Resenha do livro: TORRES QUEIRUGA, Andrés. Creio em Deus Pai: o Deus de Jesus como afirmação plena do humano. Trad. I.F.L. Ferreira. São Paulo: Paulinas, 1993. (Teologia Hoje)

 

Este livro de Andrés Torres Queiruga está inserido numa vasta produção teológica que prossegue a tarefa de reconstruir uma imagem de Deus que, aquém da tremenda crise religiosa introduzida pela modernidade ocidental, responda atenciosamente às justas inquietações e às mais que justificadas perguntas da sensibilidade atual. O autor é doutor em Filosofia pela Universidade de Santiago de Compostela (Espanha) e em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Dirige Encrucillada – Revista Galega de Pensamento Cristian e ensina Filosofia da Religião na Faculdade de Filosofia de Santiago de Compostela. Membro do Consello da Cultura Galega e da Real Academia Galega desde 1980, Queiruga é autor de numerosos estudos.

 

Nesta sua magnífica obra, o autor toma a peito a difícil tarefa de responder aos desafios que a modernidade impõe à fé. E o faz buscando uma possível “zona de contato” entre ambas. Esta “zona de contato” nada mais é do que a comum defesa do homem, “tanto contra as falsas imagens de Deus, que tendem a asfixiá-lo, quanto contra os fracassos do Iluminismo, que o prendem de novo”. Por isso, seu objetivo principal já se encontra de certa forma anunciado no próprio título da obra: pretende mostrar que o Deus que nos foi revelado em Jesus de Nazaré corresponde à afirmação plena do ser humano.

 

A tese que vai como que iluminar todo o livro e fornecer seu ponto seguro é a magnífica afirmação de Santo Irineu: “Gloria Dei, vivens homo”, “a glória de Deus é o homem na plenitude de sua vida”. Segundo o autor, se o cristianismo conseguir demonstrar, com sua teoria e prática, que “Deus é a máxima negação de toda negação do homem, então se abrirá um terreno estritamente comum em que podemos encontrar-nos com a busca mais profunda dos não crentes”, porque “coincidimos no fundamental: a defesa do homem e de suas possibilidades”.

 

O autor trabalha a temática em cinco capítulos. Na base de cada capítulo há artigos escritos em diversas ocasiões, mas que, por conterem a mesma intuição de fundo, puderam ser unificados “sem a menor resistência”. 

 

O primeiro capítulo dá, de certo modo, o tom geral do livro. Nele encontramos uma séria compreensão dos motivos que teriam levado ao surgimento do ateísmo moderno. Segundo o autor, talvez a melhor chave para entender o ateísmo “a partir da experiência” seja o fato de que, na passagem da Idade Média à Idade Moderna houve um choque entre dois mundos culturais: o antigo e o moderno. De um lado temos a modernidade com a “descoberta” da autonomia do mundo, desvinculando-o de sua sacralidade (weberianamente, desencantando-o), e de outro lado temos a Igreja (hierarquia), com sua “obstinada e fatal oposição aos progressos e descobertas que foram marcando os passos da modernidade”. É nessa discussão que vai nascendo o ateísmo, uma vez que Deus aparece (tragicamente) como um rival do homem. E é justamente aqui que o autor encontra a “chave mais luminosa e (...) a melhor possibilidade de encontro”. Pois o que no fundo o ateísmo nega não é a Deus, mas um ídolo, uma imagem que segundo o autor em nada se assemelha ao Deus bíblico. “No fundo do ateísmo moderno está o interesse pela autonomia do homem e como conseqüência, a negação de toda negação de suas possibilidades”. Ora, é exatamente neste ponto que o autor vê o projeto comum, a saber, que também a intenção mais profunda da experiência cristã é essa:  “Concretamente, hoje a grande saída (...) consiste em dizer ao ateísmo que olhe para o Evangelho, a fim de ver se é possível continuar afirmando que Deus, tal como aparece em Cristo, nega o homem. Porque em Cristo o que encontramos é justamente a afirmação máxima do homem: ele não fez outra coisa senão defender o homem; sobretudo defender aquele que os outros negavam”.

