eutanásia e outra contra. As duas equipes vão discutir entre si e com os familiares sobre suas posições. (A personagem em questão, o jovem jogador, foi inspirado na personagem do filme “Menina de Ouro”)

 

1.2 Entendendo a Eutanásia

 

História: Originariamente “eutanásia” visava a designar  arte da boa ou doce morte. Foi defendido por Sêneca. Pertence à liberdade do homem decidir sobre o sentido e suportabilidade de sua existência no corpo.

Aristóteles, Pitágoras e “O juramento de Hipócrates”, porém, tomam nitidamente as distâncias da praxe da eutanásia e por isso este último é assimilado pelo pensamento cristão. No juramento de Hipócrates consta: "eu não darei qualquer droga fatal a uma pessoa, se me for solicitado, nem sugerirei o uso de qualquer uma deste tipo". Desta forma a escola hipocrática se já se posicionava contra o que hoje tem a denominação de eutanásia e de suicido assistido. 

Definição: “Por eutanásia, em sentido verdadeiro e próprio, deve-se entender uma ação ou uma omissão que, por sua natureza e nas intenções, provoca a morte com o objetivo de eliminar o sofrimento” (Evangelium Vitae), em situação de saúde grave e irreversível. 

Atualmente a eutanásia pode ser classificada de várias formas, de acordo com o critério considerado.  

Quanto ao tipo de ação:

  • Eutanásia ativa: o ato deliberado de provocar a morte sem sofrimento do paciente, por fins misericordiosos.
  • Eutanásia passiva ou indireta: a morte do paciente ocorre, dentro de uma situação de terminalidade, ou porque não se inicia uma ação médica ou pela interrupção de uma medida extraordinária, com o objetivo de minorar o sofrimento.
  • Eutanásia de duplo efeito: quando a morte é acelerada como uma conseqüência indireta das ações médicas que são executadas visando o alívio do sofrimento de um paciente terminal.

 

Quanto ao consentimento do paciente:

  • Eutanásia voluntária: quando a morte é provocada atendendo a uma vontade do paciente.
  • Eutanásia involuntária: quando a morte é provocada contra a vontade do paciente.
  • Eutanásia não voluntária: quando a morte é provocada sem que o paciente tivesse manifestado sua posição em relação a ela.

 

O Prof. Jiménez de Asúa, em 1942, propôs que existem, a rigor, apenas três tipos:

·         Eutanásia libertadora, que é aquela realizada por solicitação de um paciente portador de doença incurável, submetido a um grande sofrimento;

·         Eutanásia eliminadora, quando realizada em pessoas, que mesmo não estando em condições próximas da morte, são portadoras de distúrbios mentais. Justifica pela "carga pesada que são para suas famílias e para a sociedade";

·         Eutanásia econômica, seria a realizada em pessoas que, por motivos de doença, ficam inconscientes e que poderiam, ao recobrar os sentidos sofrerem em função da sua doença.  

Razões principais pelas quais as pessoas/familiares buscam a eutanásia:

  • Falência de seu projeto de vida: negação da situação de criaturidade do gênero humano;
  • Mentalidade eugenista: higienização social daqueles que já são um peso para a sociedade. (Essa mentalidade está muito presente na reflexão da Campanha da Fraternidade desse ano);
  • Motivos econômicos: sob a bandeira da liberdade (eu posso escolher entre viver e morrer) e a da falsa compaixão (eu não tenho o direito de causar sofrimento para meus familiares e nem tão pouco gastar inutilmente os recursos públicos) se esconde a concepção de que a pessoa só tem valor enquanto produz capital. A absorção deste é vista como usurpação. 

2. Julgar / Refletir

(Dividir em grupos para pensar o papel do sofrimento humano. Apresentar a reflexão da igreja a respeito) 

“Hoje, na seqüência dos progressos da medicina e num contexto cultural freqüentemente fechado à transcendência, a experiência do morrer apresenta-se com algumas características novas. Com efeito, quando prevalece a tendência para apreciar a vida só na medida em que proporciona prazer e bem-estar, o sofrimento aparece como um contratempo insuportável, de que é preciso libertar-se a todo custo. A morte, considerada como ‘absurda’ quando interrompe inesperadamente uma vida ainda aberta para um futuro rico de possíveis experiências interessantes, torna-se, pelo contrário, uma ‘libertação reivindicada’, quando a existência é tida como já privada de sentido porque mergulhada na dor e inexoravelmente votada a um sofrimento sempre mais intenso” (EV) 

