PJ – Paróquia São João Batista

 Encontro de Jovens “O Chamado”

Subsídio de estudo

 A 44ª. Assembléia Geral da CNBB acolheu o tema da evangelização da juventude como prioridade. Diz o documento de trabalho logo no número 1: “A juventude está no coração da Igreja e é fonte de renovação da sociedade. Cientes desta importância, nós, pastores, carinhosamente acolhemos o tema da evangelização da juventude para refleti-lo à luz de tantas riquezas e desafios deste momento histórico-cultural em que vivemos”.

 Este mesmo documento de trabalho nos oferece um material muito rico, sobre o qual podemos repensar nosso trabalho de evangelização, de modo especial aqui os nossos encontros de jovens.

 Por isso, esse breve subsídio quer ajudar nesse processo de reestruturação de alguns pontos para as nossas atividades, focalizadas em 3 pilares: “Ver a realidade” – “Julgar/Refletir” – “Agir/Pistas de ação”

 1. Ver: Elementos para o conhecimento da realidade dos jovens

 O texto da CNBB elenca alguns desafios da atual cultura pós-moderna que influenciam no processo de evangelização dos jovens e “no fenômeno da indiferença de uma parcela da juventude frente à Igreja”. Gostaríamos de colocar em relevo o primeiro elemento, que nos toca diretamente: é a crescente valorização da subjetividade.

 21. A subjetividade é um valor central. Trata-se de uma tendência que se acentua cada vez mais, não apenas entre os jovens. Setores da geração de jovens dos anos 80, que abraçavam um ideal coletivo de construir um mundo melhor, foram substituídos por uma geração com maior preocupação com as necessidades pessoais, com os sentimentos, com seu corpo, com a melhora da auto-estima, com a confiança, com a libertação dos traumas etc. O descrédito das ideologias faz com que muitos jovens já não se projetem para o futuro. Este fenômeno tem o efeito de concentrar-se, no momento atual, na busca de sensações e emoções passageiras.

 22. Há uma mudança das estruturas-macro, na sociedade, para os problemas cotidianos. Surge, então, a necessidade de manter um equilíbrio entre o projeto individual e o projeto coletivo. Steinem, estudioso desse fenômeno expõe o desafio desta maneira: "É como se os dois grandes movimentos de nosso tempo, o movimento pela justiça social e o movimento pela auto-realização, fossem duas metades de um todo esperando para se juntar em grupos realmente revolucionários". [1]

 

Entendendo o que é subjetividade:

“Subjetividade” é o lado oposto da “Objetividade”. Em sentido comum, a subjetividade diz respeito àquelas “coisas” que são exclusivas de uma pessoa: “meu ponto de vista”, “meu modo de viver e pensar”, etc. Isso é um valor positivo, na medida em que eu me enxergo diferente dos outros. Porém, a subjetividade pode conter um valor negativo quanto ela se torna absoluta, isto é, quando eu me fecho para qualquer idéia ou projeto que não me “diga respeito”, “que não me agrade”. Desaparece, assim, a vivência em grupo, onde os ideais são partilhados e vividos em comum. Me empenho somente em meus projetos pessoais, e deixo para lá os projetos da família, da comunidade, da Igreja, da sociedade.

 Um olhar sobre a experiência acumulada da Igreja na evangelização da juventude

 Vale a pena agora, antes de prosseguir, lembrar a história da evangelização da juventude no Brasil, ainda que brevemente. “Em cada época, na medida em que mudavam os desafios, os enfoques, os valores e o ambiente cultural da sociedade a mentalidade dos jovens também mudava. Os jovens são mais sensíveis às mudanças e propensos a aceitar o novo. Tudo que acontece na sociedade tem seus reflexos na ação pastoral com a juventude. Os jovens que são atingidos pela ação evangelizadora estão inseridos simultaneamente na sociedade e na Igreja. Para cada época há necessidade de adequar as concepções e as práticas de evangelização para conectar com os jovens. Aprendemos com os erros e com as conquistas do passado. Contudo, nem tudo muda de uma época para a outra. Mudam, às vezes, os enfoques, o ponto de partida, alguns elementos da metodologia. Mas também há elementos que continuam e devem continuar”.

 Vale a pena perceber, para o nosso propósito, o surgimento do “movimento de encontros” na década de 70, confrontando com o que estamos fazendo na atualidade e com as propostas de mudanças que estão surgindo a partir do novo contexto em que estamos vivendo hoje.

 

DÉCADA DE 1960: AÇÃO CATÓLICA ESPECIALIZADA

 62. Inicia-se o resgate do período em torno do Concílio Vaticano II. Nos anos 50 e 60, do século XX, há mudanças profundas acontecendo na sociedade: crescimento econômico, industrialização, urbanização, revoluções políticas e no comportamento. No Brasil o movimento popular no campo e nas cidades e o movimento dos estudantes estão crescendo, pressionando para a efetivação de reformas de base e da reforma agrária. Paulo VI escreve sua encíclica Populorum Progressio.

 63. Pio XI havia convocado os fiéis a se organizarem para enfrentarem os desafios que a situação mundial colocava para a Igreja no começo do século XX. Surgiu, em muitas partes do mundo, também no Brasil, a Ação Católica Geral (movimento de leigos inspirados no trabalho de Pe. Lanteri, segundo o Papa Pio XI). Numa segunda fase, a Ação Católica Especializada foi muito influenciada pelo Papa Pio XII e o Cardeal Cardjin. Cardjin percebe que com a revolução industrial, a sociedade havia mudado radicalmente. A nova cultura não considera mais a religião como o centro de tudo. Vários grupos passam a hostilizar a religião como "ópio do povo" e como anti-intelectual e há setores onde a Igreja não tem mais acesso, de modo especial, o operariado. É necessário mudar de estratégia pastoral. Precisa sair da sacristia e ir ao encontro desse povo nos lugares onde ele se encontra. A solução era o envolvimento do laicato na missão de evangelização. Trata-se de um grande exército que poderia ser mobilizado. A tarefa de evangelizar os jovens operários, camponeses e estudantes seria feita por outros jovens, dentro do seu ambiente.

 64. A Ação Católica Especializada desenvolveu uma nova metodologia para enfrentar os desafios de uma sociedade em transformação. necessidade de partir da vida dos jovens. Surge o método Ver-Julgar-Agir que continua sendo um importante instrumento na ação pastoral da Igreja hoje. Os pequenos grupos e a organização dos grupos em rede se tornam uma estratégia importante de envolvimento e formação dos jovens. É forjada uma espiritualidade que desperta os jovens para o engajamento na comunidade eclesial e na sociedade.

65. A nova proposta iria revolucionar a pedagogia dentro da Igreja tradicional, de modo especial na América Latina. Essa nova metodologia fez surgir uma nova espiritualidade, unindo fé e vida. Com o tempo a metodologia é assimilada pela Igreja mais ampla e leva a instituição a analisar os problemas sociais a partir da ótica dos empobrecidos e apoiar suas lutas de transformação social.

 

DÉCADA 1970: MOVIMENTO DE ENCONTROS

 67. Efetua-se, então, agora uma mudança radical da sociedade brasileira. O governo militar se radicaliza. A repressão e a censura não aceitam a discórdia e a contestação. Surge outra maneira de trabalhar com a juventude, mais adaptada a esta nova realidade, principalmente política: os Movimentos de Encontro.