 

O segundo capítulo aprofunda essa compreensão, fixando-se no campo da autonomia social. Diante da crítica marxista, o autor quer mostrar que “a fé em Deus preserva a autonomia humana no mundo social”. Com efeito, a partir do Iluminismo vemos surgir as bases do que será a burguesia propriamente dita. Esta nasce de um “profundo movimento histórico rumo à universalização da sociedade”. Porém, se este foi o ideal, a realidade foi outra: “a revolução foi feita para todos e acabou nas mãos de uns poucos”, a saber, a burguesia. É claro que a revolução burguesa constituiu um avanço em relação ao seu estagio anterior (o feudalismo e a monarquia), mas continuou sendo um avanço “às custas de reproduzir em outro nível uma estrutura injusta”. Daí ser necessária que essa universalização da sociedade seja de novo “reaberta”, para “dar acesso aos excluídos, e deste modo, alcançar verdadeiramente a todos”. E é nessa busca de maior igualdade entre os homens que se insere o esforço dos cristãos, expresso na opção preferencial pelos pobres. Essa opção significa assegurar o contrário do que muitas vezes se entende: “precisamente porque não quer a pobreza, Deus se coloca ao lado dos pobres; ao menos ele não dá razão aos tiranos, mas os desmascara como malditos (Mt 25,41; cf Lc 6,24-26)”.

 

O terceiro capítulo, que traz o título do livro, busca, a partir da experiência de Jesus, chegar ao encontro do verdadeiro rosto de Deus. Este é um encontro sempre aberto aos cristãos no começo do próprio credo: “Creio em Deus Pai”. É verdade que não é fácil falar da paternidade de Deus “como símbolo supremo de sua relação como o homem”, uma vez que o modernismo associa a Deus não essa imagem, “mas a sensação de uma radical e irredutível rivalidade”. Por isso é capital “fazer chegar à sensibilidade moderna a imagem de Deus”. E esta nós a encontramos na experiência do Abbá de Jesus. Nela, “Deus fica definitivamente revelado como paternidade entranhável, como esta fonte de confiança e ternura que alimentava o mistério de Jesus e que se abre mais adiante para todo homem”. Mas se no capítulo anterior o autor se deparou com a crítica marxista, neste capítulo ele se depara brevemente com a crítica freudiana para mostrar que a fé em Deus preserva a autonomia humana também no mundo psicológico. Com efeito, para Freud a religião seria “uma neurose infantil da humanidade que impede o crescimento adulto do homem”. Portanto, faz-se necessário “negar a deus-pai para crescer, curar-se e ter acesso à própria autonomia”. O autor procura responder à essa crítica a partir daquela realidade que fundamenta todos os argumentos do livro: a experiência de Jesus de Nazaré. “Não há nada de infantil neste homem capaz de romper qualquer tabu e passar por cima de todo legalismo; totalmente identificado com sua missão (...) e alheio a todo narcisismo; com uma personalidade radicalmente não-autoritária (...), mas decididamente livre, a ponto de instigar contra si os poderes político, militar e religioso”. Se no fim de toda consideração ficasse um pouco mais claro essa grande revelação de Jesus, isto é, “Deus como Abbá, como Pai de misericórdia, respeito e amor entranháveis”, então, “estaria conseguido o fundamental”.

 

O quarto capítulo é, ao nosso parecer, o mais fascinante, talvez por tratar de um assunto tão complexo e existencial. Diante do que se disse até aqui sobre a bondade de Deus, como explicar a presença do mal neste mundo criado por ele? O autor procura fornecer alguns elementos norteadores em dois momentos: um mais filosófico e outro estritamente teológico. Parte do dilema de Epicuro, assim resumido: “ou Deus quer evitar o mal e não pode, e então não é onipotente; ou Deus pode e não quer, então não é bom”. O autor oferece uma saída para tal dilema (que só aparentemente é neutro) com a seguinte intuição fundamental: “o finito não pode ser perfeito”. Isso significa que “qualquer mundo – se é que essa insinuação de pluralidade tem sentido – teria sempre de ser finito e, portanto, não perfeito, aberto ao mal”. Mas aqui surge outro problema: “por que, sabendo Deus que o mundo, por ser finito, implicaria necessariamente o mal, o criou apesar de tudo”? Vale a pena citar na integra esse parágrafo: “Se Deus cria, não pode criar-se a si próprio: tem de criar um mundo finito. Mas, se o mundo é finito, comporta necessariamente o mal (...). Nesse sentido, se Deus se decide a criar, ‘não pode’ evitar tal presença (...). Pois bem, se ele se decide, só pode fazê-lo por amor à criatura e só o bem pode querer para ela. Isso significa que a existência vale a pena para ela e que, portanto, o mal não pode destruí-la: o mal é impedimento, mas não definitivo”. Assim, o mal se torna o “preço do amor”, “a terrível condição que o criador tem de suportar para que seja possível a felicidade da criatura”. Mas em todo esse processo, e a partir da experiência bíblica isso se torna ainda mais claro, “Deus está do lado da criatura e em posição contrária aos limites que tende a frear sua expansão (...). Deus está do lado da criatura e contra o mal”. Essa compreensão alcança sua plenitude em Jesus: “Será que alguém, olhando para Jesus, pode atrever-se a afirmar que, podendo, ele não varreria o mal do mundo?”. Daqui, purificado o nosso olhar, “o mal não só aparece como contrário à bondade divina, mas também, sem perder um átomo de seu horror, se converte no cenário da manifestação suprema do amor de Deus”.

