O Cristão e a Política – Reflexões para uma Eleição Consciente
Por: Luis Felipe Censi e Rodrigo Assis Rosa, OMV

Caro amigo e amiga,

Colocamos à sua disposição uma série de reflexões sobre a vocação do cristão à vida política. São 4 textos seqüenciais que podem muito bem serem aproveitados sob forma de encontros com seu grupo pastoral. Oxalá essas páginas possam ajudar as nossas comunidades a tomar consciência de sua vocação política na construção do Reino de Deus.

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1º. Encontro

Estamos nos aproximando de mais uma eleição, na qual decidiremos quem serão os futuros governantes da nação. Considerando que a Igreja Católica tem como vocação contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual, vamos discutir os motivos que incitam todo cristão a se engajar na política e faremos uma reflexão sobre a necessidade de revivermos o a parábola do Bom Samaritano do Evangelho de Lucas.

A afirmação de que todos somos vocacionados à política pode ferir certos ouvidos delicados, mas com o entendimento dos termos vocação e política, acreditamos ser possível mostrar como é possível conciliar as duas coisas. A vocação é o chamado de Deus, dirigido a cada um de nós, para uma missão ou serviço em favor da comunidade. Já política é o esforço dos cidadãos no sentido de construir o bem comum (alimentação, moradia, emprego, saúde, educação, etc.). Dito isto, podemos afirmar que se efetivamente vivermos nossa vocação, certamente precisaremos em algum momento a enfrentar a política.

A busca incessante em ajudar a comunidade, se vivida intensamente deverá em algum momento tornar-se uma vocação política, que é o chamado que recebemos de Deus para tomar parte ativa na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

De fato, a Igreja é chamada ajudar a política a estar sempre voltada para o bem de todos. Esta missão não é direcionada apenas aos leigos, mas a toda hierarquia da Igreja (padres, bispos, etc.).

Na prática, o primeiro gesto concreto como resposta ao chamado de Deus para a política é sensibilizar-se diante do sofrimento do próximo. Trata-se concretamente de olhar ao nosso redor, observar os mendigos que dormem ao relento, os menores em semáforos, os garotos que olham os carros, ir às favelas, entrar em seus casebres. Mais ainda, sentir a complexidade da vida dessa gente sofrida e as manobras que são obrigados a fazer para sobreviver. É também, descobrir nestas pessoas as riquezas humanas escondidas, as capacidades que possuem e sua a vontade de trabalhar.

Muitas vezes somos como o levita e o sacerdote da parábola do “Bom Samaritano” (Lc 10, 29-37). Vemos o sofrimento das pessoas, mas preferimos passar adiante e dar desculpas para não ajudar. A indiferença talvez seja nosso maior pecado. No entanto somos vocacionados à política, para agir como o bom samaritano do novo milênio. Precisamos nos sensibilizar diante do quadro de miséria instalado em nosso país. Precisamos ter compaixão e aproximar-nos dos despojados, espancados e semimortos da sociedade.

A capacidade de ter compaixão nos faz semelhantes a Deus. O nosso Deus é aquele que vê a opressão do povo, ouve seus clamores e desce para libertá-lo. Portanto, para ser cristão verdadeiro é necessário afinar bem os sentidos. Precisamos tocar com as nossas mãos a dor do próximo, sentir o cheiro e o gosto do sofrimento alheio, ver e ouvir o clamor dos oprimidos. Nossa vocação é ver no rosto dos atribulados o rosto do Senhor. Como tarefa para os que se interessaram pelo assunto, sugerimos uma leitura orante da passagem do Bom Samaritano, refletindo a atitude de cada personagem, analisando em que medida temos sido o Bom Samaritano da nossa comunidade.

2º. Encontro

Neste encontro trataremos da necessidade urgente de reagirmos frente às injustiças sociais e mostrarmos que a evangélica opção pelos pobres é a melhor forma de responder ao chamado divino no campo político.

Faz-se necessário cada vez mais que o cristão passe a indignar-se diante das injustiças. “Indignar-se” significa assumir com seriedade nossa vocação profética que recebemos em nosso batismo. Devemos denunciar sempre e em toda parte a injustiça, a qual sempre acarreta sofrimento, violência e morte.

A vocação profética, quando assumida pelo cristão, trata-se de fazer do Evangelho um testemunho de vida, ou seja, contribuir com ações concretas que apóiam as vítimas da injustiça e da discriminação.

Outro fato importante a ser destacado é que todo cristão precisa ter o hábito saudável de denunciar. Mas denunciar o que? Devemos denunciar os desmandos, os descasos dos políticos e fazer uma proposta alternativa que defenda a dignidade para com a vida humana.

