A PESSOA DE JESUS CONTEMPLADA NOS MISTÉRIOS DE
SUA VIDA
1. Só o amor contemplativo dá acesso
ao mistério da pessoa
Depois das observações que acabamos de fazer sobre
a contemplação em geral, vamos analisar agora, mais
pormenorizadamente, uma forma particular de contemplação:
a contemplação dos mistérios da vida de Cristo.
Começamos nossa reflexão com esta afirmação:
“Só o amor contemplativo dá acesso ao mistério
da pessoa”. Quem é verdadeiramente uma pessoa
não se conhece por meio de idéias e de análises
científicas, sejam elas filosóficas ou psicológicas.
Ninguém se apaixona por uma pessoa porque descobriu o nível
do seu QI, ou os dados de sua personalidade recolhidos no fichário
de um psicólogo, ou os números do peso e das medidas
de uma jovem que ganhou um concurso de beleza. Quem é
verdadeiramente uma pessoa só é revelado através
de sua vida, convivendo com ela. Só os sentidos, só
o coração por intermédio dos sentidos, podem
perceber o que há de absolutamente original, singular,
inconfundível e irrepetível num homem ou numa mulher.
Que fazem os namorados para se conhecer mais profundamente e
para se enamorar ainda mais? Fazem análises e pesquisas
cientificas? Absolutamente não. Simplesmente contemplam
as atitudes e os comportamentos, as ações e as reações,
os hábitos e as “manias” um do outro; contemplam,
“saboreiam”, “curtem” os sentimentos,
os afetos, os desejos que se expressam em palavras, em silêncios,
em gestos. Às vezes, os gestos aparentemente mais insignificantes
são os mais reveladores, fascinantes e literalmente encantadores:
o modo de andar, o modo de olhar, o modo de rir, a tonalidade
da voz... Não se trata de “estudar” o outro.
Trata-se simplesmente de contemplá-lo. E tudo no outro
é objeto de contemplação. Não só
as características exteriores, como a altura e a forma
do corpo, a cor da pele ou dos olhos, mas, sobretudo, os sentimentos,
as emoções, os gostos, as preferências, os
valores, os ideais, etc., pois são eles os que revelam
de mil maneiras o mundo interior, os segredos do coração.
Só é possível chegar ao fundo do mistério
das pessoas pelo caminho do amor contemplativo. Contudo, porque
a riqueza espiritual das pessoas é inesgotável,
o seu mistério nunca é totalmente desvelado. Ora,
é justamente essa profundidade inesgotável do mistério
da pessoa amada o que fascina a pessoa que ama. O que encanta
e cativa na pessoa amada não é propriamente o brilho,
a irradiação externa da sua beleza, mas é
a luz oculta e misteriosa que ilumina de dentro e faz com que
toda ela seja luminosa. “O essencial é invisível
aos olhos” (Saint-Exupéry).
Essa realidade, esse mistério da relação
amorosa podem ser expressos por meio de outra imagem ou constelação
de imagens: as imagens da sede, da água, da fonte. As pessoas
que amamos são fonte de felicidade para nós, não
propriamente porque desalteram nossa sede de amor, mas porque
mantêm sempre viva, sem conseguir saciá-la inteiramente,
essa sede; porque a fonte na qual bebemos cada manhã continua
a manar dia e noite (...) (cf. S. João da Cruz).
2. A contemplação da vida de Jesus
como caminho de acesso a seu mistério
Se isso acontece nas relações de amizade e de amor
humanos, acontece num grau incomparavelmente maior na relação
interpessoal com Jesus Cristo. Rigorosamente falando, só
a riqueza e a novidade do mistério de Jesus, só
a altura e a profundidade do seu amor são inesgotáveis.
É do abismo insondável do amor de Deus –
que nos foi revelado em Jesus de Nazaré – que brotam
todas as manifestações do verdadeiro amor
humano.
A escolha dos mistérios da vida de Cristo feita por S.
Inácio nos Exercícios e o modo de apresentá-los
revelam uma extraordinária concentração do
olhar contemplativo na pessoa de Jesus Cristo. Ela ocupa o centro
de todas as contemplações, que são, por isso
mesmo, todas elas cristocêntricas. O que o exercitante deve
fazer durante a hora inteira de cada exercício de contemplação
(...) é contemplar as palavras, as atitudes, as ações,
os gestos de Jesus na cena evangélica a ser contemplada;
deixar-se envolver pelo dinamismo da cena e participar dela ativamente,
tendo sempre como ponto de referência a pessoa de Jesus.