 

O quinto capítulo vai retomar alguns pontos fundamentais e dar-lhes uma “amarração” que nos permita entender “conseqüências não imediatamente obvias”. A grande pergunta que surge aqui é a seguinte: se Deus corresponde à máxima afirmação do ser humano e, portanto, o fundamento último de sua felicidade, “como é possível que os homens não o vejam?” No primeiro capítulo o autor já mostrou a responsabilidade da Igreja nesse “ocultamento de Deus” ao homem moderno. Mas nos alerta que também a “soberba do homo technicus occidentalis recebe um forte chamado para revisar seus esquemas de pensamento, inclusive os que, levando-o para o profundo, induzem-no ao ateísmo”. Pois bem, trata-se, então, de encontrar meios que nos permitam perceber a presença de Deus na nossa realidade histórica. Por isso, a pergunta pode ser feita de outra maneira: como, apesar da transcendência de Deus e da “distancia intransponível” existente entre o Criador (infinito) e a criatura (finita) – matéria do quarto capítulo – pode haver alguma comunicação?  E aqui está “a maravilha da revelação”: “justamente porque Deus em nada pode ser visível, pode de algum modo fazer-se visível em tudo”. Eis que encontramos o verdadeiro significado das “provas” da existência de Deus:  não se trata de encontrar meios para se chegar a Deus, “pela simples razão de que ele já está sempre conosco”. Para o autor, as provas só adquirem importância enquanto “maiêutica”: “não somos nós que o levamos [Deus] ao outro: é ele quem está sempre chegando. Nossa palavra tem apenas a humilde função de parteira – maiêutica –, de ajuda para que sua presença venha à luz e para que nosso ouvinte por fim se dê conta”.

 

Este texto, como já foi dito no começo, foi escrito com a intenção de mostrar que o Deus que nos foi revelado em Jesus de Nazaré corresponde à afirmação plena do ser humano. O autor trabalha esse tema com uma competência extraordinária. E vai além! Coloca-nos diante de um grande desafio: aos crentes, cabe a difícil tarefa – porém indispensável – de recuperar a “experiência originária” do Deus de Jesus e romper com todo o ídolo legalista e opressivo com que, em muitos aspectos, foi “substituindo o rosto vivo e libertador de Deus”; aos não crentes, cabe a também difícil tarefa de revisar seus esquemas de pensamento, abrindo-se aos novos dados que a teologia hoje apresenta sobre o Deus revelado em Jesus de Nazaré, para perceber o quanto ele pode contribuir na construção de um ser humano mais pleno, livre, responsável, melhorando assim as relações deste consigo mesmo, com seus semelhantes, com a natureza e com a transcendência mesma, ou seja, Deus. Para isso, tanto ao crente como ao não crente, faz-se fundamental ter presente as “conclusões” que se nos apresentam da leitura do livro. Essas são como que  balizas que nos indicam a direção a seguir: 1) que “toda a interpretação do cristianismo como restritiva da realização humana ou como carga externa heterônoma sobre a existência acaba sendo, por isso mesmo, falsa”; 2) que toda relação autêntica com Deus “não conduz o homem para fora de si mesmo, porém, ao mais profundo encontro consigo mesmo, à sua realização insuperável” (a autonomia humana); e 3) que se exige daqueles que crêem no Deus de Jesus que demonstrem que o Reino dos Céus se realiza quando – e somente se –, já na terra, eles “se esforçam para conseguir que a justiça, a liberdade e a fraternidade reinem entre os homens”.

 

O autor também desenvolveu a temática tomando como base uma vasta e rica bibliografia, além de demonstrar muita competência na apresentação das várias correntes da filosofia e da exegese, fator pelo qual torna as informações confiáveis e dignas de um maior aprofundamento. Permite-nos, além disso, estabelecer critérios confiáveis para o aprofundamento da disciplina “Deus da Revelação”. O estilo literário muito agradável e a linguagem acessível fazem com que a leitura e a compreensão do conteúdo seja facilmente assimilada. Também a coerência interna demonstra um altíssimo nível de competência do autor. Trata-se, enfim, de um texto altamente recomendável, de cuja leitura tirarão proveito todos aqueles interessados em uma abordagem competente sobre a teologia da revelação no diálogo com a modernidade.

 

Rodrigo Assis Rosa, OMV

 

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