ESPIRITUALIDADE E MISSÃO
O que é, para mim, a experiência de Deus?
Dom Pedro Casaldáliga
Resposta a um grupo de jovens de comunidades cristãs
do País Basco, 8 de maio de 1978.
Vocês me fazem algumas perguntas vitais, que me obrigam
a responder, porque ós cristãos temos o dever e
a graça de dar testemunho de nossa esperança.
Pedem-me este pequeno testemunho pessoal para as comunidades
cristãs do povo basco. Isto me obriga ainda mais. Creio
cada dia mais no poder do fermento das pequenas comunidades.
Creio cada dia mais no direito sagrado das minorias que têm,
todas, a seu modo, uma especial característica evangélica:
são um “resto”, são os “pobres”.
O contato com os povos indígenas, sua luta, seu martírio,
vão desenvolvendo em mim agudamente esta consciência.
Sou catalão, o que já pode significar também
certa experiência de minoria, vivida em carne própria.
1. Joseba diz que estão descobrindo cada dia mais que
nossa fé tem muito de identificação com
uma mensagem. Também minha fé partiu daí;
a de quase todos, de uma forma ou de outra. A fé entrou
em nós pelos ouvidos. Isto já foi constatado por
S. Paulo, canonicamente, digamos.
O mal é que ficamos ai, rotineiramente. E a mensagem
passa a ser apenas doutrina, uma doutrina a mais, possivelmente
(“aprendi isto”, “ensinaram-me aquilo”,
“o catecismo dizia isto”, “no colégio
me explicaram assim”, “a Igreja diz isso”...).
Doutrina “infantil”. E chega a vida com sua avalanche
crítica e seus interesses e reveses, e a mensagem, ou a
doutrina, passa a ser apenas uma recordação, talvez
uma lenda e até uma parvoíce.
2. Faltou-nos “ver” o Mensageiro desta mensagem.
Faltou-nos encontrar-nos com Jesus Cristo. Conhecê-lo,
amá-lo, segui-lo.
Nestes dias estou lendo um livro muito bom do jesuíta
basco Jon Sobrino, Cristologia desde a América Latina.
Insiste muito neste aspecto, sempre atual, do seguimento de Cristo.
O basco Inácio de Loyola, a seu modo, em seu tempo, entendeu-o
maravilhosamente bem.
Como se faz isto? Penso que cada um tem sua hora. Deus dá
a cada um suas oportunidades.
Para mim foram estas: minha família, “nossa”
guerra, o seminário – apesar de todas as suas aberrações
de formação. Apesar das aberrações,
maiores, de “nossa” guerra. Recordo alguns momentos
fortes que me marcaram: o estudo de S. Paulo, por exemplo; as
vidas de Jesus Cristo e outros livros cristológicos que
li com proveito. E uma obsessiva petição que eu
fazia, naqueles bons tempos, para conhecer Jesus Cristo.
Foram sempre os pobres. O pobre é o melhor Evangelho
de Jesus. Foi e é o contato com o próprio Jesus
Cristo, vivo e presente, na oração, na Eucaristia,
nos compromissos concretos por sua causa.
Com tudo o que pudesse ter de juvenil, aquela vontade de “ir
para as Missões”. A renúncia a certas comodidades
ou direitos. A vida religiosa, apesar de suas deformações
estruturais. O ministério sacerdotal, que muitas vezes
era assumido com desgastante fidelidade.
Ultimamente, aqui no Mato Grosso, maravilhoso e sombrio, nesta
querida e retalhada América Latina, o risco a possível
morte por assumir a causa de Cristo, que é a causa da justiça
e da libertação dos irmãos menores, filhos
do Pai Deus.
Tudo isso foi hora de encontro, oportunidade providencial que
me aproximou do Senhor Jesus.
Penso que somente a vida nos faz viver. Só buscando Cristo
se encontra a Cristo. Só buscando onde está, é
claro...
Eu disse que nos faltou “ver” o Mensageiro, enviado
do Pai, misteriosamente igual a Ele, mas também realmente
igual a nós. Mensageiro feito mensagem de carne, de pobreza,
de liberdade, de morte, de vida nova.
3. Faltou-nos também sentir e viver o “para
que” da mensagem, para quem ia, com quem devíamos
compartilhá-la. Faltou-nos conviver a mensagem. Nossa
fé foi raivosamente privada, capitalizadora, e por isso
mesmo, condenada à esterilidade, ao tédio radical,
à morte.