“Mesmo quando não é motivada pela recusa egoísta de cuidar da vida de quem sofre, a eutanásia deve designar-se uma falsa compaixão, antes uma preocupante ‘perversão’ da mesma: a verdadeira compaixão’, de fato, torna solidário com a dor alheia, não suprime aquele de quem não se pode suportar o sofrimento”. (EV) 

“O apostótolo Paulo exprimiu esta novidade em termos de pertença total ao Senhor que abraça qualquer condição humana: “Nenhum de nós vive para si mesmo, e nenhum de nós morre para si mesmo. Se vivemos, para o Senhor que vivemos; se morremos,para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). Morrer para o Senhor significa viver a própria morte como ato supremo de obediência ao Pai, aceitando encontrá-la na hora querida e escolhida pro ele, o único que pode dizer quando está cumprido o caminho terreno. Viver para o Senhor significa também reconhecer que o sofrimento, embora permaneça em si mesmo um mal e uma prova, sempre se pode tornar fonte de bem. E torna-se tal se é vivido por amor e com amor, na participação, por dom gratuito de Deus e por livre opção pessoal, no próprio sofrimento de Cristo crucificado”. (EV) 

O objetivo central: Na hipótese de que a intenção dominante vise a humanizar a fazer terminal de maneira integral, a eutanásia passiva seria a expressão adequada e suficiente ao passo que a eutanásia ativa assumiria o caráter de disposição arbitrária. 

Nesse sentido afirma João Paulo II: “Distinta da eutanásia é a decisão de renunciar ao chamado “excesso terapêutico”, ou seja, a certas intervenções médicas já inadequadas à situação real do doente, porque não proporcionadas aos resultados que se poderiam esperar ou ainda porque demasiado gravosas para ele e para a sua família. Nestas situações, quando a morte se anuncia iminente e inevitável, pode-se em consciência ‘renunciar a tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem, contudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes”. Há, sem dúvida, obrigação moral de se tratar e procurar curar-se, mas essa obrigação há de medir-se segundo as situações concretas (...). A renúncia a meios extraordinários ou desproporcionados não equivale ao suicídio ou à eutanásia; exprime, antes, a aceitação da condição humana defronte à morte (...). Já Pio XII afirmara que é lícito suprimir a dor por meio de narcóticos, mesmo com a conseqüência de limitar a consciência e abreviar a vida, ‘se não existem outros meios e se, naquelas circunstâncias, isso em nada impede o cumprimento de outros deveres religiosos e morais’”. (EV) 

Bem diferente é o caso em que o moribundo se encontra já na fase pós-pessoal, isto é, quando a morte cerebral ocorreu e foi confirmada pelos critérios médico-legais em vigor. Querer continuar sustentar a vida só teria valor se o enfermo se tivesse declarado a favor da doação dos órgãos.

 

3. Agir

(Propostas concretas para solidariedade com as famílias dos enfermos) 

Muito delicado é o aspecto inter-humano do problema, isto é, o peso que onera os ombros dos parentes do moribundo. Eles, muitas vezes, sentem-se sobrecarregados e como que deixados a si mesmos no tocante ao ônus estressante da assistência integral a prestar. A força de resistência tem limites óbvios. Pro isso, pedem gestos concretos de solidariedade por parte da sociedade: equipes de médicos e de pessoal sanitário especializado, quando o enfermo vive a sua fase terminal em família; ou hospitais em que seja garantida toda espécie de assistência desejável. 

Seria testemunho nobre se a comunidade eclesial se pusesse na vanguarda deste setor. Com efeito, não se deve esquecer que a fisionomia moral do cristão se distingue pela sua sensibilidade elevada para os que são fracos e atribulados. A dignidade da pessoa humana, muitas vezes lembrada, não se manifesta somente em saber sofrer, em aceitar serenamente as tribulações deste mundo e em transfigurá-las, pela esperança, na própria ressurreição. O seu banco de prova consiste também na disponibilidade e generosidade com que vive a compaixão.

 

4. Bibliografia

COMPAGNONI, Francesco et al. Dicionário de Teologia Moral. São Paulo: Paulus, 1997.

http://www.bioetica.ufrgs.br/textos.htm

JOÃO PAULO II, Carta encíclica Evangelium Vitae. São Paulo: Paulinas, 1995.

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