O pequeno Bruno ajoelhou-se diante do altar da Virgem. Aquela que
substituiria sua ãe, inclinava-se para ele, estendendo-lhe
os braços, como se quisesse dizer:
— Aqui estou, meu filho.
Como era bela a imagem de Maria! O rosto, de expressão
serena, iluminado pelo sol que se projetava através do vitral,
parecia ter vida.
O menino virou-se para o pai que estava ajoelhado ao seu lado.
— Ela vai ser minha mãe?
— Sim – respondeu ele. Você não tem mais
mãe na terra: daqui por diante, sua mãe será
a Virgem bendita. Ame-a como sua verdadeira mãe.
Os olhos de Bruno encheram-se de lágrimas. Recordava o
perfil distante daquela que partira e que tanto o amara.
— Mãe! – murmurou, olhando a Virgem com ternura.
Eu também estou aqui.
Nesse instante o menino deixou-se envolver por um sentimento de
devoção filial.
— Agora, vamos! – disse-lhe o pai, abraçando-o.
Tenho clientes à minha espera.
A cidade de Cúneo, na região Piemontesa da Itália,
onde morava, já se movimentava nas primeiras horas da manhã.
O canto dos pássaros acompanhava a melodia do vento, que
agitava sombras nas ruas e nas calçadas. Na torre da igreja
o sino aguardava o momento de badalar, no chamado para a prece.
Bruno e o pai seguiram em direção da clínica.
Alguns doentes já ali se encontravam, aguardando a chegada
do médico. Eram na maioria pobres, atendidos generosamente.
— E agora, meu filho – disse o pai ao menino –,
você vai para casa brincar com seus irmãos e eu vou
tratar dos meus doentes.
O Dr. Pietro Lanteri, muito conhecido e querido na cidade, abria
as portas do seu consultório para quem dele necessitasse.
Voltava-se, sobretudo, para a pobreza, com amor e desprendimento.
Além da profissão que exercia com dedicação
e competência, cuidava dos filhos dando-lhes carinho e proteção.
Bruno foi crescendo nesse ambiente de paz, na quietude da sua cidade
natal. Constantemente, ia à Igreja conversar com a Virgem.
— Mãe! – dizia-lhe – Vou bem nos estudos.
Papai me orienta, me ajuda.
Tinha a impressão de que a Virgem se inclinava mais para
ouvi-lo; que acenava a cabeça aprovando o que dizia.
Assim, a vontade de vê-la, de contar-lhe o que pensava e
sentia, o que fazia ou pretendia fazer, o levava a procurá-la
com maior freqüência.
— Mãe! – confiou-lhe, um dia – Vou entrar
para a Ordem Cartucha.
Era a sua vocação para o sacerdócio que se
manifestava.
Certo de que a virgem o aprovava, procurou o pai, surpreendendo-o
com a decisão que tomara.
— Noto que você tem inclinação para as
ciências exatas. Poderia entrar para o corpo docente universitário
– ponderou o pai, sem contudo dissuadi-lo.
Sendo ele cristão, como impedir o filho de seguir o caminho
que escolhera?
Pela primeira vez, o jovem Bruno, contanto apenas 17 anos, despedia-se
da família e da Virgem, cuja imagem levava no coração.
Sim, ela o acompanharia para sempre, por onde andasse, representada
na miniatura daquela que ficara na igreja de Cúneo, miniatura
que conservaria na sua mesa de trabalho.
Não havia distância que os separasse, onde estivesse,
aconselhar-se-ia com ela.
Não resistindo, por motivo de saúde, ao severo regime
da Ordem Cartucha, Bruno viu-se obrigado a voltar ao lar.
Se a tristeza o invadia na saudade do convento, era logo afastada
pela satisfação do reencontro com a família.
Com que alegria correu para a sua querida confidente! Com que alegria
segredou-lhe a esperança de terminar os estudos de Teologia
e abraçar o sacerdócio!
— Mãe! Quero seguir minha vocação.
Sei que estarás sempre ao meu lado e eu estarei sempre contigo
em fervorosa oração.