NOVOS DESAFIOS PARA A EVANGELIZAÇÃO
As atuais Diretrizes gerais da ação evangelizadora
da Igreja no Brasil 2003-2006 Documento 71 da CNBB) nos apresentam,
no capítulo II, informações importantes a
respeito dos desafios que estamos enfrentando nestes nossos tempos.
Desafios que temos que conhecer e (tentar) superar se queremos
que a evangelização da Igreja seja frutuosa, e não
superficial.
O documento da CNBB aponta o processo de globalização
como o grande responsável por uma mudança geral
de mentalidade, o que traz conseqüências para todos
nós que estamos inseridos nesse mundo globalizado e, por
conseqüência, também repercute no nosso trabalho
pastoral.
A primeira dificuldade é que essa globalização
provoca crescimento econômico muito desigual, favorável
para alguns e negativo para muitos outros. Apesar de aspectos
positivos da globalização (maior produção
e circulação de bens, facilidade de comunicação,
progressos tecnológicos), a impressão que se tem
é que ela está causando um “medo geral”.
Sim, a sociedade está com medo das catástrofes
climáticas e ecológicas, as catástrofes químicas
e atômicas, todas elas como conseqüência da ação
humana agressiva e irresponsável. Mesmo quem não
se preocupa com esses fenômenos mundiais, tem medo de perder
o seu emprego, tem medo da insegurança com relação
ao seu futuro e tem medo da violência cotidiana, inclusive
aquela que acontece dentro de casa.
Diante disso, dessa incerteza e do risco, “a reação
das pessoas é a busca do imediato, da satisfação
aqui e agora”. O que importa é a minha
felicidade. Cada pessoa se considera dono absoluto de suas decisões,
mesmo que elas desrespeitem as orientações da sociedade
ou do grupo (escola, igreja, partido, etc...). “A busca
da felicidade, da realização pessoal, da satisfação
do indivíduo”, que não são coisas
ruins, mas legítimas, “tomadas, porém, como
absolutas” (isto é acima de qualquer outra coisa),
“têm conseqüências negativas sobre as relações
sociais, as instituições, os compromissos duradouros,
que se tornam frágeis e facilmente descartáveis”.
Outro desafio que o documento aponta como preocupante é
que esse nosso mundo atual “aprecia a novidade e tende a
desprezar a tradição e a sabedoria dos antigos (...).
O indivíduo constrói a própria identidade.
Por outro lado, muitos correm o risco de não ter mais uma
identidade estável e bem definida. A aceleração
das mudanças contribui para deixar as pessoas estressadas
ou desnorteadas”. Temos cada vez mais informação,
e em tempo cada vez mais rápido, mas pouco tempo deixamos
para que essas informações façam eco em nossa
vida, criem raízes e nos ajudem a repensar o mundo. Muita
agitação e pouca contemplação podem
ser um perigo para a formação da nossa identidade.
“Outra tendência é a inversão
de sentido da experiência religiosa. A religião
deixa de ser pensada e vivida como uma forma de reconhecimento,
entrega ao Criador, serviço a Deus. Torna-se busca de
utilidade para o indivíduo, seja ela um sentido para
a vida, paz interior, terapia ou cura de males, sucesso na vida
e nos negócios (...). Dessa forma, a religião, longe
de desaparecer, é intensa e difusamente procurada, inclusive
na mídia, como não se via a anos. A mídia
pode banalizar a religião, reduzi-la a mais um espetáculo
para ‘entreter’ o público (...). Conseqüentemente,
ninguém se sente responsável por corrigir o que
está errado na sociedade”, onde existem ao mesmo
tempo, de maneira muito estranha e contraditória, “muita
religiosidade e muita criminalidade, busca de Deus e injustiça”.
Estranho, não é?
No que diz respeito especificamente aos jovens, a revista Família
Cristã publicou um artigo no mês de outubro
no qual trazia o resultado de uma pesquisa feita com jovens das
escolas públicas e privadas da Grande São Paulo.
