A EXPERIÊNCIA CRISTÃ DE DEUS
Rodrigo Assis Rosa, OMV

Diante do texto “A experiência cristã de Deus – fundamentos teológicos”1, se abre diante de nós um universo extremamente interessante no modo de enxergar o fenômeno religioso, sobretudo a partir de uma ótica cristã. Vale a pena ressaltar nesse momento que estaremos olhando “experiência de Deus” a partir da lógica do cristianismo, isso por considerar, junto a tantos outros teólogos que não há possibilidade de se fazer teologia a não ser a partir de uma fé específica. Fato este que não significa que a experiência do sagrado não possa ser feita fora do cristianismo, como salienta muito bem a nossa autora quando diz que “a experiência religiosa faz parte da experiência humana”. O que queremos definir (=limitar) aqui é o ponto de vista a partir do qual olharemos esta tão comentada “experiência de Deus”.

É interessante percebermos como a “experiência”, olhada pela filosofia e pela teologia, é algo profundamente existencial: toca o mais profundo de nós mesmos. Mas, ao mesmo tempo em que é uma realidade subjetiva, é também uma realidade objetiva. Acrescentamos ainda outro aspecto: do ponto de vista da psicologia, pudemos perceber que tal experiência de sentido, do encontro do Ego com o Self, é capaz de produzir em nós uma vitalidade nova, e por isso, tal encontro se faz decisivo na nossa formação para a liberdade e capacidade de abertura aos outros (alteridade).

Levando em consideração essas dimensões da experiência de Deus (ou experiência religiosa, ou ainda experiência de sentido), segundo o nosso texto, vale a pena sublinhar uma característica extremamente importante e vital, por assim dizer, que é a sua realidade trinitária. Realidade esta que ilumina a humanidade de uma maneira toda especial, que faz com que tal experiência possa ser vivida de uma forma libertadora e altruísta.

O cristianismo encontra-se fundado numa compreensão de um Deus que é comunhão, de um Deus que integra as diferenças: de um Deus que é Trindade e não solidão. Ele suscita a diferença, não por estar marcado pela insuficiência, mas justamente por ser comunhão.

Como bem sabemos, mediante a perspectiva trinitária, o plural, o múltiplo não podem, absolutamente, ser identificados como algo negativo. Identificar o plural como negativo é, em grande parte, fruto da tradição grega e filosófica que, com poucas exceções, ponderou unicamente a glória e a nobreza do "Um" encerrado em si mesmo (a que um monoteísmo “mal compreendido” pode conduzir). E também a teologia pode cair nesse risco. Clodovis Boff, em sua obra Teoria do Método Teológico já alertara para um grande problema, em profunda relação com o que estamos explicitando: nenhum sistema teológico pode pretender dar conta de Deus na sua totalidade, justamente porque o “Mistério é sempre maior”.

Ora, parece que é a mesma problemática vista pela nossa autora: “O mais belo discurso sobre a Trindade não esgotaria o Mistério de Deus, tampouco conseguiria descrever o que acontece na experiência de encontro entre Deus Uno e Trino e o ser humano”. O cristianismo não fecha, assim, caminho a uma concepção mais flexível da unidade. Neste sentido, introduz em sua própria linguagem uma abertura que felizmente impossibilita qualquer raciocínio excludente. Assim, podemos nos aproximar da intimidade de Deus, um Deus que integra a diferença e que convoca o cristianismo a dar direito à diferença (e isso é extremamente belo!). Trata-se, igualmente, de um Deus que é mistério que sempre advém. Um Deus que é mistério do mundo, o Totalmente Outro, mas cuja visibilidade é provisória: se dá nas condições do mundo, na história, nos sinais dos tempos, dirá o Concílio Vaticano II.

É um Deus que quis se dar a conhecer, por amor e compaixão. O Deus que ouve o clamor do povo, lá no êxodo, agora vem entrar em relação, de maneira mais carinhosa, direta e visível em Jesus Cristo. Os Evangelhos testemunham de forma muito clara como Jesus retoma esta dinâmica de alteridade, suscitada pela sua profunda relação com o Pai. Trata-se de alguém que se afirmou e cresceu como um "judeu fiel" mas ao mesmo tempo crítico diante das rigorosas observâncias religiosas mantidas pelos judeus como expressão da vontade de Deus.

Mas o que Jesus tem a nos dizer sobre a experiência de Deus? Tudo! A autora nos índica alguns caminhos, quando diz que “Jesus revelou o verdadeiro rosto do Pai e se fez caminho de acesso à experiência de Deus como Abba”. Por isso é preciso fazer-se discípulo e discípula de Jesus, como os primeiros discípulos, para aprender dele o que significa viver Deus no mundo de hoje, tão carente de unidade de sentido na pluralidade de expressões.

O objetivo principal da missão dos primeiros discípulos não era, em primeiro lugar, anunciar uma nova doutrina, mas sim testemunhar uma nova maneira de viver e de conviver. Deviam recriar e reforçar a comunidade local, o clã, a casa, para que esta pudesse ser novamente uma expressão do Reino, uma expressão do amor de Deus como Pai que faz de todos irmãos e irmãs. A missão dos discípulos e discípulas de Jesus revela que o Reino começa a acontecer quando as pessoas, tocadas pela vida e mensagem de Jesus, passam a acolher e partilhar as riquezas e valores que possuem; quando assumem em toda a sua radicalidade a dinâmica da filiação e da fraternidade: criaturas e filhos de Deus e irmãos e irmãs uns dos outros. O anúncio da Boa Nova de Jesus consiste justamente em tirar o véu e revelar que o Reino de Deus está em nosso meio e acontece onde quer que Deus esteja reinando mediante sua graça, seu amor, vencendo o pecado e ajudando os homens a crescer.

Assim é preciso experimentar a Deus, porque isso é possível. Jesus nos disse e nos mostra como. É preciso mística; é preciso também coragem altruísta como conseqüência daquela. É preciso experimenta-lo por meio de suas mediações, através daqueles pelos quais ele deseja ser vivenciado. Porque esta experiência – de fé, de confiança, de serviço no serviço aos irmãos – é o mais vital de nossa própria vida. “É claro que Deus não pode ser demonstrado, nem se consegue experimentá-lo com receitas, mas vivendo justamente” – dirá o profeta de nossos dias, Pedro Casaldáliga.

Bibliografia

Casaldáliga, P. Com Deus no meio do povo, São Paulo: Paulinas, 1985.
RECH, Helena T. “Experiência cristã de Deus, fundamentos teológicos”, in Teologia em Mosaico. [pp 98-110].

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1 RECH, Helena T. “Experiência cristã de Deus, fundamentos teológicos”, in Teologia em Mosaico. [pp 98-110].



 

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