Faltou-nos sentir o Reino, pelo qual o Verbo de Deus se fez
homem. Posso assegurar-vos que somente nestes últimos anos
descobri com certa lucidez libertadora, a verdade do Reino.
Que é maior do que a Igreja; do qual a Igreja é
um sinal; para o qual tudo deve tender; que se constrói
com tudo o que há de verdade, de justiça, de fraternidade,
nas lutas e nas aspirações dos homens.
Faltou-nos sentir-nos Igreja, antes de mais nada. Que talvez
não seja o que vínhamos pensando ser, a contrapelo
e com razão. Que é, deve ser, outra coisa: a comunidade
fraterna, livre, jubilosa, serviçal, daqueles que receberam
o mesmo dom de crer em Jesus Cristo, de viver conscientemente
de seu Espírito e de anunciar o Reino, fazendo-o com
a palavra, com a vida, aqui e agora, para um amanhã
melhor, para um amanhã eterno.
Faltou-nos também um pouco de humor em nossa fé,
sobretudo no que se refere à Igreja instituição
e a seus esquemas doutrinais e jurídicos (...). É
claro que acredito no Papa, como Pedro, não como chefe
do Estado Vaticano. Creio na Igreja, inclusive como instituição,
é claro, mas de um modo mais evangélico.
4. Penso também que se trata de voltar sempre a Deus,
de dar voltas a Deus. É preciso experimentar a Deus,
porque é possível. Porque esta experiência
– de fé, de confiança, de serviço no
serviço aos irmãos – é o mais vital
de nossa própria vida. É claro que Deus não
pode ser demonstrado, nem se consegue experimentá-lo com
receitas, mas vivendo justamente.
Devo reconhecer que Deus foi fácil para mim. Graças
a Deus, nunca duvidei de Deus. Graças a Deus, sempre tive
a impressão de que só Deus resolve, em última
análise, o insolúvel da vida. E sempre me senti
criança diante de Deus. Reconheço que esta fé
é um dom. Creio que é também resultado gratuito
de uma certa “simplicidade” interior. Os ricos, os
grandes, os grosseiros, não poderão ver a Deus.
Não sou eu quem o diz, é o Evangelho. O problema
não é ser pecador, mas ser presumido. Só
há um pecado radicalmente tal: o orgulho exacerbado.
Digo que é preciso voltar sempre a Deus:
- pelas mediações da fé, na
oração, na contemplação;
num culto vivo e alegre; na convivência comunitária,
eclesial, “ecumênica” (com todos os cristãos,
com todos os homens de boa vontade) da causa do Deus vivo, que
é o homem vivo;
- pelas mediações da natureza,
descoberta com capacidade de assombro, amada, respeitada, humanamente
desfrutada. Também aqui se aprende muito com os povos indígenas
e, por contraste, com a selvageria institucionalizada e transnacional
do latifundiário, do desenvolvimento capitalista;
- pelas mediações dos homens,
filhos de Deus todos eles, e todos eles irmãos. Estou falando
dos homens concretos, os únicos que existem;
- pelas mediações do próprio
coração, com seus desejos e suas esperanças
e suas esperanças, com seus temores e até desesperos,
com o fundo de sua capacidade nunca saciada. Esta
sede que se sente dentro de si é sede de Deus, e não
adianta ir em busca de outras águas...;
- pelas mediações, enfim, da vida
e da história. Cada dia me parece mais evidente
que não há mais do que uma história humana,
que é a história da Salvação, porque
não há mais do que um Deus que cria, ama e salva
o homem, e o redime em Jesus Cristo, nele o congrega e por Ele
finalmente o glorifica (não estou me esquecendo nem do
pecado, nem da Bíblia, nem da Igreja).
(...) Amigos, estou divagando. Às vezes, quanto mais
se fala, menos se diz. O certo é que se precisa viver o
dia-a-dia. É preciso rezar, cada dia também. É
preciso enfrentar a injustiça e construir a liberdade fraterna,
dia-a-dia. É mister compartilhar, abrir-se aos outros,
acolhê-los (sozinhos afundamos!). É preciso
anunciar o Reino de Deus, que Jesus Cristo anunciou e viveu, pela
qual morreu e para o qual ressuscitou.
Do livro de Pedro Casaldáliga, Com Deus no meio do
povo, São Paulo: Edições Paulinas, 1985,
pp. 11-18.