 68. Os Movimentos de Encontro reuniam jovens para encontros de fim de semana, usando uma metodologia que se inspirava no Cursilho de Cristandade, um movimento para adultos, nascido na Espanha e depois adaptado aos jovens. Os encontros eram coordenados por adultos e alguns jovens que participavam com tarefas secundárias. Nas palestras dava-se importância ao testemunho pessoal dos próprios palestristas, evitando-se palestras muito intelectualizadas. O testemunho pessoal comovia mais. Os dirigentes procuravam criar forte impacto emocional de várias maneiras: mensagens de parentes e amigos, depoimentos nas palestras, acolhida, amizade e atenção individual mostradas pelos dirigentes, liturgias participativas, oração espontânea, e música animada. Na base dos encontros: uma experiência forte, emocional, de encontro com Deus e de conversão. Os movimentos visavam resolver apenas os problemas pessoais dos jovens. A solução do problema social dependia da mudança de cada um individualmente.

 69. Num primeiro momento esta nova forma de evangelização teve êxito considerável. Num segundo momento começaram a aparecer dificuldades. Depois do encontro não havia proposta viável de continuidade. Havia sim: engajamento no próprio movimento. Os jovens iam trabalhar nos encontros seguintes. Foi-se percebendo, também, os limites de uma metodologia de impacto emocional. A dependência excessiva numa metodologia de impacto emocional deixa a impressão que a fé dependia dos sentimentos. Desaparecendo a emoção, em muitos casos, desaparecia também a fé.

 70. Os movimentos de encontro tiveram o mérito de apresentar e vivenciar um modelo de Igreja mais atraente para os jovens: igreja-comunidade, alegria, celebrações animadas e criativas. Aproximou os jovens dos padres. Havia uma consciência que “a Igreja somos nós”. Os movimentos de encontro provocaram o surgimento de muitos grupos de jovens nas paróquias e foram um dos fatores que contribuíram para o surgimento, a seguir, de uma nova maneira de trabalhar com os jovens: a pastoral da juventude orgânica.

DÉCADA DOS ANOS 80: PASTORAL DA JUVENTUDE ORGÂNICA

71. No final dos anos 70 e durante os anos 80 a sociedade brasileira passa, novamente, por profundas mudanças (a sociedade civil exige a volta da democracia) que acabam influindo na maneira de conduzir a ação evangelizadora juntos aos jovens.

 72. Os diferentes setores da sociedade civil começam a se organizar para exigir a volta do estado de direito: os estudantes, os intelectuais, os advogados, os professores, os operários. Os jovens voltam às ruas. As bandeiras são: direitos humanos, anistia para os exilados, pelas liberdades democráticas, “diretas já!”...

 73. Politicamente os jovens haviam mudado de progressistas para conservadores durante a primeira parte da década de 70, preocupando-se principalmente com seus problemas pessoais. Agora aparece outra geração. A partir da segunda metade dos anos 70 e tomam mais força nos anos 80 o enfoque é a centralidade das utopias (sonhos, esperanças de um mundo melhor), começando com a conquista da democracia. As lideranças são muito influenciadas pela cultura moderna e a importância dada à razão, às teorias e às ideologias. São líderes que estudam e lêem muito e que gostam dos debates e confronto das idéias.

 74. Há necessidade de adequar a evangelização para acolher os novos valores de liberdade, de participação política e de consciência crítica. Surge uma nova geração de jovens católicos que são protagonistas do seu próprio processo de educação na fé e que possa dialogar com a nova realidade que está nascendo[2].

 75. Verifica-se o surgimento de muitos grupos de jovens nas paróquias, mas estes grupos estavam isolados, sem projeto pastoral e sem objetivos claros. Para tirá-los da superficialidade das suas reuniões sem preparação e da rotatividade dos seus membros foi estabelecida uma rede destes grupos que pudesse facilitar o encontro com outros jovens, acumular e sistematizar as experiências, clarear o projeto pastoral e desencadear processos grupais de educação na fé através de um planejamento participativo.

 76. A ação evangelizadora da juventude passou a ser planejada e avaliada pelos próprios jovens e seus assessores, nos diferentes níveis da Igreja: diocese, regional e nacional. Assim nasce a Pastoral da Juventude Orgânica[3] A Pastoral da Juventude se organiza, num primeiro momento, em nível de dioceses, depois em nível de alguns regionais.

 78. O novo modelo de organização se firmou rapidamente, a partir de assembléias diocesanas e nacionais. Iniciou-se a experiência de uma pastoral coordenada pelos próprios jovens e assessorada por adultos.

 

DE 1990 A 2005: PASTORAL DA JUVENTUDE E MOVIMENTOS INTERNACIONAIS

 

82. Na década de 90 acontecem mudanças que abalam o mundo. Em novembro de 1989 cai o muro de Berlim, símbolo da queda do Socialismo Real. O modelo de Capitalismo Neoliberal, com suas propostas de privatização das empresas estatais e o afastamento do Estado do jogo de livre mercado, se apresenta como vencedor. Paralelamente há uma mudança cultural. A pós-modernidade se fortalece e acentua a centralidade das emoções e a subjetividade. Agora se percebe “uma nova geração de jovens definitivamente desligada das identidades dos anos 60 e 80”.

 83. A evangelização da juventude agora trabalha no contexto de uma cultura voltada para a subjetividade e os sentimentos, há uma crise da estrutura de organização que acompanha os grupos. Não há um investimento da Igreja na evangelização da juventude como nos anos 80. Isso apesar do documento de Santo Domingo ter reafirmado a opção preferencial pelos jovens de Puebla, não só de modo afetivo, mas efetivamente. Há uma carência de assessores adultos, deixando, em muitos lugares, uma situação em que jovens sem experiência são obrigados a assessorar jovens.

 84. (...) Surge, em algumas dioceses, o questionamento sobre a necessidade de formar uma coordenação mais ampla que procura canalizar e somar todas as forças vivas (Pastoral da Juventude, Movimentos Apostólicos, Pastoral de Crisma, Pastoral de Catequese, Pastoral das escolas católicas, Congregações Religiosas cujo carisma é a juventude) que trabalham com jovens, sonhando com um trabalho orgânico e diferenciado.

 86. Igreja do Brasil alegra-se, ainda, - neste momento - com 11 Institutos e Centros de Pastoral da Juventude[4] – muitos apoiados por Congregações Religiosas - que estão articulados em rede em nível nacional e continental e que oferecem um apoio estável e especializado para a tarefa de evangelização dos jovens, com cursos a médio e longo prazo, subsídios, equipes volantes etc. Há mais de 40 documentos, cadernos de estudo e subsídios de formação elaborados pelos diferentes Centros e pelo Setor Juventude da CNBB e do CELAM. Todos os anos são publicados mais novos para responder a diferentes necessidades da juventude. Os Centros têm enfoques e especializações diferentes numa linha de espiritualidade, de capacitação técnica, de bíblia, de cursos de longa duração. Foi através destes Centros, inclusive, que se levou para dentro da Academia, um Curso de Pós-Graduação sobre Juventude.

 87. De novo, as mudanças na sociedade apresentam um desafio para a evangelização da juventude. Não há necessidade de mudar toda a metodologia Mas, há uma experiência acumulada que precisa ser adaptada a nova realidade. Há elementos da metodologia que precisam ser mudados, novos elementos integrados, novos enfoques e novo ponto de partida para conectar a proposta evangelizadora com a vida dos jovens. Nesta tarefa de elaborar um novo instrumento teórico para evangelizar a juventude não estamos apenas iniciando. Há um bom caminho andado e há experiências bem sucedidas em diferentes lugares do país.

 2. Julgar: critérios para a evangelização da juventude

 Na primeira parte procuramos escutar e compreender os gritos e clamores desta geração de jovens que a Igreja é chamada a evangelizar na atualidade. Neste segundo momento queremos refletir sobre esta realidade à luz dos critérios da Palavra de Deus e do Magistério. De modo especial queremos interpretar a situação dos jovens à luz do objetivo geral da Igreja do Brasil que é o ponto de convergência para toda a ação pastoral: o tipo de jovem, o tipo de comunidade e o tipo sociedade que a Igreja quer construir.