Na medida em que Jesus ocupa o centro do ver, do olhar e do ouvir,
ocupará também o centro do coração
do exercitante que vê, que olha e que ouve.
Só depois de ter feito esse exercício de contemplação
com um coração aberto, receptivo, comovido, em profunda
comunhão com Jesus, deverá o exercitante fazer o
exercício de “refletir sobre si mesmo para tirar
algum proveito”. Isto é, deverá confrontar
suas atitudes e seus comportamentos, assim como os sentimentos
e desejos sentidos durante a contemplação, com
as atitudes, as palavras e as práticas de Jesus.
O tempo dedicado às contemplações é
o tempo do “enamoramento” de Jesus, é o tempo
do crescimento no “conhecimento interno”de Jesus Cristo
“para mais amá-lo”. Do qual se seguirá
o desejo de “segui-lo”. Em outras
palavras, o tempo das contemplações é o tempo
de deixar-se afetar, cativar, entusiasmar, pela pessoa, pela missão,
pelo projeto de Jesus; é o tempo do amadurecimento e da
concretização de opções e dos compromissos
para seguir Jesus pelos caminhos que ele percorreu.
Dessa inter-relação dinâmica entre os pensamentos,
os sentimentos, os desejos e as decisões, entre a moção
e a missão, nascem (...) a força e a eficácia
dos Exercícios.
Aquele a quem for dada a graça do “conhecimento
interno” de Jesus, sentir-se-á de tal maneira
fascinado por Ele que estará disposto a deixar
tudo para segui-lo. Não só superará
todos os obstáculos encontrados no caminho do seguimento
de Jesus, mas o fará “cheio de alegria”.
É o que dizem, com força e concisão insuperáveis,
as duas parábolas mais breves de todos os evangelhos: a
parábola do tesouro escondido (...) e a parábola
da pérola preciosa (cf. Mt 13,44-46). O realismo e a força
dessas duas parábolas devem-se ao fato de serem autobiográficas.
Elas expressam o que foi a experiência pessoal de Jesus.
O centro do olhar na contemplação dos mistérios
evangélicos é sempre a pessoa do Verbo encarnado,
daquele que acampou no meio de nós (cf. Jo 1,14) e passou
pelo mundo fazendo o bem a todos (cf. At 10,38). É essa
contemplação a que nos faz bons e a que nos faz
fazer o bem. Quem contempla longamente os mistérios da
vida de Jesus passa a olhar os homens, os acontecimentos,
a história e toda a criação com o olhar de
Jesus.
Porque a riqueza do mistério de Cristo é inesgotável,
o Evangelho é quadriforme. Querer fazer dos quatro evangelhos
um Evangelho uniforme é atentar contra sua riqueza, sua
beleza e sua verdade. É uma profanação. Cada
evangelista fixou seu olhar em determinados traços do rosto
de Cristo, “ícone de Deus”. Cada traço,
cada gesto desse ícone é iluminado pela pessoa daquele
que é a “luz do mundo”. Nosso “encontro”
com Jesus se dará seguindo o caminho iluminado por aqueles
raios de luz que mais falarem à nossa inteligência
e ao nosso coração, ao nosso modo de ser e à
nossa história pessoal.
Não são as teorias que comovem e convertem os corações.
Não são os discursos que transformam as estruturas
de pecado e “tiram os pecados do mundo”. O ponto de
apoio aquimedeano para mover os corações e para
transformar o mundo na direção do projeto do Pai,
isto é, na direção dos pobres e pecadores,
dos que mais precisam de libertação-salvação,
é o olhar contemplativo dos mistérios da vida
de Jesus. É esse olhar que move e comove, a partir de Jesus
e na direção de Jesus, o próprio coração;
é esse olhar o que move a pôr-se a serviço
dos outros, especialmente dos mais necessitados, no seguimento
de Jesus.
Do livro de Álvaro Barreio SJ, Contemplar a vida de
Jesus – Prática e frutos, São Paulo:
Edições Loyola: 2002, pp. 18-22.