Assim como os profetas bíblicos somos chamados a apontar o dedo àqueles que desprezam a vida e violam os direitos das pessoas. Para entendermos o que realmente Cristo espera de nós, basta atentar ao belíssimo “Sermão da Montanha”, pregação talvez mais importante de sua vida pública. Nesta evangelização, Jesus cita as bem-aventuranças, e dentre elas, reserva duas para a questão da justiça. “Felizes os que têm fome e sede da justiça: pois serão saciados e Felizes os perseguidos por causa da justiça: porque deles é o Reino dos céus. (Mt 5, 6; 10)”. A grande lição que obtemos é que todo cristão é chamado a se empenhar no caminho de sua libertação e da libertação da humanidade, fazendo do dom recebido uma tarefa permanente, um empenho cotidiano, que inspira toda a sua vida.

O referencial para o agirmos deve sempre ser o oprimido e o marginalizado. Dentro da política, muitas vezes os políticos buscam a satisfação de interesses pessoais e de seus eleitores mais poderosos e acabam deixando um pouco de lado a preocupação com os mais necessitados. O cristão deve antes de tudo, pensar no bem de todos, e isto significa lutar pela redução do abismo social que torna os ricos cada vez mais ricos, às custas de pobres cada vez mais pobres. Temos que perder o hábito de votar em políticos coniventes com os poderosos.

Essa é a postura da evangélica opção pelos pobres, que não é facultativa, e sim obrigatória a todos que querem imitar o Cristo. E qual é a melhor forma de entendermos e fazermos a opção pelos pobres? É olhando no rosto do empobrecido. Mas este contato precisa ser autêntico. Esta autenticidade, significa não apenas dar aos pobres aqueles alimentos de que sobram de nossa cesta básica. É preciso conviver com os pobres, aprender com eles, deixar que eles nos evangelizem. Mas normalmente pensamos “eles não são estudados, não são formados em teologia, como vão nos evangelizar”? A resposta é muito simples, farão isto da mesma forma que Cristo fez, com muita solidariedade, serviço, simplicidade e disponibilidade para acolher dom de Deus. Trata-se de aprender a ouvir a voz dos pobres, valorizando suas manifestações de fé. Tudo isto nos mostra que optar pelos pobres é muito diferente de fazer assistencialismo barato, que deixa as coisas como estão, e enganam a nossa consciência.

Como convite para este encontro, nosso convite é para que todos procurem em seus trabalhos na Igreja, olhar no rosto dos pobres e aceitar lutar por eles, principalmente através do voto nestas eleições que se aproximam. Chega de trocarmos nossos votos por migalhas! Vamos agir como cristãos autênticos, lutando por redução das desigualdades sociais e por uma vida digna a todos.

3º. Encontro

Neste encontro, apresentaremos a tese de que a conscientização política é o melhor caminho para se alcançar o discernimento cristão. Falaremos também do processo de conhecimento e escolha dos candidatos.

O cidadão honesto, que quer agir coerentemente na busca da solidariedade, não pode remeter sua decisão quanto a seus futuros representantes a terceiros e muito menos à opinião pública. Sabemos que este repasse na decisão é muito comum, mas nós precisamos ir contra a corrente, lutar contra o oportunismo e assim buscar pessoas capazes de estabelecer relações mais humanas, que levem o bem estar à maioria. Conscientização Política significa preparação, educação e formação do povo para a busca do bem comum e da justiça.

Precisamos conscientizar as pessoas do direito e do dever de tomar parte ativa na política. Esta atitude deve ajudar os cristãos a perceber que não podemos negligenciar nossos deveres sociais, mas que exatamente pelo fato de sermos cristãos, de termos fé, temos a obrigação de cumprir de maneira muito mais correta e honesta, em consonância à vocação recebida.

A conscientização e o discernimento devem nos levar ao conhecimento dos candidatos, a fim de que possamos montar um perfil de cada um deles. Com espírito crítico, devemos avaliar sua trajetória política, conhecer seu passado, a maneira como costuma se comportar frente a questões cruciais para o bem estar da nação. Trata-se de um trabalho árduo, mas necessário. A sugestão é que cada comunidade se organize para chegar a tal objetivo. A Igreja pode dar sua contribuição através de pessoas capacitadas, instrumentos de trabalho e acesso livre a banco de dados sobre os candidatos. Uma atitude concreta deste trabalho que pode ser efetuada é estudar os programas de governo dos candidatos, assim como alguns projetos destes candidatos frente aos problemas da fome, da violência e da educação.