 Queremos, então, agora, enfocar a evangelização da juventude a partir dos seguintes eixos temáticos:

1.      O Seguimento de Jesus Cristo

2.      A Igreja, Comunidade dos seguidores de Jesus

3.      Construção de uma sociedade solidária

 

1. O SEGUIMENTO DE JESUS CRISTO

 91. O culto aos heróis está presente em todas as culturas e de modo especial nas culturas juvenis. Ciente desta necessidade, a indústria de música fabrica artificialmente ídolos para os jovens a fim de vender seus produtos. Como ídolos, são objetivos de amor, admiração e identificação. Os jovens imitam seus valores, suas atitudes, sua maneira de vestir. Os heróis ou ídolos funcionam como espécie de mapa para os jovens que se sentem numa terra estranha. Tentam firmar uma nova identidade (não é mais criança, mas também ainda não é adulto) numa cultura contemporânea onde o excesso de pluralismo e o relativismo de valores levam a fragmentação. O ídolo atrai porque os jovens vêem nele (nela) algo que preencha a necessidade de construir sua identidade.

 92. A busca juvenil de “modelos” e “referências” é uma porta que se abre para o processo de evangelização. Aqui está a grande oportunidade da ação evangelizadora de colocar os jovens em contato com modelos autênticos. Trata-se de uma oportunidade de apresentar, de modo especial, Jesus Cristo como o grande ídolo de sua vida, para que se possa dizer com São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

 93. Não basta apresentar Jesus de dois mil anos atrás. É importante criatividade pastoral para apresentá-lo dentro do contexto que o jovem vive hoje e como resposta às suas angústias e aspirações mais profundas. “Devemos apresentar Jesus de Nazaré compartilhando a vida, as esperanças e as angústias do seu povo” (DP 176). Um Jesus que caminha com o jovem como caminhava com os discípulos no caminho para Emaús – escutando, dialogando e orientando.[5]

 94. Jesus Cristo é o ponto culminante da ação de Deus na história humana. O Verbo se fez carne e morou em nosso meio. É o fato mais decisivo da história da humanidade. Jesus é o rosto humano de Deus. É testemunho do amor infinito de Deus que se revela em seus ensinamentos, em seus milagres e seu exemplo de vida. A partir da sua morte e ressurreição, o cristianismo nasceu e se espalhou como Boa Nova para a humanidade.

 95. A fé é, sobretudo, um encontro pessoal com uma pessoal: a pessoa de Jesus Cristo. Continua atual o desafio lançado por João Paulo II aos jovens brasileiros: “É urgente colocar Jesus como alicerce da existência humana (...) Os melhores amigos, seguidores, apóstolos de Cristo, foram sempre aqueles que perceberam um dia dentro de si, a pergunta definitiva, incontornável, diante da qual todas as outras se tornam secundárias e derivativas: ‘Para você, quem sou eu?’A vida, o destino, a história presente e futura de um jovem, depende da resposta nítida e sincera, sem retórica, sem subterfúgios, que ele puder dar a esta pergunta. Ela já transformou a vida de muitos jovens”[6].

 A Vocação de Discípulo

96. Jesus congrega ao seu redor um círculo de discípulos que o seguem. É nesta vida “comunitária” que vão aprender o sentido de vida que Jesus vivia e apresentava. O relacionamento é diferente. Não devem se chamar de rabi, mas de irmãos (Mt 10, 24-25). Os Evangelhos mencionam, em primeiro lugar, os Doze (Mt 10,1) e, depois, para além desse pequeno grupo mais seleto, os setenta e dois que ele envia em missão (Lc 10,1) e todos os demais que seguem (Mt 8,21). Jesus sabia que não estaria muito tempo com eles. Precisava formar e transformá-los para a missão que deveriam assumir com seu retorno ao Pai, com eles continuando a ser caminhos do Caminho, referências da Referência, modelos do Modelo, isto é, a serem “discípulos”.

 97. O jovem – assim como todo o cristão - é convidado por Jesus a ser discípulo. O convite é pessoal, a partir de algo que sentia nele, procurando “modelos”: “Vem e segue-me” (Lc 18,22). Ele sempre chama os seus pelo nome (cf Jo 10,4). O entusiasmo provocado pelo convite é revelado por André que corre em busca do seu irmão Simão Pedro e lhe anuncia jubiloso: “Encontramos o Messias”. O seguimento e o testemunho, até dar a vida, são dois aspectos essenciais da resposta do discípulo. O relacionamento entre o Mestre e o discípulo significa uma vinculação pessoal com ele: “Vós sois meus amigos” (Jo 15,14).

 98. Segui-lo significa romper com o “passado”, o não-sentido e calcar sua conduta na dele, ouvir seu ensinamento e conformar sua vida com a dele (Mc 8,34; 10,21; Jo 12,26). A ação evangelizadora exige que os jovens tenham contato com outros jovens e adultos que espelham em suas vidas a pessoa e projeto de Jesus. O bom sonho não é vivido sozinho. O apóstolo Paulo encontra Jesus ressuscitado no caminho de Damasco, deixa tudo para trás para seguí-lo e proclama: “Eu sei em quem acreditei!” (2Tm 1,12). O seguimento envolve alegria, crescimento, a ampliação de horizontes. É a vivência jubilosa do sentido encontrado num “modelo”. Envolve, também, disciplina, a capacidade de enfrentar obstáculos, de remar contra a correnteza, de não desistir quando as águas turvas das tempestades da vida sacodem a barca. Se quisermos viver como discípulos dele, seguindo suas pegadas, teremos de abraçar a cruz (cf. Mt 10,38; 16,24) porque, se o trigo não morrer, não produzirá fruto (cf Jo 12,24).

 99.A grande “seguidora”, a grande exemplo de seguimento do “modelo”, do Caminho, nós a encontramos em Maria. Nela podemos encontrar todas as características do “discipulado”: a escuta amorosa e atenta (cf Lc 1, 26-38), a obediência à vontade do Pai (cf Lc 1,38), a fidelidade a ponto de acompanhar seu filho ao pé da cruz (cf Jo 19,25-27).

 100. O desafio para o jovem – assim como para todo que aceita Jesus como “Caminho” - é escutar a voz de Cristo no meio de tantas outras vozes. Os “modelos” são muitos. O jovem escuta a voz do Mestre de diferentes maneiras. Ninguém ama quem não conhece. A ação evangelizadora deve ajudar o jovem a ter contato direto com Jesus Cristo nos Evangelhos: sua mensagem, suas atitudes, sua maneira de tratar as pessoas, de acolher os pecadores, sua coragem profética e a coerência entre seu discurso e sua vida. Vai ver isso na leitura (orante) dos Evangelhos e na vida comunitária. Os Evangelhos assinalam com freqüência que Jesus orava e passava horas e noites em oração diante do Pai. O jovem quer ver “seguidores” rezando... Jesus orava antes de tomar as decisões importantes da sua missão. As celebrações e a oração são espaços importantes onde este encontro pessoal acontece e é aprofundado, no silêncio e na contemplação do testemunho. O jovem, junto com sua comunidade, aprende a escutar a voz de Deus no meio das circunstâncias próprias de nosso tempo. O mistério da Encarnação.

 101. A participação em grupo ou comunidade é condição necessária para a formação do discípulo. É que o encontro com Cristo é real, passando pela vida afetiva. No grupo, na comunidade ou numa pastoral onde reina um ambiente de alegria, de amizade, de carinho, de acolhida e de respeito pelas diferenças é mais fácil entender que Deus é amor. É mais fácil entender que a fórmula da sua felicidade está contida no mandamento novo: amar a si, amar o outro e amar a Deus. O encontro com Cristo envolve o racional, mas, também, os sentimentos e a convivência.

