No que consiste exatamente o “carisma lanteriano”?
Um carisma religioso é uma ealidade espiritual, dom do
Espírito Santo com o qual um Fundador e os seus seguidores
acolhem e vivem, de modo particular, o essencial do Evangelho.
Como tal, situa-se no âmbito do Mistério e foge a
toda formulação precisa e definida. Podemos, todavia,
delinear seus traços essenciais meditando a vida e as palavras
de Pe. Lanteri e procurando compreender suas intuições
fundamentais. Proponho-vos aqui, muito sinteticamente, aquilo
que caracteriza o carisma lanteriano.
• Um senso vivo da Misericórdia de Deus
manifestada em Jesus Cristo. O Deus que cativou Pe. Lanteri
é um Deus de bondade e de misericórdia: o Pai que,
como Bom Pastor, enviou seu Filho para salvar todos os homens.
Pe. Lanteri coloca o Cristo manso e misericordioso no centro de
tudo. Experimenta-O como companheiro de vida, como seu
mestre, seu modelo, seu auxílio,
sua recompensa. Fez-se sua ardente testemunha em todas
as suas atividades. O coração lanteriano vive na
presença de um Deus que ama cada um por si mesmo, gratuita
e infinitamente, e sabe que “a salvação
do homem é o que mais interessa aos cuidados da Providência”.
Essa visão inspira algumas atitudes características.
Uma confiança sempre renovada em Deus: “Destrua
logo no fogo da caridade toda falta, e repita resolutamente a
cada momento: Eu disse, agora começo”. Um amor
fraterno que assume os traços de uma grande humanidade:
“O amor com o qual se amarão será um amor
cordial, como convém a verdadeiros irmãos de uma
mesma família, um amor afável..., previdente...,
sofredor..., mesmo a custo de ‘qualquer sacrifício’”.
Enfim uma bondade que permeia todo o estilo da evangelização:
“No coração de Lanteri a verdade está
sempre unida ao amor: zelando sempre pela verdade no espírito
de caridade, procurando conquistar primeiro o coração
que o espírito, fazendo amar a verdade mesma, a qual defende
e ensina”.
• Um amor filial por Maria. À idade
de vinte e dois anos o jovem Lanteri entregou-se totalmente a
Maria com a confiança de um filho. Mais tarde dirigia-se
a Ela com essa fervorosa oração: “Virgem
Santa, Mãe de Deus e minha Senhora, eu vos peço
duas coisas, todas as duas necessárias para mim: dai-me
o vosso Filho, ele é o meu tesouro, sem ele eu sou pobre;
levai-me ao vosso Filho, ele é a minha sabedoria e a minha
luz, sem ele eu estou nas trevas”. Cristo permanece
sempre o centro de toda a visão teológica e da espiritualidade
de Pe. Lanteri, mas a Virgem Maria ocupa um lugar privilegiado
como Modelo de fé e Mãe que leva a Cristo. No brasão
dos Oblatos lemos: “Mariam cogita, Mariam invoca”.
Uma frase de S. Bernardo que nos convida a contemplar a
figura de Maria como no-lo apresenta o Evangelho, modelo de disponibilidade
total à Palavra e ao Espírito; e a invocar Maria,
com uma oração confiante que coloca na sua materna
intercessão todo o nosso ser e o nosso agir. Elemento importante
da espiritualidade de Pe. Lanteri é a oferta de si
mesmo ao Senhor pelas mãos de Maria.
• Um senso genuíno de fidelidade à
Igreja. Pe. Lanteri citava freqüentemente as palavras
de Cristo “O meu ensinamento não vem de mim mesmo,
mas daquele que me enviou” (Jo 7,16) para fundamentar
a sua plena adesão ao ensinamento da Igreja. Ele convida
os Oblatos a professar uma “inteira, sincera e inviolável
obediência à autoridade da Santa Sé, e uma
dedicação completa ao seu Magistério”.
Trata-se de um elemento importante do espírito de comunhão
com a Igreja, do “sensus Ecclesiæ”
que deve caracterizar o espírito lanteriano. A inserção
na caminhada da Igreja, o amor ao Papa e a escuta solícita
da sua palavra são algumas atitudes essenciais para o lanteriano,
tanto na própria formação como em oda iniciativa
apostólica. Tal espírito implica também uma
atenção particular para o trabalho em sintonia com
a Igreja local, que tem no bispo o primeiro responsável.
• A pedagogia inaciana. Lanteri escolheu
o caminho inaciano seja para a própria vida espiritual,
seja como meio apostólico. “Os Exercícios
de Santo Inácio são, em geral, um instrumento poderosíssimo
da divina Graça para a reforma universal do mundo, e particularmente,
um método seguro para cada um fazer-se santo, grande santo,
e em pouco tempo”. Os Exercícios propõem
um caminho espiritual que ensina a contemplar Cristo na oração
para seguí-lo radicalmente e viver plenamente o Evangelho
na própria vocação. A pedagogia inaciana
ajuda a unir fé e vida, forma homens e mulheres livres,
capazes de discernir os chamados do Senhor nas situações
concretas da história; é um caminho seguro de crescimento
espiritual. O lanteriano situa-se, portanto, no filão da
grande família inaciana que já soube, especialmente
nos últimos anos, renovar e atualizar a pedagogia de Santo
Inácio. Convém acrescentar que Lanteri nutre a sua
vida espiritual com tantos outros grandes mestres: Santo Afonso
de Ligorio, São Francisco de Sales, Santa Teresa d’Ávila,
e tantos outros padres da Igreja e teólogos, ensinando
assim a importância de formar-se à escola dos grandes
autores da vida cristã.
• Uma fervorosa e inteligente consciência
apostólica. Uma chama ardente consumia-se em Pe.
Lanteri: consumia-se do desejo de ajudar todos a encontrar
Cristo. Para realizar isso a sua ação apostólica
desenvolveu-se de um lado em direção à uma
evangelização da pessoa em profundidade, particularmente
com a confissão e a orientação espiritual,
e de outro lado em direção à evangelização
da cultura, especialmente através da difusão da
imprensa. Duas direções complementares que Pe. Lanteri
teve presente durante toda a sua vida. Sua característica
foi ainda a preocupação não somente de evangelizar,
mas também de formar evangelizadores. As suas
intuições apostólicas podem seguramente ainda
hoje inspirar a criatividade de tantos homens e mulheres que,
sensíveis a todas as angústias e as esperanças
do mundo, procurem os caminhos mais eficazes do amor e do serviço.
Com Pe. Lanteri o coração apostólico empenha-se
em “fazer conhecer e sentir a todos os homens dóceis
à graça que o interesse mais essencial de sua verdadeira
felicidade exige que eles unam-se ao Sumo Bem”. Paulo
VI na sua sempre atual Encíclica Evangelli Nuntiandi resume
o sentido autêntico da evangelização em termos
que teriam alegrado Lanteri: “Poder-se-ia exprimir tudo
isso dizendo: importa evangelizar – não de maneira
decorativa, com que aplicando um verniz superficial, mas de maneira
vital, em profundidade e isto até às suas raízes
– a cultura e as culturas do homem, no sentido pleno e amplo
que estes termos têm na Constituição “Gaudium
et Spes”, a partir sempre da pessoa e fazendo continuamente
apelo para as relações das pessoas entre si e com
Deus” (EN, 20).
São esses portanto, sucintamente apresentados, os traços
essenciais que, tomados no seu conjunto, delineiam uma certa “fisionomia”
do carisma lanteriano.
Pe. Patrice Véraquin, OMV
Reitor Maior