Uma outra dica que sugerimos seria ler e discutir um caderno de Orientações da CNBB intitulado Eleições 2006. Trata-se de uma reflexão sobre os grandes desafios do contexto atual e algumas das principais questões que deveriam estar presentes do debate político. Tal livro pode ser encontrado em qualquer livraria católica e custa em torno de R$ 2,00.

É preciso analisar, dentre os candidatos existentes, e decidir por aquele que mais se aproxima dos princípios éticos que julgamos essenciais. Ele não precisa ser necessariamente católico ou cristão, basta que lute por justiça e pelos mais necessitados, empobrecidos e oprimidos.

Um cuidado adicional que devemos ter no momento da escolha é não nos impressionarmos pela retórica, ou seja, pela “beleza” das palavras. Devemos ficar atentos para não cairmos na armadilha do “discurso religioso”. Daí a necessidade de avaliarmos a prática, a ética e o compromisso de tais pessoas. Para o eleitor cristão, que quer votar com seriedade, seguindo os princípios evangélicos, o que vale mesmo é aquilo que o candidato pratica.

4º. Encontro

Neste último encontro, o enfoque será para a necessidade de pensarmos na preparação de candidatos cristãos para a política, assim como começarmos a acompanhar e fiscalizar a ação dos políticos em geral.

Um sentimento muito comum à população de um modo geral é de que não existem candidatos de qualidade que mereçam nossa confiança e nosso voto. A CNBB, em um de seus estudos, nos alerta: “Se queremos pessoas mais honestas e mais sérias, temos que prepará-las, criá-las”.

Uma das possibilidades sugeridas pela Igreja para dar suporte à esta necessidade seria a inserção na pauta das reuniões da pastoral vocacional, de modo especial, e das demais pastorais “por tabela”, de assuntos relacionados à política. E com isto, atrair e motivar aqueles que se sentem vocacionados para atuação neste espaço tão importante da sociedade.

Atualmente a nossa reação como Igreja, diante da corrupção dos políticos tem sido ineficaz, somente denúncia vazia. Precisamos começar a agir concretamente e a saída mais proativa é incentivar que os cristãos atuem na sociedade como fermento evangélico de novas práticas éticas.

De um modo geral, encerradas as eleições, normalmente os candidatos eleitos são como que abandonados pelos eleitores. Durante seus mandatos, tomam até atitudes contrárias aos interesses do povo e na eleição seguinte, se apresentam para a reeleição. Neste exato momento, cabe a cada um de nós efetuar uma análise crítica diante de suas ações durante o mandato, verificando sua honestidade e fidelidade aos interesses da população.

Para ajudar nesta atitude concreta de fiscalização, sugerimos que aqueles que têm acesso à internet conheçam o excelente trabalho da ONG Transparência Brasil (http://perfil.transparencia.org.br/), que apresenta detalhes sobre todas as votações, gastos e enriquecimento dos políticos.

Além disso, devemos ficar atentos ao resultado da campanha "Por um Parlamento em Defesa da Vida", que a Igreja Católica está criando para pressionar os candidatos nas próximas eleições para que assumam compromissos contra o aborto.

A CNBB também reforça esta posição com estas palavras: “Será preciso verificar se os eleitos estão sendo fiéis aos compromissos assumidos e coerentes com a opção dos que os elegeram. Será indispensável acompanhar, fiscalizar, oferecer novas contribuições e até mesmo pressionar para que os políticos exerçam seus mandatos como verdadeiro serviço ao bem comum, e sintam que estão sendo seguidos, apoiados, questionados ou criticados pelo povo.”

Mas vale lembrar que não podemos cobrar dos outros aquilo que não praticamos. Nós cristãos devemos ser os primeiros a dar bom exemplo, agindo com honestidade e retidão na sociedade. Devemos dar testemunho de valores humanos ligados à atividade política: como a liberdade, a justiça, a solidariedade, a dedicação fiel e desinteressada ao bem de todos, o estilo simples de vida e a evangélica opção pelos pobres.

O Brasil, país com o maior número de católicos do mundo, é também onde se tem a maior desigualdade social. Por isto, é urgente a necessidade dos cristãos em procurar atitudes e comportamentos mais adequados às exigências do Evangelho.

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Bibliografia:
OLIVEIRA, J.L.M. DE. Nossa resposta ao Amor. Teologia das vocações específicas. São Paulo: Loyola/IPV, 2001.
______________. Teologia da vocação. Temas fundamentais. São Paulo: Loyola/IPV, 1999.

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