 103. Jesus revela um mistério: que o pobre é o sacramento da sua presença em nosso meio. Precisamos ser mais caminho para os que andam sem caminho, isto, é, sem esperança e com sua dignidade espezinhada. “Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e vieses ver-me” (Mt 25, 35-36). O pobre, para quem descobriu em Jesus o “modelo”, é alguém que ronca e não nos deixa dormir em paz. Jesus alerta contra o perigo da prioridade dada às riquezas materiais, raiz da má distribuição de renda e outras injustiças sociais. A riqueza pode ser uma tentação para a apresentação de outros modelos. Há uma pergunta que não pode deixar de nos incomodar: Por que a verdade de nossa fé não teve maior incidência social num continente de cristãos? “O discípulo se compromete com coerência de vida e de ação na transformação dos sistemas políticos, econômicos, trabalhistas, culturais e sociais que mantêm na miséria espiritual e material milhões de pessoas em nosso continente.”[7]

 104.O encontro do discípulo com o Mestre é sempre uma energia que leva à conversão pessoal e social. Por isso lemos em Puebla que “solidários com os sofrimentos e as aspirações do nosso povo, sentimos a urgência de lhe dar o que é nosso especificamente: o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus. Sentimos que esta é a ‘força de Deus’ (Rm 1, 16), capaz de transformar nossa realidade pessoal e social e de encaminhá-la para a liberdade e a fraternidade, para a manifestação plena do Reino de Deus” (DP 181).

 2. IGREJA, COMUNIDADE DOS SEGUIDORES DE JESUS

 105. Quando bem apresentados – com metodologia e testemunho - os jovens se empolgam com a pessoa e o projeto de Jesus Cristo. Por que, contudo, frente à Igreja, mostram muita resistência? A imagem que muitos jovens têm da Igreja é de algo ultrapassado, autoritário, burocrático, e que fala uma linguagem que não conecta com sua vida. Jovens universitários, freqüentemente encontram nos seus estudos a imagem de uma Igreja apresentada como cúmplice com a injustiça e, em diferentes situações históricas, contra o progresso humano. Nas cidades grandes, onde a penetração da modernidade e da pós-modernidade está mais forte, chama à atenção a ausência dos jovens, de modo especial, os jovens com nível social e de escolaridade maior e onde não há um trabalho pastoral específico com jovens. Em alguns lugares a Igreja se afastou e perdeu a juventude.

 107. No trabalho pastoral é importante levar os jovens a entender a Igreja como mistério que persevera através da história humana devido à presença do Espírito Santo. A Igreja existe não somente para ser um lugar de encontro agradável, de segurança dos que partilham a mesma fé; ela existe para evangelizar”, isto é, para anunciar a Boa Notícia do Reino, proclamado e realizado em Jesus Cristo (cf EN 14), através de nossas fragilidades e riquezas.

 108. Diante destes interrogativos acima poderíamos, quem sabe, visualizar duas grandes carências: uma visão mais otimista da Igreja com relação ao jovem como uma realidade teológica, e uma visão mais real do jovem com relação à Igreja em suas verdadeiras características e missão.

 121.     A Igreja não existe para si mas para construir o Reino. A Igreja, comunidade dos que crêem em Jesus, constitui o germe e o início deste Reino, que, como fermento na massa ou pequena semente, torna-se imensa árvore. O Reino é mais amplo do que a Igreja.

 3. CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE SOLIDÁRIA

PJ – Paróquia São João Batista

 Encontro de Jovens “O Chamado”

Subsídio de estudo

A 44ª. Assembléia Geral da CNBB acolheu o tema da evangelização da juventude como prioridade. Diz o documento de trabalho logo no número 1: “A juventude está no coração da Igreja e é fonte de renovação da sociedade. Cientes desta importância, nós, pastores, carinhosamente acolhemos o tema da evangelização da juventude para refleti-lo à luz de tantas riquezas e desafios deste momento histórico-cultural em que vivemos”.

 Este mesmo documento de trabalho nos oferece um material muito rico, sobre o qual podemos repensar nosso trabalho de evangelização, de modo especial aqui os nossos encontros de jovens.

 Por isso, esse breve subsídio quer ajudar nesse processo de reestruturação de alguns pontos para as nossas atividades, focalizadas em 3 pilares: “Ver a realidade” – “Julgar/Refletir” – “Agir/Pistas de ação”

 1. Ver: Elementos para o conhecimento da realidade dos jovens

 O texto da CNBB elenca alguns desafios da atual cultura pós-moderna que influenciam no processo de evangelização dos jovens e “no fenômeno da indiferença de uma parcela da juventude frente à Igreja”. Gostaríamos de colocar em relevo o primeiro elemento, que nos toca diretamente: é a crescente valorização da subjetividade.

 21. A subjetividade é um valor central. Trata-se de uma tendência que se acentua cada vez mais, não apenas entre os jovens. Setores da geração de jovens dos anos 80, que abraçavam um ideal coletivo de construir um mundo melhor, foram substituídos por uma geração com maior preocupação com as necessidades pessoais, com os sentimentos, com seu corpo, com a melhora da auto-estima, com a confiança, com a libertação dos traumas etc. O descrédito das ideologias faz com que muitos jovens já não se projetem para o futuro. Este fenômeno tem o efeito de concentrar-se, no momento atual, na busca de sensações e emoções passageiras.

 22. Há uma mudança das estruturas-macro, na sociedade, para os problemas cotidianos. Surge, então, a necessidade de manter um equilíbrio entre o projeto individual e o projeto coletivo. Steinem, estudioso desse fenômeno expõe o desafio desta maneira: "É como se os dois grandes movimentos de nosso tempo, o movimento pela justiça social e o movimento pela auto-realização, fossem duas metades de um todo esperando para se juntar em grupos realmente revolucionários". [1]

Entendendo o que é subjetividade:

“Subjetividade” é o lado oposto da “Objetividade”. Em sentido comum, a subjetividade diz respeito àquelas “coisas” que são exclusivas de uma pessoa: “meu ponto de vista”, “meu modo de viver e pensar”, etc. Isso é um valor positivo, na medida em que eu me enxergo diferente dos outros. Porém, a subjetividade pode conter um valor negativo quanto ela se torna absoluta, isto é, quando eu me fecho para qualquer idéia ou projeto que não me “diga respeito”, “que não me agrade”. Desaparece, assim, a vivência em grupo, onde os ideais são partilhados e vividos em comum. Me empenho somente em meus projetos pessoais, e deixo para lá os projetos da família, da comunidade, da Igreja, da sociedade.

 Um olhar sobre a experiência acumulada da Igreja na evangelização da juventude

Vale a pena agora, antes de prosseguir, lembrar a história da evangelização da juventude no Brasil, ainda que brevemente. “Em cada época, na medida em que mudavam os desafios, os enfoques, os valores e o ambiente cultural da sociedade a mentalidade dos jovens também mudava. Os jovens são mais sensíveis às mudanças e propensos a aceitar o novo. Tudo que acontece na sociedade tem seus reflexos na ação pastoral com a juventude. Os jovens que são atingidos pela ação evangelizadora estão inseridos simultaneamente na sociedade e na Igreja. Para cada época há necessidade de adequar as concepções e as práticas de evangelização para conectar com os jovens. Aprendemos com os erros e com as conquistas do passado. Contudo, nem tudo muda de uma época para a outra. Mudam, às vezes, os enfoques, o ponto de partida, alguns elementos da metodologia. Mas também há elementos que continuam e devem continuar”.

