Pastoral da Juventude

Algumas dicas para melhor compreender o papel da liderança cristã na Igreja

“A espiritualidade de comunhão”

 Partimos das origens do povo de Israel. A experiência de servidão no Egito levou os hebreus a se unirem e quebrar a lógica da exploração. Com a fuga, outros grupos (algumas tribos do deserto) aos poucos vão se juntando, empolgados pela história do Deus-Libertador (Cf. Ex 18). Depois de atravessarem o deserto, se fixam na terra de Canaã.  

Surge, então, um momento crucial para entendermos a posição do líder. Como já sabemos, toda a organização do mundo antigo se baseava no esquema piramidal. O Soberano, o Rei, o Faraó, etc... sempre havia um chefe e seus funcionários imediatos que impunham as ordens de cima para baixo; e aqueles que se encontravam nas camadas inferiores não tinham nem voz nem vez! 

Imposição das leis: não há liberdade e responsabilidade

 

Sociedade sem classe,

Igualitária

 
Pois bem, agora o grupo que quer se organizar na Terra Prometida dá uma virada radical na organização social do mundo antigo: na nova sociedade, não haverá mais classes, nem chefes. Rejeitam essa forma de organização. O que vale daqui para frente é a igualdade e a comunhão entre o povo. O decálogo (ou “dez mandamentos”) e o código da aliança (Ex 20 – 24) são a expressão dessa nova organização.
 

No lugar do absolutismo da monarquia (que levou o povo à servidão), agora o povo se organiza com base na tenda, na família, no clã e na tribo. Nascem aqui os juízes de Israel, que muito mais que julgadores, eram anciãos da comunidade, pais de famílias que se reuniam para organizar a vida da comunidade. Eram eles os responsáveis pela ordem comum da vida social. No caso de exageros, eram eles os responsáveis pela censura. A mesma coisa se diz das decisões importantes. Em resumo, eles falavam em nome do seu clã/tribos, e eram respeitados somente enquanto falavam em nome da sua comunidade. 

É claro que esse sistema comunitário não durou muito. A partir de Salomão (Séc X), isso caiu por terra e voltou-se ao sistema piramidal (inclusive obrigando os israelitas a trabalhos escravos!). Os juizes foram substituídos pela corte real, com seus sacerdotes e ministros (que vai gerar, bem depois, o sinédrio). Eis a razão da crítica dos profetas e de Jesus ao templo (que era símbolo do poder monárquico autoritário)!!! 

Pois bem, o sistema comunitário de organização volta a aparecer na comunidade cristã. Os anciãos (do grego: presbyteros) eram pessoas da própria comunidade que se destacavam pelo serviço que prestavam aos irmãos. Eram “pontos de referência”, lideranças que nasciam “naturalmente” entre os cristãos. Quando se tinha alguma questão importante a resolver, se recorriam a esses presbyteros. Estavam em intima união com os demais presbyteros das comunidades vizinhas (discutiam os problemas da comunidade, assim, através de um colégio ou presbyterion). Eram escolhidos (eleitos) pela própria comunidade. Posteriormente foram recebendo encargos próprios, como o ensino da doutrina aos novos cristãos (didaké), o batismo e a unção dos catecúmenos (crisma). Mas sua “função” era sobretudo servir a comunidade (sendo inclusive como que um elo entre as demais comunidades), e não “governá-la”, no sentido do autoritarismo.

 Tudo isso para chegarmos à idéia hoje tão querida da Espiritualidade de Comunhão, idéia tão cara ao nosso Papa, aos nossos Bispos e à Igreja em geral, como vem sublinhado nas atuas “Diretrizes” (CNBB, Doc 71)

 “Espiritualidade de comunhão significa (...)  capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como “um que faz parte de mim”, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhes uma verdadeira e profunda amizade” (Papa João Paulo II, Novo Millennio Ineunte, 43).

 “Uma responsabilidade particular em ordem à comunhão eclesial cabe ao bispo e aos presbitério. Assim, como o bispo é “sinal de unidade” da diocese com a Igreja universal (...), o presbítero é “sinal de unidade” da paróquia ou comunidade local com a diocese e a Igreja toda. Seu carisma específico é o da presidência da comunidade e, portanto, da animação, coordenação e – com a indispensável participação adulta de toda a comunidade – do discernimento final dos carismas. Em muitas situações, tarefas de coordenação de comunidades e áreas pastorais são assumidas por leigos, leigas e religiosas, que prestam assim um importante serviço à comunhão eclesial” (CNBB, Doc 71, 147)

 “O pároco ou presbítero não detém o monopólio da ministerialidade da Igreja [isto é, ele não deve fazer tudo sozinho]. Não tem, pode-se dizer, a síntese dos ministérios, mas o ministério da síntese”. Deve, portanto, acolher e valorizar os carismas ou dons de seus irmãos, os fiéis” (Doc 71, 148).

 “Finalmente, é oportuno lembrar que uma espiritualidade de comunhão deve levar as comunidades a abrirem-se umas para as outras, superando a tentação de tornarem-se unidades auto-suficientes. Muita economia de recursos e esforços acontece quando comunidades diferentes (...) relacionam-se e partilham descobertas e conquistas” (Doc 71, 150).

 Dessas considerações percebemos que os leigos e leigas – incluindo assim nós jovens – são chamados não só a darem testemunho do Evangelho no vasto e complicado campo da política, cultura, economia, família, trabalho, etc.. (sua “índole secular”) mas também no interior da própria Igreja, enquanto buscam viver e alimentar a sua fé.

 Desta forma, as lideranças e os coordenadores de trabalhos pastorais na Igreja são chamados e chamadas a exercerem esse “ministério da comunhão”, a exemplo da vasta tradição bíblica e cristã, trabalhando em comunhão com os pastores e demais irmãos e irmãs na caminhada pastoral.  São chamados a exercerem junto como os presbíteros a difícil tarefa de serem “sinal de unidade” entre os diversos carismas que o Espírito suscita na Igreja. Assim como os bispos e presbíteros trabalham sempre em colégio (conferencias nacionais e presbitérios diocesanos), também os coordenadores são chamados a superar a “tentação de tornarem-se unidades auto-suficientes”, mas contribuírem de forma visível para unidade entre as diversas comunidades paroquiais.

 É preciso que lembremos a todo momento que a ação evangelizadora não é um ato individual e isolado, mas uma responsabilidade de toda a Igreja (cf. Evangelli Nuntiandi, 60). Sem essa consciência e humildade, toda liderança, pois mais inteligente e dedicada que seja, não pode ser autêntica e não contribui para o anúncio da Verdade do Evangelho.

 Por fim, lembremos do belo exemplo do apostolo São Paulo. Ele, mesmo sendo um dos mais cultos e eloqüentes dos apóstolos, quando se colocou diante de uma dificuldade, quis se reunir com os apóstolos e anciãos que se encontravam em Jerusalém, para, junto com seus irmãos de fé, buscar aquilo que era melhor e mais conveniente para o anúncio do Evangelho (cf. At 15, 1-35). 

Rodrigo Assis Rosa, OMV

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