Nessa pesquisa, o psicólogo Yves de la Taille conseguiu
alguns dados interessantes, que ajudam a conhecer melhor os anseios
e valores dos adolescentes e jovens de hoje.
Alguns dados interessantes nessa pesquisa são:
• os adolescentes e jovens atribuem grande confiança
àquelas pessoas mais próximas a eles (pais e amigos)
e se sentem bem mais influenciados por eles. Do outro lado, as
instituições (escola, religião, política)
não recebem grande confiança;
• a vida pública (isto é, aquilo que está
fora da intimidade familiar e das amizades de confiança)
é vista como ameaçadora, pois os adolescentes e
jovens consideram que existem mais adversários do que amigos
e mais agressividade do que diálogo;
• muito mais que ser amados, os adolescentes e jovens
querem ser tratados de forma justa ou viver uma vida que valha
a pena, que tenha sentido.
Uma das conclusões a que o autor chega é essa: o
jovem parece que quer abolir o espaço público (pensem
nos nossos encontros pastorais) e recolher-se no espaço
privado (da família e dos amigos). “Ora, como tanto
o progresso da sociedade quanto a realização de
uma vida que valha a pena ser vivida dependem das esferas públicas
e dos demais membros da sociedade, íntimos ou não,
podemos inferir um certo mal-estar no jovem de hoje”.
Algumas sugestões que podem brotar desses desafios
Muitas poderiam ser as respostas à essas dificuldades
e desafios. Apontamos 3 sugestões que nos parecem essenciais,
de acordo com os documentos da Igreja, e deixamos o resto à
criatividade de cada um.
1. Antes de mais nada, é fundamental fazer dos nossos
grupos um lugar onde os adolescentes e jovens possam “aprender
a orar”. Não qualquer oração,
mas aquela que nos ajuda a compreender quem somos de verdade e
, encontrando a nossa identidade, perceber que somos filhos amados
e chamados a amar. Já dizia João Paulo II: “As
nossas comunidades devem tornar-se autênticas escolas
de oração. Uma oração intensa,
mas sem afastar do compromisso na história: ao abrir o
coração ao amor de Deus a oração abre-o
também ao amor dos irmãos”.
2. Um segundo ponto importante é a formação.
Ela não é primordial. O que é primordial
é o amor a Deus e aos irmãos. Mas a formação
pode ajudar os jovens a encontrar os melhores caminhos para concretizar
esse amor e para não se perder em propostas ilusórias
que, já vimos, estão nos engolindo. Já dizia
o Concílio Vaticano II: O apostolado dos jovens “não
pode atingir eficácia plena, senão através
da formação múltipla e integral. Exige não
apenas o progresso contínuo do jovem na espiritualidade
e na doutrina, mas também o conjunto variado de assuntos,
pessoas e encargos, aos quais sua atividade deve adaptar-se”.
3. Por fim, um ponto que passa quase despercebido em tudo isso:
é a dimensão lúdica,
isto é, do encanto, da poesia,
da diversão. Nós, seres
humanos, e especialmente os jovens, não somos pura razão
e nem são pura emoção. Nenhum desses pontos
sozinhos constroem nada sólido e agradável. O primeiro
deixa o mundo “cinza”, chato. O segundo, superficial
e enjoativo. Precisamos redescobrir a poesia, o encanto, aquele
toque que dá novo sabor às nossas atividades. Isso
é o que se chama mística! Se conseguirmos dar
asas à nossa criatividade, seremos capazes de criar um
clima de oração, de fazer coisas com profundo fundamento
teológico, sem com isso deixar de fazer das nossas
atividades uma coisa legal, agradável. Cria-se assim o
clima familiar e o do convívio onde se
formam grandes amizades.
Lembremo-nos:
“Experimentar Deus não é falar de Deus
aos outros, mas falar a Deus junto com
os outros” (Leonardo Boff).
Rodrigo Assis Rosa, OMV