 

Vale a pena perceber, para o nosso propósito, o surgimento do “movimento de encontros” na década de 70, confrontando com o que estamos fazendo na atualidade e com as propostas de mudanças que estão surgindo a partir do novo contexto em que estamos vivendo hoje.

 

DÉCADA DE 1960: AÇÃO CATÓLICA ESPECIALIZADA

 62. Inicia-se o resgate do período em torno do Concílio Vaticano II. Nos anos 50 e 60, do século XX, há mudanças profundas acontecendo na sociedade: crescimento econômico, industrialização, urbanização, revoluções políticas e no comportamento. No Brasil o movimento popular no campo e nas cidades e o movimento dos estudantes estão crescendo, pressionando para a efetivação de reformas de base e da reforma agrária. Paulo VI escreve sua encíclica Populorum Progressio.

 63. Pio XI havia convocado os fiéis a se organizarem para enfrentarem os desafios que a situação mundial colocava para a Igreja no começo do século XX. Surgiu, em muitas partes do mundo, também no Brasil, a Ação Católica Geral (movimento de leigos inspirados no trabalho de Pe. Lanteri, segundo o Papa Pio XI). Numa segunda fase, a Ação Católica Especializada foi muito influenciada pelo Papa Pio XII e o Cardeal Cardjin. Cardjin percebe que com a revolução industrial, a sociedade havia mudado radicalmente. A nova cultura não considera mais a religião como o centro de tudo. Vários grupos passam a hostilizar a religião como "ópio do povo" e como anti-intelectual e há setores onde a Igreja não tem mais acesso, de modo especial, o operariado. É necessário mudar de estratégia pastoral. Precisa sair da sacristia e ir ao encontro desse povo nos lugares onde ele se encontra. A solução era o envolvimento do laicato na missão de evangelização. Trata-se de um grande exército que poderia ser mobilizado. A tarefa de evangelizar os jovens operários, camponeses e estudantes seria feita por outros jovens, dentro do seu ambiente.

 64. A Ação Católica Especializada desenvolveu uma nova metodologia para enfrentar os desafios de uma sociedade em transformação. necessidade de partir da vida dos jovens. Surge o método Ver-Julgar-Agir que continua sendo um importante instrumento na ação pastoral da Igreja hoje. Os pequenos grupos e a organização dos grupos em rede se tornam uma estratégia importante de envolvimento e formação dos jovens. É forjada uma espiritualidade que desperta os jovens para o engajamento na comunidade eclesial e na sociedade.

65. A nova proposta iria revolucionar a pedagogia dentro da Igreja tradicional, de modo especial na América Latina. Essa nova metodologia fez surgir uma nova espiritualidade, unindo fé e vida. Com o tempo a metodologia é assimilada pela Igreja mais ampla e leva a instituição a analisar os problemas sociais a partir da ótica dos empobrecidos e apoiar suas lutas de transformação social. 

DÉCADA 1970: MOVIMENTO DE ENCONTROS

67. Efetua-se, então, agora uma mudança radical da sociedade brasileira. O governo militar se radicaliza. A repressão e a censura não aceitam a discórdia e a contestação. Surge outra maneira de trabalhar com a juventude, mais adaptada a esta nova realidade, principalmente política: os Movimentos de Encontro.

 68. Os Movimentos de Encontro reuniam jovens para encontros de fim de semana, usando uma metodologia que se inspirava no Cursilho de Cristandade, um movimento para adultos, nascido na Espanha e depois adaptado aos jovens. Os encontros eram coordenados por adultos e alguns jovens que participavam com tarefas secundárias. Nas palestras dava-se importância ao testemunho pessoal dos próprios palestristas, evitando-se palestras muito intelectualizadas. O testemunho pessoal comovia mais. Os dirigentes procuravam criar forte impacto emocional de várias maneiras: mensagens de parentes e amigos, depoimentos nas palestras, acolhida, amizade e atenção individual mostradas pelos dirigentes, liturgias participativas, oração espontânea, e música animada. Na base dos encontros: uma experiência forte, emocional, de encontro com Deus e de conversão. Os movimentos visavam resolver apenas os problemas pessoais dos jovens. A solução do problema social dependia da mudança de cada um individualmente.

 69. Num primeiro momento esta nova forma de evangelização teve êxito considerável. Num segundo momento começaram a aparecer dificuldades. Depois do encontro não havia proposta viável de continuidade. Havia sim: engajamento no próprio movimento. Os jovens iam trabalhar nos encontros seguintes. Foi-se percebendo, também, os limites de uma metodologia de impacto emocional. A dependência excessiva numa metodologia de impacto emocional deixa a impressão que a fé dependia dos sentimentos. Desaparecendo a emoção, em muitos casos, desaparecia também a fé.

 70. Os movimentos de encontro tiveram o mérito de apresentar e vivenciar um modelo de Igreja mais atraente para os jovens: igreja-comunidade, alegria, celebrações animadas e criativas. Aproximou os jovens dos padres. Havia uma consciência que “a Igreja somos nós”. Os movimentos de encontro provocaram o surgimento de muitos grupos de jovens nas paróquias e foram um dos fatores que contribuíram para o surgimento, a seguir, de uma nova maneira de trabalhar com os jovens: a pastoral da juventude orgânica.

DÉCADA DOS ANOS 80: PASTORAL DA JUVENTUDE ORGÂNICA

71. No final dos anos 70 e durante os anos 80 a sociedade brasileira passa, novamente, por profundas mudanças (a sociedade civil exige a volta da democracia) que acabam influindo na maneira de conduzir a ação evangelizadora juntos aos jovens.

 72. Os diferentes setores da sociedade civil começam a se organizar para exigir a volta do estado de direito: os estudantes, os intelectuais, os advogados, os professores, os operários. Os jovens voltam às ruas. As bandeiras são: direitos humanos, anistia para os exilados, pelas liberdades democráticas, “diretas já!”...

73. Politicamente os jovens haviam mudado de progressistas para conservadores durante a primeira parte da década de 70, preocupando-se principalmente com seus problemas pessoais. Agora aparece outra geração. A partir da segunda metade dos anos 70 e tomam mais força nos anos 80 o enfoque é a centralidade das utopias (sonhos, esperanças de um mundo melhor), começando com a conquista da democracia. As lideranças são muito influenciadas pela cultura moderna e a importância dada à razão, às teorias e às ideologias. São líderes que estudam e lêem muito e que gostam dos debates e confronto das idéias.

 74. Há necessidade de adequar a evangelização para acolher os novos valores de liberdade, de participação política e de consciência crítica. Surge uma nova geração de jovens católicos que são protagonistas do seu próprio processo de educação na fé e que possa dialogar com a nova realidade que está nascendo[2].

 75. Verifica-se o surgimento de muitos grupos de jovens nas paróquias, mas estes grupos estavam isolados, sem projeto pastoral e sem objetivos claros. Para tirá-los da superficialidade das suas reuniões sem preparação e da rotatividade dos seus membros foi estabelecida uma rede destes grupos que pudesse facilitar o encontro com outros jovens, acumular e sistematizar as experiências, clarear o projeto pastoral e desencadear processos grupais de educação na fé através de um planejamento participativo.

76. A ação evangelizadora da juventude passou a ser planejada e avaliada pelos próprios jovens e seus assessores, nos diferentes níveis da Igreja: diocese, regional e nacional. Assim nasce a Pastoral da Juventude Orgânica[3] A Pastoral da Juventude se organiza, num primeiro momento, em nível de dioceses, depois em nível de alguns regionais.

 78. O novo modelo de organização se firmou rapidamente, a partir de assembléias diocesanas e nacionais. Iniciou-se a experiência de uma pastoral coordenada pelos próprios jovens e assessorada por adultos.

  

DE 1990 A 2005: PASTORAL DA JUVENTUDE E MOVIMENTOS INTERNACIONAIS

 82. Na década de 90 acontecem mudanças que abalam o mundo. Em novembro de 1989 cai o muro de Berlim, símbolo da queda do Socialismo Real. O modelo de Capitalismo Neoliberal, com suas propostas de privatização das empresas estatais e o afastamento do Estado do jogo de livre mercado, se apresenta como vencedor. Paralelamente há uma mudança cultural. A pós-modernidade se fortalece e acentua a centralidade das emoções e a subjetividade. Agora se percebe “uma nova geração de jovens definitivamente desligada das identidades dos anos 60 e 80”.

83. A evangelização da juventude agora trabalha no contexto de uma cultura voltada para a subjetividade e os sentimentos, há uma crise da estrutura de organização que acompanha os grupos. Não há um investimento da Igreja na evangelização da juventude como nos anos 80. Isso apesar do documento de Santo Domingo ter reafirmado a opção preferencial pelos jovens de Puebla, não só de modo afetivo, mas efetivamente. Há uma carência de assessores adultos, deixando, em muitos lugares, uma situação em que jovens sem experiência são obrigados a assessorar jovens.

 84. (...) Surge, em algumas dioceses, o questionamento sobre a necessidade de formar uma coordenação mais ampla que procura canalizar e somar todas as forças vivas (Pastoral da Juventude, Movimentos Apostólicos, Pastoral de Crisma, Pastoral de Catequese, Pastoral das escolas católicas, Congregações Religiosas cujo carisma é a juventude) que trabalham com jovens, sonhando com um trabalho orgânico e diferenciado.

86. Igreja do Brasil alegra-se, ainda, - neste momento - com 11 Institutos e Centros de Pastoral da Juventude[4] – muitos apoiados por Congregações Religiosas - que estão articulados em rede em nível nacional e continental e que oferecem um apoio estável e especializado para a tarefa de evangelização dos jovens, com cursos a médio e longo prazo, subsídios, equipes volantes etc. Há mais de 40 documentos, cadernos de estudo e subsídios de formação elaborados pelos diferentes Centros e pelo Setor Juventude da CNBB e do CELAM. Todos os anos são publicados mais novos para responder a diferentes necessidades da juventude. Os Centros têm enfoques e especializações diferentes numa linha de espiritualidade, de capacitação técnica, de bíblia, de cursos de longa duração. Foi através destes Centros, inclusive, que se levou para dentro da Academia, um Curso de Pós-Graduação sobre Juventude.

 87. De novo, as mudanças na sociedade apresentam um desafio para a evangelização da juventude. Não há necessidade de mudar toda a metodologia Mas, há uma experiência acumulada que precisa ser adaptada a nova realidade. Há elementos da metodologia que precisam ser mudados, novos elementos integrados, novos enfoques e novo ponto de partida para conectar a proposta evangelizadora com a vida dos jovens. Nesta tarefa de elaborar um novo instrumento teórico para evangelizar a juventude não estamos apenas iniciando. Há um bom caminho andado e há experiências bem sucedidas em diferentes lugares do país.

 2. Julgar: critérios para a evangelização da juventude

 Na primeira parte procuramos escutar e compreender os gritos e clamores desta geração de jovens que a Igreja é chamada a evangelizar na atualidade. Neste segundo momento queremos refletir sobre esta realidade à luz dos critérios da Palavra de Deus e do Magistério. De modo especial queremos interpretar a situação dos jovens à luz do objetivo geral da Igreja do Brasil que é o ponto de convergência para toda a ação pastoral: o tipo de jovem, o tipo de comunidade e o tipo sociedade que a Igreja quer construir.

Queremos, então, agora, enfocar a evangelização da juventude a partir dos seguintes eixos temáticos:

1.      O Seguimento de Jesus Cristo

2.      A Igreja, Comunidade dos seguidores de Jesus

3.      Construção de uma sociedade solidária

1. O SEGUIMENTO DE JESUS CRISTO

 91. O culto aos heróis está presente em todas as culturas e de modo especial nas culturas juvenis. Ciente desta necessidade, a indústria de música fabrica artificialmente ídolos para os jovens a fim de vender seus produtos. Como ídolos, são objetivos de amor, admiração e identificação. Os jovens imitam seus valores, suas atitudes, sua maneira de vestir. Os heróis ou ídolos funcionam como espécie de mapa para os jovens que se sentem numa terra estranha. Tentam firmar uma nova identidade (não é mais criança, mas também ainda não é adulto) numa cultura contemporânea onde o excesso de pluralismo e o relativismo de valores levam a fragmentação. O ídolo atrai porque os jovens vêem nele (nela) algo que preencha a necessidade de construir sua identidade.

 92. A busca juvenil de “modelos” e “referências” é uma porta que se abre para o processo de evangelização. Aqui está a grande oportunidade da ação evangelizadora de colocar os jovens em contato com modelos autênticos. Trata-se de uma oportunidade de apresentar, de modo especial, Jesus Cristo como o grande ídolo de sua vida, para que se possa dizer com São Paulo: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

93. Não basta apresentar Jesus de dois mil anos atrás. É importante criatividade pastoral para apresentá-lo dentro do contexto que o jovem vive hoje e como resposta às suas angústias e aspirações mais profundas. “Devemos apresentar Jesus de Nazaré compartilhando a vida, as esperanças e as angústias do seu povo” (DP 176). Um Jesus que caminha com o jovem como caminhava com os discípulos no caminho para Emaús – escutando, dialogando e orientando.[5]

 94. Jesus Cristo é o ponto culminante da ação de Deus na história humana. O Verbo se fez carne e morou em nosso meio. É o fato mais decisivo da história da humanidade. Jesus é o rosto humano de Deus. É testemunho do amor infinito de Deus que se revela em seus ensinamentos, em seus milagres e seu exemplo de vida. A partir da sua morte e ressurreição, o cristianismo nasceu e se espalhou como Boa Nova para a humanidade.

95. A fé é, sobretudo, um encontro pessoal com uma pessoal: a pessoa de Jesus Cristo. Continua atual o desafio lançado por João Paulo II aos jovens brasileiros: “É urgente colocar Jesus como alicerce da existência humana (...) Os melhores amigos, seguidores, apóstolos de Cristo, foram sempre aqueles que perceberam um dia dentro de si, a pergunta definitiva, incontornável, diante da qual todas as outras se tornam secundárias e derivativas: ‘Para você, quem sou eu?’A vida, o destino, a história presente e futura de um jovem, depende da resposta nítida e sincera, sem retórica, sem subterfúgios, que ele puder dar a esta pergunta. Ela já transformou a vida de muitos jovens”[6].

 

A Vocação de Discípulo

96. Jesus congrega ao seu redor um círculo de discípulos que o seguem. É nesta vida “comunitária” que vão aprender o sentido de vida que Jesus vivia e apresentava. O relacionamento é diferente. Não devem se chamar de rabi, mas de irmãos (Mt 10, 24-25). Os Evangelhos mencionam, em primeiro lugar, os Doze (Mt 10,1) e, depois, para além desse pequeno grupo mais seleto, os setenta e dois que ele envia em missão (Lc 10,1) e todos os demais que seguem (Mt 8,21). Jesus sabia que não estaria muito tempo com eles. Precisava formar e transformá-los para a missão que deveriam assumir com seu retorno ao Pai, com eles continuando a ser caminhos do Caminho, referências da Referência, modelos do Modelo, isto é, a serem “discípulos”.

 97. O jovem – assim como todo o cristão - é convidado por Jesus a ser discípulo. O convite é pessoal, a partir de algo que sentia nele, procurando “modelos”: “Vem e segue-me” (Lc 18,22). Ele sempre chama os seus pelo nome (cf Jo 10,4). O entusiasmo provocado pelo convite é revelado por André que corre em busca do seu irmão Simão Pedro e lhe anuncia jubiloso: “Encontramos o Messias”. O seguimento e o testemunho, até dar a vida, são dois aspectos essenciais da resposta do discípulo. O relacionamento entre o Mestre e o discípulo significa uma vinculação pessoal com ele: “Vós sois meus amigos” (Jo 15,14).

98. Segui-lo significa romper com o “passado”, o não-sentido e calcar sua conduta na dele, ouvir seu ensinamento e conformar sua vida com a dele (Mc 8,34; 10,21; Jo 12,26). A ação evangelizadora exige que os jovens tenham contato com outros jovens e adultos que espelham em suas vidas a pessoa e projeto de Jesus. O bom sonho não é vivido sozinho. O apóstolo Paulo encontra Jesus ressuscitado no caminho de Damasco, deixa tudo para trás para seguí-lo e proclama: “Eu sei em quem acreditei!” (2Tm 1,12). O seguimento envolve alegria, crescimento, a ampliação de horizontes. É a vivência jubilosa do sentido encontrado num “modelo”. Envolve, também, disciplina, a capacidade de enfrentar obstáculos, de remar contra a correnteza, de não desistir quando as águas turvas das tempestades da vida sacodem a barca. Se quisermos viver como discípulos dele, seguindo suas pegadas, teremos de abraçar a cruz (cf. Mt 10,38; 16,24) porque, se o trigo não morrer, não produzirá fruto (cf Jo 12,24).

99.A grande “seguidora”, a grande exemplo de seguimento do “modelo”, do Caminho, nós a encontramos em Maria. Nela podemos encontrar todas as características do “discipulado”: a escuta amorosa e atenta (cf Lc 1, 26-38), a obediência à vontade do Pai (cf Lc 1,38), a fidelidade a ponto de acompanhar seu filho ao pé da cruz (cf Jo 19,25-27).

 100. O desafio para o jovem – assim como para todo que aceita Jesus como “Caminho” - é escutar a voz de Cristo no meio de tantas outras vozes. Os “modelos” são muitos. O jovem escuta a voz do Mestre de diferentes maneiras. Ninguém ama quem não conhece. A ação evangelizadora deve ajudar o jovem a ter contato direto com Jesus Cristo nos Evangelhos: sua mensagem, suas atitudes, sua maneira de tratar as pessoas, de acolher os pecadores, sua coragem profética e a coerência entre seu discurso e sua vida. Vai ver isso na leitura (orante) dos Evangelhos e na vida comunitária. Os Evangelhos assinalam com freqüência que Jesus orava e passava horas e noites em oração diante do Pai. O jovem quer ver “seguidores” rezando... Jesus orava antes de tomar as decisões importantes da sua missão. As celebrações e a oração são espaços importantes onde este encontro pessoal acontece e é aprofundado, no silêncio e na contemplação do testemunho. O jovem, junto com sua comunidade, aprende a escutar a voz de Deus no meio das circunstâncias próprias de nosso tempo. O mistério da Encarnação.

 101. A participação em grupo ou comunidade é condição necessária para a formação do discípulo. É que o encontro com Cristo é real, passando pela vida afetiva. No grupo, na comunidade ou numa pastoral onde reina um ambiente de alegria, de amizade, de carinho, de acolhida e de respeito pelas diferenças é mais fácil entender que Deus é amor. É mais fácil entender que a fórmula da sua felicidade está contida no mandamento novo: amar a si, amar o outro e amar a Deus. O encontro com Cristo envolve o racional, mas, também, os sentimentos e a convivência.

103. Jesus revela um mistério: que o pobre é o sacramento da sua presença em nosso meio. Precisamos ser mais caminho para os que andam sem caminho, isto, é, sem esperança e com sua dignidade espezinhada. “Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e vieses ver-me” (Mt 25, 35-36). O pobre, para quem descobriu em Jesus o “modelo”, é alguém que ronca e não nos deixa dormir em paz. Jesus alerta contra o perigo da prioridade dada às riquezas materiais, raiz da má distribuição de renda e outras injustiças sociais. A riqueza pode ser uma tentação para a apresentação de outros modelos. Há uma pergunta que não pode deixar de nos incomodar: Por que a verdade de nossa fé não teve maior incidência social num continente de cristãos? “O discípulo se compromete com coerência de vida e de ação na transformação dos sistemas políticos, econômicos, trabalhistas, culturais e sociais que mantêm na miséria espiritual e material milhões de pessoas em nosso continente.”[7]

 104.O encontro do discípulo com o Mestre é sempre uma energia que leva à conversão pessoal e social. Por isso lemos em Puebla que “solidários com os sofrimentos e as aspirações do nosso povo, sentimos a urgência de lhe dar o que é nosso especificamente: o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus. Sentimos que esta é a ‘força de Deus’ (Rm 1, 16), capaz de transformar nossa realidade pessoal e social e de encaminhá-la para a liberdade e a fraternidade, para a manifestação plena do Reino de Deus” (DP 181).

 2. IGREJA, COMUNIDADE DOS SEGUIDORES DE JESUS

 105. Quando bem apresentados – com metodologia e testemunho - os jovens se empolgam com a pessoa e o projeto de Jesus Cristo. Por que, contudo, frente à Igreja, mostram muita resistência? A imagem que muitos jovens têm da Igreja é de algo ultrapassado, autoritário, burocrático, e que fala uma linguagem que não conecta com sua vida. Jovens universitários, freqüentemente encontram nos seus estudos a imagem de uma Igreja apresentada como cúmplice com a injustiça e, em diferentes situações históricas, contra o progresso humano. Nas cidades grandes, onde a penetração da modernidade e da pós-modernidade está mais forte, chama à atenção a ausência dos jovens, de modo especial, os jovens com nível social e de escolaridade maior e onde não há um trabalho pastoral específico com jovens. Em alguns lugares a Igreja se afastou e perdeu a juventude.

 107. No trabalho pastoral é importante levar os jovens a entender a Igreja como mistério que persevera através da história humana devido à presença do Espírito Santo. A Igreja existe não somente para ser um lugar de encontro agradável, de segurança dos que partilham a mesma fé; ela existe para evangelizar”, isto é, para anunciar a Boa Notícia do Reino, proclamado e realizado em Jesus Cristo (cf EN 14), através de nossas fragilidades e riquezas.

 108. Diante destes interrogativos acima poderíamos, quem sabe, visualizar duas grandes carências: uma visão mais otimista da Igreja com relação ao jovem como uma realidade teológica, e uma visão mais real do jovem com relação à Igreja em suas verdadeiras características e missão.

 121.     A Igreja não existe para si mas para construir o Reino. A Igreja, comunidade dos que crêem em Jesus, constitui o germe e o início deste Reino, que, como fermento na massa ou pequena semente, torna-se imensa árvore. O Reino é mais amplo do que a Igreja.

 3. CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE SOLIDÁRIA

123. As “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil” afirmam que “participar da construção de uma sociedade ‘justa e solidária’ constitui um dos objetivos da ação evangelizadora da Igreja no Brasil”[8].

124. Ao mesmo tempo, em que a cruz faz parte da vida, o cristão vê no sofrimento e no mal um desafio, que é chamado a combater, seguindo o exemplo de Cristo e com o auxílio da sua graça. Ele se identifica com o “bom samaritano”, que socorre a vítima dos assaltantes (símbolo de toda vítima inocente do mal do mundo), sem se perguntar pela raça ou a religião dele. Ele cura inúmeras pessoas, vítimas da doença ou daquelas forças malignas que atacam os seres humanos. Ele traz uma palavra de esperança aos pobres e reparte o pão com eles, promessa de um futuro diferente, de um outro mundo possível. Ele acolhe e perdoa os pecadores. Ele é misericordioso. Estende a mão para levantar o caído, acolhe com abraço o que volta arrependido e vai ao encontro do afastado. Em tudo isso, Jesus não faz assistencialismo ou paternalismo. Devolve o ser humano às suas tarefas, às suas responsabilidades, à sua dignidade[9].

125. A sociedade brasileira é, hoje, uma das mais desiguais do mundo. Nas últimas décadas, a renda do 1% mais rico se manteve igual à dos 50% mais pobres[10]. Tal situação reflete um modelo social que propõe um ideal de consumo ilusório para os pobres (pois o consumo não passa de imagens na televisão ou na propaganda) e efetivo e sofisticado para os ricos, enquanto alimenta a difusão da violência, resultado dos muitos conflitos e tensões produzidos por este mundo desigual, incapaz de respeitar a dignidade das pessoas. Tal desigualdade, aos olhos do cristão, é um escândalo e, ao mesmo tempo, um desafio, diante do qual não basta protestar ou lamentar, mas é preciso redobrar com lucidez e perseverança o empenho na construção de uma sociedade justa e solidária. 

126. A evangelização dos jovens não pode visar somente o micro-social que tem a ver com as pequenas relações do jovem que envolve o complexo campo do grupo de amigos, da família, da amizade, da fraternidade, da afetividade, do carinho, das pequenas lutas do dia-dia. A ação evangelizadora deve também abarcar o macro-social, a relação e a preocupação com as grandes questões que afetam toda a sociedade: a maneira de organizar a economia, a política e o social. Há necessidade de formar o jovem para o exercício da cidadania como uma dimensão importante do discipulado. A dimensão política/social da fé, contudo, deve ser apresentada para os jovens de tal maneira que não fale somente para uma minoria de militantes.

 3. Agir: Pistas de Ação

 Diante dos desafios atuais e das reflexões acima expostas, repensamos a estrutura dos nossos encontros. O objetivo central parece ser o de superar uma certa concepção de “subjetividade”, que tem levado muitos jovens a abandonar os projetos comunitários, muitas vezes exigentes. Portanto, a linha básica deverá estar orientada pelo seguimento de Jesus de Nazaré, vivido em comunidade, animado pelo desejo de construção de uma sociedade solidária.

 O enfoque para o primeiro encontro (“O Chamado”) deverá assim despertar para a importância do seguimento de Jesus e para a alegria/necessidade de viver esse seguimento em comunidade, sempre em vista da construção de uma sociedade solidária (para não nos fechar no nosso “mundinho”).

 Já o segundo encontro (“Anuncia-me”) se deterá especificamente em fornecer elementos práticos para animar essa construção de uma sociedade solidária, onde todos possam se enxergar como irmãos e irmãs. Seriam temas de interesse amplo, que a cada ano podem ser mudados, de acordo com o contexto e com a necessidade (Por exemplo: Eucaristia como fonte de vida solidária, Missões populares, Cidadania: Vida e Liberdade, Os Cristãos e a política,  e outros temas que esperamos aparecerem por ai…).

 Esquema geral

 Dentro dessa perspectiva elaboramos um esquema geral para o encontro “O Chamado”. Podemos perceber algumas semelhanças com o que já estava sendo feito. Mas é preciso estar atento, pois esperamos que o enfoque seja outro! Portanto segue o esquema para “O Chamado”:

 Plano de Deus (sexta à noite)

  • Não é uma palestra, mas um momento dinâmico, de partilha e oração, que pode terminar na capela (como uma oração da noite).
  • O objetivo é despertar para o projeto de Deus para toda a criação e refletir sobre as respostas dos homens: ora respostas de cooperação, solidariedade, respeito e luta pela justiça, ora respostas de anti-projeto que o homem cria constantemente, como a injustiça, as guerras e as catástrofes ecológicas.
  • Note-se que aqui o enfoque não é “o plano de Deus para mim”. O importante aqui é despertar para o projeto, para o sonho de Deus para toda a criação e como os homens e mulheres têm respondido à esse projeto/sonho de Deus. (Pois a verdadeira vocação – o plano de Deus para mim – só pode nascer como resposta consciente que se dá frente à essas realidades).

 Tendas da reconciliação (sábado pela manhã)

  • Substitui a palestra do filho pródigo e o momento de confissão.
  • É um momento dinâmico, com uma breve abertura do dirigente, que tem como objetivo criar um ambiente para refletir sobre a nossa colaboração pessoal e comunitária (família, grupos, etc) àquele projeto de Deus para a humanidade. Temos colaborado ou não? Temos lutado pela justiça e pelo direito dos mais fracos ou temos colaborado para se criar um clima de não-fraternidade?
  • Nessa dinâmica haverão 3 “tendas”, às quais o jovem é convidado a participar livremente, sem ordem de começo, podendo passar de uma para a outra quando achar necessário. São as tendas da palavra (com cânticos meditativos e textos bíblicos que reflitam sobre o tema da reconciliação com a criação e com os irmãos), da contemplação (um espaço para a meditação silenciosa e pessoal) e a tenda da reconciliação (com a presença do padre para aqueles que quiserem uma conversa ou o sacramento da reconciliação).

Caminhando com um amigo: ser discípulo de Jesus de Nazaré hoje (sábado pela manhã)

  • O objetivo dessa palestra é despertar para as conseqüências do seguimento de Jesus no hoje de nossa história. Quais as conseqüências desse seguimento? Para Jesus foi a cruz. Ele foi crucificado por defender um projeto de justiça e fraternidade para todos, sem exclusão nem privilégios de ninguém. Mas ele não estava sozinho nisso: quis partilhar esse seu ideal com uma comunidade de amigos. Como conseqüência, seus discípulos também tiveram que lutar por esse projeto de Jesus e muitos deram a vida por ele. “E eu, estou disposto a “perder a vida” por um projeto maior do eu?” “O que significa de verdade crer em Jesus, na minha vida?”

A vida comunitária (sábado à tarde)

  • Com uma série de atividades dinâmicas e esportivas, o período da tarde será dedicado à vivência comunitária, encerrando-se com um breve momento de partilha.
  • À noite também teremos um momento de reflexão a partir de um vídeo que trabalhará a importância dos projetos de vida vividos e partilhados em comunidade.

A missão do jovem na Igreja (domingo de manhã)

  • Um momento de sala para refletir qual a missão da Igreja, qual a missão dos leigos e leigas e, dentro dessa missão, qual a missão específica dos jovens.

Maria

  • Um momento de enfoque mais vocacional. Tendo refletido sobre esse projeto de seguimento de Jesus, vivido em comunidade, para a construção de uma sociedade solidária, somos chamados a uma resposta.
  • Maria aparece como um exemplo de quem acolheu esse projeto e dedicou sua vida a ele, conforme dito mais acima: “A grande “seguidora”, a grande exemplo de seguimento do “modelo”, do Caminho, nós a encontramos em Maria. Nela podemos encontrar todas as características do “discipulado”: a escuta amorosa e atenta (cf Lc 1, 26-38), a obediência à vontade do Pai (cf Lc 1,38), a fidelidade a ponto de acompanhar seu filho ao pé da cruz (cf Jo 19,25-27).”

Bom trabalho a todos!

Equipe de coordenação dos encontros

Pastoral da Juventude – Paróquia São João Batista

123. As “Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil” afirmam que “participar da construção de uma sociedade ‘justa e solidária’ constitui um dos objetivos da ação evangelizadora da Igreja no Brasil”[8].

 

124. Ao mesmo tempo, em que a cruz faz parte da vida, o cristão vê no sofrimento e no mal um desafio, que é chamado a combater, seguindo o exemplo de Crist